Don Divo Barsotti

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quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Monsenhor Guido Marini

Os Católicos descobrirão no sábado, em Les Invalides, o retorno de práticas esquecidas.

Na sacristia, é ele quem supervisiona as vestimentas de Bento XVI. O Papa entra, eles trocam um sorriso, já focados na Missa que o Sucessor de Pedro se prepara para celebrar. Monsenhor Guido Marini, jovem prelado italiano de 43 anos, é o Mestre de Cerimónias Litúrgicas Papais. Sua face ingénua mostra uma aparência muito precisa. Nenhum detalhe parece lhe escapar. Magro, alto, ele respeitosamente auxilia o Papa a colocar seus paramentos. Depois, vem um tempo de oração. A Missa pode começar.

Na manhã de sábado, atrás do altar instalado na Esplanada dos Inválidos, Monsenhor Guido Marini da mesma forma irá ajudar o Papa Bento XVI. Em outubro de 2007 ele mesmo apontou o jovem prelado a essa posição mais que sensível. Ele está encarregado de organizar, num segundo, as Missas do Papa: da escolha dos paramentos e acessórios litúrgicos ao canto, sem esquecer da escolha dos cálices e da postura do corpo. É o estilo formal da celebração da Eucaristia que está em suas mãos. Quando se conhece o compromisso de Bento XVI com a bela liturgia, ele não poderia ter escolhido ao acaso aquele que substituiu outro Marini, Piero Marini, cuja face é mais conhecida já que foi o Mestre de Celebrações de João Paulo II por duas décadas. Realmente, o mestre de cerimónias está sempre a dois passos do Papa durante as celebrações maiores.

Uma cruz no centro do altar.

Uma posição exposta, portanto, nos média e ainda mais eclesialmente. O jovem Guido Marini conhece algo sobre isso. Nos últimos meses ele concentra em si os méritos, mas também as críticas. Ele incorpora o retorno da tradição. As razões são as “inovações” litúrgicas para a Missa do Papa, que são todas reinício de elementos esquecidos nos últimos anos. Mas é verdade que em matéria de liturgia o mínimo símbolo é repleto de significado.

Então os Parisienses na manhã de sábado, e aqueles que seguirem a Missa em Lourdes, nas manhãs de domingo e segunda, não se surpreenderão em ver que o Papa dará a Comunhão na boca dos fiéis ajoelhados, excepto, claro, se a pessoa estiver fisicamente impossibilitada. Que Bento XVI, outro exemplo, não mais sistematicamente carrega a famosa cruz pastoral prateada de João Paulo II.

Que uma majestosa cruz retornará ao centro do altar do qual ela fora retirada, sob o Papa João Paulo II, por ser um problema para as imagens de televisão. Que as milhares de hóstias consagradas serão mantidas num cibório de metais preciosos e não de argila. Deve-se também mencionar o uso, para as grandes Festas, das antigas mitras papais, ricamente decoradas e que dormia entre os tesouros do Vaticano. E o uso, em certos casos, do trono papal….

Tantas “novidades” que reasseguram algumas, mas problemáticas partes da Igreja, e mesmo perturbam aqueles que denunciam isso como “um passo atrás”. É dito que certas pessoas estavam de alguma forma chocadas por esses pedidos, quando Monsenhor Guido Marini veio para preparar, no meio de Junho, as viagem desta semana do Papa. A respeito, em particular, da questão da comunhão na boca e de joelhos.

Se Monsenhor Guido Marini não é para nada nesses desenvolvimentos, seria desconhecimento do funcionamento da Santa Sé imaginar que ele é a única pessoa responsável por isso. Particularmente já que existe na Igreja Católica um “ministério” responsável por esses assuntos: a Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos. Se ele aconselha, o Papa decide. É, portanto, o próprio Bento XVI que deseja esse novo curso. A escolha desse mestre de celebrações litúrgicas papais foi recomendada por seu Secretário de Estado, o Cardeal Tarcisio Bertone, número 2 da Santa Sé, de quem foi mestre de cerimónias, quando era arcebispo de Gênova, o Monsenhor Guido Marini, um padre lá conhecido por esse seu carisma pastoral, de temperamento moderado e atencioso para com todos, qualidades que ele aparentemente não perdeu no Vaticano. Ele detém um duplo doutorado em direito, civil e canônico, e uma licenciatura em psicologia e comunicação.

Em seu luminoso escritório no Vaticano, na esquina da Praça São Pedro, Monsenhor Marini explica: “Bento XVI quer enfatizar que as normas para distribuir a Comunhão na Igreja Católica ainda estão em vigor. Esqueceu-se absolutamente que a distribuição da Santa Comunhão na mão é devido a um indulto, uma excepção pode-se dizer, dada pela Santa Sé às conferências episcopais que o requisitaram”. Ele reconhece que Bento XVI tem uma “preferência” pela comunhão na mão . Entretanto, ele observa, “receber a hóstia na boca enfatiza a verdade da Presença Real na Eucaristia, ajuda na devoção dos fiéis e introduz mais facilmente no sentido de mistério. Muitos aspectos são importantes de ressaltar hoje e urgentes de se recuperar”. Nada, portanto, de uma fantasia papal. Essas mudanças nas formas litúrgicas são partes de uma visão clara de Bento XVI e explicitamente expressa em Roma por muitos interlocutores próximos a ele: “Conseguir, finalmente, uma síntese litúrgica entre a Missa de Paulo VI e aquilo que a tradição pode contribuir para seu enriquecimento”.

Como método para chegar lá, ele recusa a trilhar uma nova guerra litúrgica, mas procura contar com “pedagogia” e “paciência”. Ainda de acordo com os proponentes desse assunto, o Papa quer contrapor “pelo exemplo” as “deficiências” que ele sempre denunciou desde 1970: a falta de “recolhimento” e “silêncio”; a perda do “sentido do sagrado”, que ele também chama de sentido “cósmico” da celebração litúrgica onde, conforme a teologia Católica, e por sinal também a Ortodoxa, “o próprio Deus, através da encarnação do Filho, faz-Se realmente presente na hóstia Consagrada”.

“Servindo o sentido do sagrado”.

Monsenhor Guido Marini é formal: “Não é uma batalha entre o antigo e o moderno, muito menos entre o pré-conciliar e o conciliar. Esse tipo de ideologia problemática está hoje desactualizado. O antigo e o novo pertencem a um mesmo tesouro da Igreja. A celebração litúrgica deve ser a celebração do mistério sagrado, do Senhor crucificado e ressuscitado. É nosso dever encontrar, na herança da liturgia, uma continuidade para servir este sentido do sagrado.” E ele aponta, de passagem, que muitos focam nos quatro ou cinco desenvolvimentos dos últimos meses sem ver que ele trabalha tanto com o “legado” de seus predecessores, entre eles o Arcebispo Piero Marini. “Não há ruptura com o que estava sendo feito anteriormente”, ele assegura. Quanto ao uso do trono papal e de antigas mitras, não é sistemático [no sentido de “exclusivo”]: eles são usados “apenas em algumas solenidades”.

Sem ruptura, certamente, mas esse movimento de branda reforma da liturgia, tão simbólico quanto possa ser em suas aparências, está firmemente enraizado no pensamento de Bento XVI. Ele nunca escondeu nada antes de se tornar Papa. Em suas Mémoires, Ma Vie 1927-1977, publicado dez anos atrás na França por Fayard, Joseph Ratzinger mostrou suas cores a respeito da forma litúrgica do Concílio Vaticano Segundo que ele viveu aos quarenta anos: “Eu estava consternado”, escreveu, “com o banimento do antigo Missal, já que tal desenvolvimento nunca fora visto na história da liturgia. (…) Uma renovação litúrgica que reconheça a unidade da história da liturgia e que entenda o Vaticano II não como uma ruptura, mas como um estágio de desenvolvimento: essas coisas são urgentemente necessárias para a vida da Igreja. Estou convencido que a crise na Igreja que estamos experimentando hoje é em grande escalada devida a uma desintegração da liturgia (…). É por isso que precisamos de um novo movimento litúrgico que chamará à vida a real herança do Concílio”. Como um fino conhecedor da vida Romana diz, Pe. Federico Lombardi, um experiente Jesuíta que chefia a Rádio Vaticano e a Sala da Imprensa, deve-se ser cauteloso com “interpretações” que levariam a considerar esses desenvolvimentos como uma revolução. Mas tudo sugere que esse “novo movimento litúrgico” está bem e verdadeiramente lançado. Bento XVI não visa disseminá-lo através de regulamentações, mas pela força do exemplo.