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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Don Fouad Twal ,Patriarca Latino de Jerusalém: Viemos de todas as partes do mundo para honrar a Virgem Santíssima; para reparar o seu Coração Imaculado e para consolar o Coração do seu amado Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor.




Homilia - 13 de maio
2014-05-13




HOMILIA


13 de maio de 2014


Queridos Irmãos no Episcopado,

Queridos Irmãos e Irmãs em Cristo:


Que bem estamos aqui! Como nos sentimos bem, sentimo-nos como em Casa, junto a Maria Santíssima!


E como nos faz bem estarmos juntos, ajudando-nos com as nossas orações, imitando-nos uns aos outros com as nossas virtudes!


Agradeço de coração o gentil convite do Senhor Bispo, D. António Marto, e a todos os organizadores desta grande peregrinação!


Viemos de todas as partes do mundo para honrar a Virgem Santíssima; para reparar o seu Coração Imaculado e para consolar o Coração do seu amado Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor.


1. Fatima. Um mistério de amor, de inocência, de santidade.

Faz-nos bem vir a Fátima. Recorda-nos, entre outras coisas, que quando Deus opera escolhe gente simples, lugares simples, linguagem simples.


Assim fez no início da Redenção: quando elegeu Maria Santíssima, São José, os Pastores…


Assim fez ao eleger a pobre casa de Nazaré, a manjedoura de Belém… o caminho do desterro.

Assim fez dialogando de forma muito clara e objetiva através do Anjo da Anunciação.

Assim quer que sejamos simples também nós!

Aqui em Fátima, escolheu três crianças muito inocentes: Lúcia, Jacinta e Francisco.

Escolheu uma azinheira num descampado.

Escolheu a linguagem simples de Maria, do Anjo e do próprio Jesus.

Quanto necessitamos ainda da mensagem de Fátima!

Necessitamos que os nossos jovens escutem a voz do inocente Francisco, que queria cada vez mais amar a Jesus, enxugar-lhe as suas lágrimas.


Necessitamos que a gente adulta pense e aja como a pequena Jacinta, esse anjo do Céu, que na sua infância, agiu com a seriedade de quem entende que a salvação da alma, das nossas almas, é o assunto principal a que nos devemos dedicar.


Necessitamos que todos, em todas as partes do mundo, consagrem – cada um segundo a sua vocação específica como fez a Irmã Lúcia –, toda a sua vida a encarnar e a propagar a mensagem de Cristo, mensagem de amor e de reconciliação, e os apelos de Maria Santíssima em Fátima.


São muito atuais os apelos de Maria. E o mundo, em perigo de perdição, não encontrará paz e graça se não se esforçar por colocar em prática o que a Virgem Maria pediu aqui.


2. A Virgem de Fátima nasceu na Palestina e desde ali iniciou a sua vida itinerante…

A partir de Nazaré – onde começará a ser a Mãe do Verbo Encarnado – “A cheia de Deus”, a cheia de graça, vai pressurosa a Ain Karem para compartilhar essa graça no seu serviço de piedade e caridade;


Encontramo-la logo em Belém – onde o mundo fiel (os pastores) e o pagão (os reis magos) contemplarão o fruto do seu ventre virginal;


Dali, como os milhões de refugiados no Médio Oriente e em África, se refugiará no Egito, protegendo o Filho das suas entranhas e crescendo no amor virginal com São José.


Logo, regressa a Nazaré… acompanha o seu filho a Caná – onde antecipa a Hora do Senhor, pedindo-Lhe um milagre.


Vai com o Seu Filho a Cafarnaum…


E acompanhá-Lo-á na sua Via-Sacra… e na sua Sepultura.


E assim fará com o Corpo Místico de seu Filho que é a Igreja… Ela esteve presente no Cenáculo até à vinda do Pentecostes… bastava a sua presença para tranquilizar os discípulos…


Ela nunca esteve parada! Sempre acompanhou e acompanha a vida de seus filhos.


Assim, ao longo da história, apareceu no Pilar e em Guadalupe… assim quis Ela chegar em pessoa aqui, para santificar este lugar com a sua presença e aparição;


Hoje, seguindo os passos desta amada Mãe peregrina, venho aqui, a Fátima e trago comigo toda a comunidade cristã de Jerusalém para me unir a vós na devoção a Nossa Senhora.


É Maria Santíssima quem nos une em Cristo. Ela fortalece o forte laço que existe entre Fátima em Portugal e Jerusalém na Terra Santa.


Um santuário leva-nos naturalmente ao outro. Nós, os da Terra Santa, sentimo-nos atraídos a todos os lugares onde a Mãe de Deus quer continuar a ajudar a humanidade.

Vós não podeis deixar de pensar nos lugares onde Maria Santíssima nasceu, viveu, sofreu e foi elevada ao Céu. Convido-vos a que façais também esta experiência da presença de Maria, peregrinando à Sua Terra. Espero-vos a todos com muito gosto!


Muitos são os santuários marianos no mundo, mas Ela é uma só, e Ela nos ensina a procurar a verdadeira unidade na Fé em seu Filho e na verdadeira Caridade.


Maria não tem problema em apresentar-se com vestes diversas e com cores de pele diversas. Ela não tem medo de nos falar em diferentes idiomas.


Olhemos ao nosso redor… viemos de muitas partes. De diferentes culturas… ninguém se sente estrangeiro junto de Maria… e todos juntos formamos uma só família, família que ama, família que busca amor, paz, saúde e serenidade.


Assim é e assim deve ser.

Como diz a Sagrada Escritura: “Vede como é bom e agradável que os irmãos vivam unidos!” (Sl 133,1)


3. Nossa Senhora em Fátima chama-nos à conversão, à mudança de mentalidade e de coração. E para isso nos chama à confissão dos pecados, a rezar e a sacrificarmo-nos pela salvação de todos.


A mensagem de Fátima é uma mensagem da Virgem Mãe ao pé da Cruz. Sim! Desde o Gólgota do Seu Filho, e seu também, Ela chama-nos à conversão. É uma mensagem agridoce, porque por um lado contemplamos a sua maternidade amorosa que nos enche de consolo, mas por outro não podemos deixar de contemplar o significado da morte de seu Filho: o seu Calvário, os seus sofrimentos e os sofrimentos da própria Virgem… e o motivo de todos esses sofrimentos: a salvação da humanidade, a nossa salvação.


Se a Virgem quis aparecer aqui e chamar-nos à conversão, é porque o mundo está em perigo. E não só considerando a sua dimensão material, mas o seu aspeto principal: os homens e mulheres do mundo, todos e cada um dos habitantes do planeta terra, estão em perigo de eterna condenação. Retirai este aspeto da mensagem de Fátima, e a aparição e a mensagem de Nossa Senhora não terão significado.


Acabámos de terminar as celebraçõess da Semana Santa. A impressionante súplica de Jesus pregado na Cruz sobre o Gólgota de Jerusalém repetiu-se também neste lugar santo: “Que fazeis?” – perguntou o Anjo aos pastorinhos, que estavam a brincar durante a sesta – “Que fazeis? Orai, orai muito […] De tudo que puderdes, oferecei a Deus sacrifício em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e súplica pela conversão dos pecadores”.


Cristo é a nossa paz. Ele adquiriu para nós a paz com o preço do seu Sangue e das suas súplicas – “foi atendido por causa da sua humildade” (Heb 5, 7-8).


Em Fátima, o Céu pede-nos também que ofereçamos sacrifícios e orações pela paz “Atraí, assim, sobre a vossa Pátria a paz”, disse o Anjo aos Pastorinhos.


E a Virgem Santíssima, logo depois de lhes perguntar se estavam dispostos a sofrer pela conversão dos pecadores, pede-lhes: “Rezem o terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra”.


4. Queridos irmãos. Quanto ódio há no mundo! Quantos crimes e quanta violência! Quanto sangue se derrama nos altares imundos dos ídolos!


A quem recorrer? A Cristo – como nos ensinou Maria em Caná: “Fazei o que Ele vos disser!” (Jo 2, 1-11).


Que fazer? Rezar o Rosário todos os dias; confessar-se; oferecer, de tudo o que pudermos, sacrifícios; viver na caridade.


Temos muitos desafios, mas não estamos sós. Cristo assegurou-nos que estaria connosco “todos os dias até à consumação dos séculos” (Mt 28, 20) e temo-nos uns aos outros, para nos ajudarmos, para nos imitarmos no bem, e nos associarmos na difusão dos valores do Evangelho.


Este ano trabalhar-se-á na Igreja o tema da família, com vista ao próximo Sínodo dos Bispos no mês de outubro, convocado pelo Papa Francisco e que tem como tema: “Os desafios da família”.


Devemos pensar na unidade da família; da família internacional – composta pelas nações e povos do mundo –; também da família eclesial – na bela diversidade das suas vocações –, mas, e sobretudo, pensemos e trabalhemos pela família humana. Por aquela que o Criador instituiu para que seja base e fundamento da sociedade. A família baseada no matrimónio indissolúvel entre um homem e uma mulher; família criada para ser fonte de amor mútuo e generosa fecundidade.


Rezemos pelos frutos do Sínodo e por todas as famílias do mundo, a fim de que todos possam experimentar o amor de Deus, que se manifesta no seio dos lares.


Peçamos também por aqueles que, desgraçadamente, por vários motivos sofrem nas suas realidades familiares. Que não percam a fé em Deus nem a esperança no divino.


A riqueza da família no Oriente pode servir, em certo aspeto, de estímulo a muitas graves realidades que se vivem no Ocidente, demonstrando que não é impossível viver bem a sã vida familiar:


O amor e os laços familiares que se experienciam nos lares no Oriente são muito fortes: tanto assim é que os lares da terceira idade não têm utentes! Porque as famílias não querem deixar os mais idosos! Famílias numerosas… devoção mariana com um resultado positivo de muitas vocações sacerdotais.


5. Outro desafio é a paz.

Há muitos problemas no mundo e particularmente no Médio Oriente: graves problemas políticos – sistemas e governos inteiros que não conseguem restaurar a continuidade e a serena convivência; os fanatismos religiosos – mas também de alguns grupos islamitas ou de alguns grupos de judeus extremistas –; os check-points militares israelitas, que impedem a livre circulação dos habitantes árabes da Terra Santa e do mundo árabe para os seus lugares de culto e para os lugares onde vivem os seus familiares; centenas de milhares de refugiados – gente que perdeu tudo; casa, veículos, trabalho, terra… a sua dignidade… –; guerra aqui e ali… e rumores de guerra e greves por toda a Europa. Que o Senhor misericordioso tenha piedade de nós!


Que fazer? A resposta definitiva a todos estes problemas não a conheço.


Mas sim, sei que podemos rezar pela paz; todos os dias, especialmente na Santa Missa e no Rosário.


Sim! Rezar pela paz e, também, trabalhar pela justiça e pela dignidade do homem. Porque a justiça é o fundamento natural da paz. E a paz ou é justa ou não é paz verdadeira.


E se se sacrifica a justiça e a dignidade do homem, em busca de segurança, perdemos as duas coisas: a paz e a segurança.


Na Terra Santa há muitos muros que separam famílias, paróquias, terrenos; mas piores do que os muros de betão são os muros do coração do homem: as injustiças arreigadas; o ódio racial e religioso; a ambição e o egoísmo feito lei; a desconfiança, a força bruta e a arrogância em toda a parte…


Sim! Os muros do coração são invisíveis, mas são piores do que os visíveis. E há que trabalhar para que caiam todos esses muros. E… aqui então… também deveremos voltar à oração; a pedir Àquele que “derrubou na sua carne” (EF 2,14) a divisão dos homens, que nos dê a graça de derrubar os muros que nos separam.


Daí que a mensagem de Fátima, de conversão e oração, seja particularmente eficaz, para colaborar no caminho da paz na Terra Santa e em todo o Médio Oriente.



6. Sabeis que o Papa Francisco irá dentro de alguns dias à Terra Santa. Irá como peregrino da paz e como visitante da comunidade cristã de Jerusalém. Essa comunidade deseja viver sempre como a primeira comunidade cristã: unidos na caridade, assíduos aos sacramentos e à oração. O pequeno rebanho de Cristo na Terra Santa – apenas 2% da população – quer ser fiel a Cristo.


Rezemos pelos frutos da peregrinação do Santo Padre e tomemos o seu exemplo. Vinde também vós peregrinar à Terra Santa, vinde fortalecer a vossa fé e conhecer melhor as vossas raízes!


Receber-vos-ei no Patriarcado com muito gosto, mas não venhais todos juntos!


É meu desejo também que todos os bispos do mundo, unidos às suas realidades diocesanas, se sintam corresponsáveis pelas comunidades, pelo progresso e pela vida pastoral da Igreja na Terra Santa. Os cristãos do Médio Oriente, essas pedras vivas do corpo de Cristo, são um património comum que todos temos de custodiar. Neste sentido, expresso a nossa gratidão a todos os benfeitores e, de modo especial, aos Cavaleiros membros da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém.


– Hoje, convosco, sinto-me em família. Todos nos sentimos em família. Desejo que quando chegardes a Jerusalém, vossa Igreja Mãe, vos sintais também em casa.


É a fé que nos une e o amor de Maria Imaculada.


Hoje deverá ser uma data inesquecível nas nossas vidas. Uma data que divida em dois a nossa história pessoal: a vida antes desta peregrinação e a vida depois; a que começa a partir de hoje. Desejo que regresseis a vossas casas mais jovens e mais alegres, cheios de fé e de amor pelo Senhor, por sua Mãe e pela sua Igreja.





† Fouad Twal

Patriarca Latino de Jerusalém