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domingo, 26 de junho de 2016

Quatro padres do pós-Vaticano II falam sobre como chegaram a conhecer e a amar celebrar a Missa na Forma Extraordinária


Encontrando o que nunca deveria ter se perdido: Sacerdotes e a Forma Extraordinária

Quatro padres do pós-Vaticano II falam sobre como chegaram a conhecer e a amar celebrar a Missa na Forma Extraordinária [19/08/2014]

Depois que o Papa [Bem-aventurado] Paulo VI introduziu a Missa segundo o Novus Ordo, em 1969, a forma mais antiga do Rito Romano - às vezes chamada de Missa Tridentina, Missa Latina Tradicional e, mais recentemente, Forma Extraordinária - desapareceu virtualmente de muitas dioceses. Sua celebração foi severamente restringida, se não banida totalmente, e tornou-se uma fonte de controvérsia.
A ânsia entre alguns pela forma mais antiga da Missa, junto com decisões dos Papas [São] João Paulo II e Bento XVI, levaram a um uso maior e à desestigmatização de sua celebração com o passar dos anos. A mais significante dessas decisões foi o Motu Proprio Summorum Pontificum, do Papa Bento, em 2007, que declarou que qualquer sacerdote pode celebrar a forma mais antiga da Missa de sua própria vontade sem qualquer permissão especial de um bispo. Hoje, participantes das Missas na Forma Extraordinária são frequentemente jovens, enquanto decai o número de católicos mais velhos que permaneceram devotados à Missa de antes de 1969.
Catholic World Report conversou com quatro sacerdotes que regularmente celebram a Forma Extraordinária da Missa, sendo que cada um passou a maior parte de sua vida participando do, e a maior parte de seu sacerdócio celebrando o, Novus Ordo.

"Ambas as formas podem coexistir"
Pe. Mark Mazza serviu por vários anos como pastor da Igreja Estrela do Mar, próximo à Ponte Golden Gate na Arquidiocese de San Francisco, e como capelão da Sociedade da Missa Latina Tradicional de San Francisco. Recentemente iniciou uma licença médica de seis meses.
Ordenado sacerdote em 1980, Pe. Mazza celebrou o Novus Ordo por mais de 30 anos, quando o Arcebispo de San Francisco, D. Salvatore Cordileone, pediu-lhe para iniciar uma Missa na Forma Extraordinária regular na paróquia em 2012. Ele aceitou, e passou vários meses aprendendo suas precisas rubricas.
Há muito tempo Pe. Mazza lamentou o fim da celebração da forma mais antiga da Missa em várias dioceses após o Concílio Vaticano II. "Eu sempre pensei nisso como uma grande perda, mesmo quando eu era criança", disse. "Nós a celebramos por tantos séculos e ela entrou num eclipse. É uma bela parte de nossa vida de fé que não deveria ter se perdido".
Ele rapidamente se agradou com a celebração da Forma Extraordinária, e planeja continuar celebrando-a privadamente enquanto estiver de licença médica. "Eu realmente gosto dela", explica. "Ela tem uma qualidade mística, contemplativa, misteriosa, com seu uso do Latim, os gestos, a posição do altar e as orações, que são mais ornadas do que as que temos hoje. Eu me vejo celebrando a Missa tradicional bem mais do que a Forma Ordinária".
Pe. Mazza enfatizou que, de acordo com o Papa Bento, a "Missa Antiga" não é sum rito separado, mas parte de um único rito com duas formas, a Ordinária e a Extraordinária. "Acredito que não precisa ser uma questão de ou uma ou outra, mas que ambas as formas podem coexistir", diz.
A Missa na Forma Extraordinária em Estrela do Mar traz mais de 200 participantes nos fins de semana, de todos os grupos étnicos. O alto custo de se viver em San Francisco tem sido um inconveniente, apontou Pe. Mazza, já que poucas jovens famílias podem bancar a vida na cidade. Disse, "temos um monte de igrejas na cidade, mas precisamos de pessoas para enchê-las".
A reação dos colegas clérigos do Pe. Mazza à sua promoção da Forma Extraordinária tem sido mista. Vários apoiam, diz ele, mas outros opõem-se como a algo "contrário ao Concílio Vaticano II". "Eles gostariam de vê-la banida", diz. O Arcebispo Cordileone tem sido um grande apoiador, aponta, e virá à paróquia em 14 de setembro para celebrar uma Missa Pontifical Solene.
Dois sacerdotes do Oratório de São Filipe Néri agora ajudam na paróquia e comprometeram-se em continuar a oferecer a Missa na Forma Extraordinária.
Pe. Mazza é grato pela oportunidade de aprender e celebrar regularmente a forma mais antiga da Missa, que ele vê como "refrescante". "Nunca me canso dela", diz. "Fico à espera de ir para o altar e celebrá-la todo dia. De fato, celebrar a Missa é o ponto alto do meu dia".

Mais batismos do que funerais
Pe. Paul Beach é o pastor da Igreja de São Martinho de Tours, em Louisville, Kentucky. A paróquia foi fundada em 1853, e serviu uma comunidade de imigrantes alemães. É uma igreja bela, histórica, nas proximidades do centro da cidade, que tem experimentado um quê de renascimento nos últimos anos. A paróquia teve primeiramente permissão para reviver a "Missa antiga" em 1988. Hoje, é uma das três paróquias na arquidiocese a regularmente oferecer a Missa na Forma Extraordinária.
Pe. Beach, 38 anos, é rápido em apontar que celebra a forma mais antiga da Missa por escolha, não por um senso de nostalgia. "Eu nasci 10 anos depois do fim do Concílio Vaticano II, e vários anos depois das mudanças litúrgicas serem implementadas", diz. "Minhas únicas lembranças são da Forma Ordinária, começando nos anos 70 até os 80".
Ele nasceu em Louisville, e estudou o ensino médio numa escola dos Irmãos Xaverianos. A escola de meninos exigia que os estudantes aprendessem uma língua estrangeira; as escolhas tipicamente eram Espanhol, Alemão e Francês. O Latim era oferecido, mas da classe de 350 estudantes, apenas Pe. Beach e 6 outros meninos escolheram o Latim. Ninguém no quadro de professores ensinava Latim, então o Ir. John Joseph, de 83 anos, que morava na comunidade de retiro dos Irmãos Xaverianos, aceitou lecionar. "Foi uma experiência que influenciou a todos nós", lembra Pe. Beach.
Ir. John Joseph usava textos da Missa Antiga para suas instruções. Pe. Beach inconscientemente aprendeu as orações da Missa Antiga sem perceber de onde eram as orações.
Em 1988, o pastor de São Martinho de Tours, Pe. Vernon Robertson, uniu-se aos paroquianos para pedir a D. Thomas Kelly, Arcebispo de Lousiville, a permissão para trazerem de volta a Missa Tridentina à paróquia. O arcebispo aceitou. Ir. John Joseph levou o futuro Pe. Beach e seus colegas adolescentes para a Missa Tridentina em São Martinho. Pe. Beach recorda, "eu sempre fui católico e nunca tinha experimentado a Missa daquele jeito. Eu não imaginava que tal Missa existisse. Fiquei encantado por ela".
Ele se viu atraído pela atmosfera pacífica e meditativa da forma mais antiga da Missa. Ele gostou de seu "teocentrismo" e do fato de ser ad orientem (com o sacerdote voltado para o Oriente, na mesma direção do povo. "As orações são orientadas para Deus, com o sacerdote falando em nome do povo", explica.
Para Pe. Beach, celebrar a Missa ad orientem era a maior diferença entre as duas formas. Ele diz que celebrar ad orientem resultou num menor foco no sacerdote. "Quando celebro a Missa, ela tem pouco a ver comigo, sacerdote, e mais a ver com Deus", diz. "A cruz é a imagem que vemos, que dá um sentimento de sacrifício enquanto nos aproximamos do topo do Calvário".
Pe. Beach pediu a seus pais que o levassem regularmente para São Martinho, e ele começou a servir na Missa Tridentina. Aos 17 anos, entrou no seminário e foi ordenado aos 25 anos em 2001. Durante seu tempo no seminário, aponta, ele teve que diminuir a ênfase de seu interesse pela Missa Latina, já que demonstrar um elo tão forte poderia ter sido um impedimento à ordenação.
Um rodízio de padres mais velhos celebrou a Missa Tridentina em São Martinho, mas numa época sobrou apenas um sacerdote. Pe. Beach perguntou ao Arcebispo Kelly, em 2005, se ele poderia celebrar a Missa em São Martinho. O arcebispo aceitou e eventualmente Pe. Beach tornou-se o pastor de São Martinho.
Ele teve que aprender a celebrar a forma mais antiga da Missa por is mesmo, já que antes doSummorum Pontificum não havia workshops, como hoje. Ele afirma que de ter servido na Missa Antiga, quando adolescente, e estar familiarizado com o Latim foram coisas que o ajudaram.
Hoje, a maioria das Missas que Pe. Beach celebra são na Forma Ordinária, e celebra na Forma Extraordinária nos fins de semana. Cerca de 250 pessoas participam regularmente da Missa na Forma Extraordinária em São Martinho, e a maior parte é composta por pessoas de sua idade ou mais jovens. "Há quem se surpreenda pelo fato de atrairmos tantos jovens", diz ele. "Pensam erroneamente que as pessoas vêm para a Forma Extraordinária por razões nostálgicas".
Ele realiza bem mais batismos e casamentos do que funerais na paróquia, e acrescenta: "com um monte de bebês gritando".
São Martinho é uma das paróquias mais belas da arquidiocese. Seu interior contém um magnífico altar mor de mármore, janelas com vitrais coloridos, estatuário tradicional e relíquias de São Magno e São Bonosa. A igreja está aberta 24h por dia, com seguranças de prontidão. Há sete hospitais localizados nos limites da paróquia, diz Pe. Beach, logo pode-se encontrar pessoas rezando na igreja em todas as horas do dia.
O Arcebispo Joseph Kurtz está à frente da Arquidiocese de Louisville desde 2007. Um dos bispos de melhor perfil da nação, ele também é presidente da Conferência Católica dos Bispos dos Estados Unidos. Embora D. Kurtz não celebre a Missa na Forma Extraordinária, ele tem sido um grande amigo da paróquia, diz Pe. Beach. Visitou-a várias vezes e tem dado apoio aos sacerdotes que desejam aprender a Forma Extraordinária.
Pe. Beach acredita que alguma tensão que houve em torno da celebração da Missa antiga já foi abrandada. Entre seus irmãos presbíteros na arquidiocese, de fato, ele tem visto interesse de alguns padres da mesma idade e mais jovens em celebrá-la.
"Os católicos que queriam a Missa na Forma Extraordinária já foram vistos com desconfiança; eram vistos como cismáticos ou não aceitando os ensinamentos do Vaticano II", disse. "Mas houve uma normalização da Forma Extraordinária, um reconhecimento de que se trata de uma parte da riqueza da tradição da nossa Igreja".

Um sacrifício, não apenas um memorial
Pe. Peter Carota é um dos vigário da Paróquia Santa Catarina de Sena, em Phoenix, Arizona. Ele celebra ambas as formas da Missa na pobre paróquia, majoritariamente hispânica.
"A Missa Tridentina me transformou", disse. "Gosto de sua reverência e ela ajudou-me a ver a Missa como um sacrifício, não apenas um memorial".
Pe. Carota cresceu perto de Santa Cruz, no norte da California. Ele é um de 19 filhos, 13 dos quais foram adotados. A família participava da "extremamente progressista" Paróquia da Ressurreição em Aptos, California, e muito de seu catolicismo tinha um "foco em justiça social". "Tínhamos liturgias selvagens", ele lembra. "Você teria visto mulheres junto ao altar, fazendo a fração da Hóstia consagrada".
Pe. Carota diz que foi "muito liberal" em sua juventude, inclusive sendo "pró-escolha" na questão do aborto. Ele queria ser sacerdote quando menino, "mas o mundo sugou-me". Ele tornou-se um corretor de imóveis bem sucedido, mas mantinha um ativo interesse na Igreja Católica. Por nove anos operou a Cozinha Católica de São Francisco, que alimentava pessoas sem lar.
Ele fez extensas leituras e eventualmente "converteu-se" para o catolicismo tradicional. Ultimamente, decidiu vender as propriedades que tinha adquirido e entrar no seminário da Diocese de Stockton, California.
Quando se tornou pastor da Igreja de São Patrício em Ripon, uma pequena paróquia rural na diocese de Stockton, Pe. Carota passaria seus dias estudando livros sobre liturgia, Vaticano II e tópicos relacionados. Ele diz que "nunca tinha sabido nada daquilo". Ele começou a celebrar a Missa Tridentina em São Patrício.
Com o apoio de seu bispo, Pe. Carota veio para Phoenix em 2013 para ajudar um sacerdote amigo, Pe. Alonso Saenz, pastor da Paróquia Santa Catarina. Pe. Saenz queria um sacerdote que quisesse celebrar a Missa ad orientem, e Pe. Carota queria celebrar regularmente a Missa na Forma Extraordinária e oferecer os sacramentos na forma litúrgica mais antiga.
Pe. Carota deseja fundar uma nova comunidade com o nome do Papa Pio V, que possa fomentar "a beleza da Missa Latina, a beleza dos sacramentos da forma como antes eram celebrados, e a beleza da arte que é parte de nossa tradição católica".
"90% dos católicos de hoje não teve experiência da Igreja antes do Vaticano II", explica. "Eles não conhecem sobre sua arte, arquitetura ou liturgia tradicionais. Eu quero iniciar uma ordem para espalahar pelo mundo nossa maravilhosa tradição".
A maioria dos fiéis em sua comunidade da Missa Latina são pobres imigrantes mexicanos, diz ele, que têm sido recetivos para com a "Missa antiga" e sua perspectiva tradicional. Ele devota duas a três horas diárias a seu blog, http://www.traditionalcatholicpriest.com/.
Entre seus conhecidos estava o Pe. Kenneth Walker, da Fraternidade de São Pedro, que ficava numa paróquia próxima e que foi assassinado por um intruso no dia 11 de junho [de 2014]. Pe. Walker celebrava a Missa na Forma Extraordinária em Santa Catarina quando Pe. Carota estava ausente.
Pe. Carota admite que foi difícil deixar a bela paisagem do norte da California pelo ambiente de uma paróquia urbana que é "feio, barulhento e cheio de drogas e prostituição", mas "servir esta paróquia tem me dado muita alegria", diz ele.

Do rock cristão para a Missa Latina
O carmelita Pe. Mark Kristy reside na Casa de Oração Carmelita de Oakville, na Diocese de Santa Rosa, California. Ele celebra a Missa na Forma Extraordinária na Casa de Oração Carmelita e noutros lugares do norte da California.
Pe. Kristy cresceu em Whittier, no sul da California. Nos anos 70 foi baterista de uma banda de rock cristão, a banda Shalom, que tocava em Missas no Novus Ordo. Ele conheceu um sacerdote carmelita que lhe sugeriu considerar a possibilidade de unir-se aos carmelitas. Por volta da mesma época ele leu a Noite Escuta de São João da Cruz, um frade carmelita, que também o influenciou para entrar no Carmelo.
"Eu visitei a comunidade carmelita em Oakville e decidi entrar", diz Pe. Kristy.
Ele foi ordenado sacerdote em 1985, e tornou-se psicotepeuta. Ele trabalhou em paróquias em Tucson e na Arquidiocese de Los Angeles antes de ir para Oakville. Ele ainda oferece conselhos profissionalmente para seus clientes.
Enquanto esteve no norte da California, ele participou de uma Missa Latina oferecida pelo Pe. John Rizzo da Fraternidade Sacerdotal de São Pedro, cujos membros celebram exclusivamente a forma mais antiga dos sacramentos. "Depois de vê-lo celebrá-la, eu amei a Missa Latina. Ele perguntou-me: 'Por que você não a aprende?'"
Pe. Rizzo treinou-o, e Pe. Kristy tem passado a última década celebrando a Missa na forma mais antiga. "A Missa tradicional é dirigida a Deus Pai através de seu Filho Jesus Cristo", diz Pe. Kristy. "Ela também tem uma ênfase no sacrifício de Jesus Cristo".
Algumas dos irmãos carmelitas de Pe. Kristy não entendem sua ligação com a Missa antiga, diz ele, mas o apoio que recebeu de seus superiores fizeram-no continuar a celebrá-la todos os dias na Casa de Oração Carmelita. "Muita coisa mudou na Igreja nos últimos 50 anos", ele disse, "mas uma coisa negou-se a mudar, e esta é a Missa Latina".

Autor: Jim Graves