Don Divo Barsotti

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terça-feira, 13 de outubro de 2009

Dom Bernard Fellay: “Eu não faço idéia alguma de quanto tempo as discussões irão durar”.

Dom Bernard FellayCom o levantamento do decreto de excomunhão, as discussões doutrinais ocorrerão entre Roma e a Fraternidade de São Pio X. Qual é o objetivo dessas discussões?

O objetivo que desejamos alcançar com essas discussões doutrinais é um esclarecimento importante no ensinamento da Igreja nos últimos anos. Sem dúvida, a Fraternidade São Pio X, em união com o seu fundador, o Arcebispo Lefebvre, teve diversas objeções quanto ao Concílio Vaticano II e esperamos que as discussões ajudem a dissipar os erros ou as graves ambigüidades que desde então se espalharam grandemente ao longo da Igreja Católica, como o próprio João Paulo II reconheceu.

Quanto tempo durará essas discussões? Quais são os pontos principais que serão discutidos e de que maneira?

Eu não faço idéia alguma de quanto tempo as discussões irão durar. Certamente, isso dependerá das expectativas de Roma. Elas poderiam levar um longo tempo. Isso porque os tópicos são muito amplos. Nossas principais objeções quanto ao Concílio, como, por exemplo, a liberdade religiosa, o ecumenismo e a colegialidade são bem conhecidas. Entretanto, outras objeções poderiam ser levantadas, como, por exemplo, a influência da filosofia moderna, novidades litúrgicas, o espírito mundano e sua influência no pensamento moderno que se infiltrou na Igreja.

Ambas as cruzadas de rosários surtiram efeito. Com relação ao Motu Proprio de julho de 2007, qual deveria ser a nossa atitude com relação aos padres que celebram a Missa Tradicional agora, mesmo se não exclusivamente, desde que celebrem a Missa Nova regularmente?

Basicamente, sempre que um padre quer voltar à Missa Tradicional, temos o dever de encarar esse gesto com uma atitude positiva; deveríamos nos regozijar e esperar que a Missa produza os seus frutos. Hoje em dia já vemos que isso é o que acontece na maior parte das vezes. É claro que existem padres que permanecem indiferentes ao rito antigo. O tempo irá mostrar quem é sério sobre ela e quem não é.

Que aviso você poderia dar aos fiéis com relação a esses padres? Qual deveria ser a aproximação dos leigos com relação a eles?

Os fiéis devem ser cautelosos e não se envolverem em situações embaraçosas. Eles deveriam consultar os nossos padres antes de se aproximarem desses padres. As circunstâncias são tão variáveis: cada padre é diferente e até que fique claro que a atitude do padre com relação à Missa é autêntica, o fiel deve permanecer cordial e ao mesmo tempo manter uma posição cautelosa.

Segundo o seu conhecimento, existe agora um número maior de padres que celebram a Missa de Sempre com exclusividade?

É difícil dar uma resposta exata porque não existe nenhum registro oficial e porque muitos daqueles que gostariam de celebrar a Missa antiga não ousam fazê-lo Em muitos países existe uma forte pressão por parte da hierarquia para impedir o seu retorno. Muitos padres têm de celebrá-la em segredo por medo. Entretanto, creio que o número está crescendo modestamente.

A crise da Igreja é uma crise de fé. Levará algum tempo até que todos os padres somente celebrem a Missa “Antiga”. É certo dizer que mesmo se, através das discussões doutrinais Roma voltasse à verdade integral, haveria sempre muita oposição quanto à Missa e o Vaticano II?

Precisamos ser realistas. A volta, a restauração da Igreja levará tempo. A crise na Igreja afetou todos os aspectos da vida cristã. Para sair dessa situação levará mais de uma geração de esforço constante na direção certa – talvez um século. Isso significa que precisamos esperar resistência. Porém, vamos esperar que o pior tenha passado e que os sinais de recuperação que vemos hoje em dia são sementes de realidade e não somente um sonho…

A Colegialidade foi um desastre para a Igreja. Será que apesar de tudo não podemos ver uma ligeira “rachadura na parede de colegialidade” com o Motu Proprio do Papa Bento XVI e mais recentemente com a retirada do decreto de excomunhão?

Sem dúvida, essas decisões são realmente dele. Existe uma maneira de compreender corretamente a colegialidade verdadeira. Paulo VI acrescentou uma “nota preliminar” ao documento sobre a Igreja, Lúmen Gentium, que colegialidade deve ser entendida de maneira adequada. O problema é que esta nota parece ter sido esquecida. A idéia geral que foi propagada e isso reduz falsa e significativamente os poderes do sumo pontífice constitui um perigo real para a Igreja e torna a governabilidade impossível. Então, os diversos atos do Papa devido ao “motu proprio” são bons sinais de disposição para governar a Igreja pessoalmente e não de maneira corporativa.

Houve tantos comentários – tanto contra e a favor – às decisões do Papa que ele foi obrigado a escrever uma carta de explicação aos bispos. É bom que o Papa se encontre “contra a parede”, por assim dizer?

Na verdade, depende do ponto de vista. A autoridade do Papa foi verdadeiramente abalada pelo tumulto no início do ano. Isso somente pode ser considerado como algo bom devido ao efeito oposto que isso traria a Roma que nos permitirá compreender quem ama a Igreja e trabalha para construí-la e quem não a ama.

Nos últimos 40 anos temos visto a autoridade suprema da Igreja reconhecer que existem problemas, tanto teológicos quanto doutrinais. O Papa não percebe que a “igreja conciliar” (para usar as palavras do Cardeal Benelli), e as suas reformas estão fadadas à ruína e que é necessário voltar à Tradição?

Não estou certo de que todo mundo veja as discussões doutrinais dessa maneira. Eu diria que para a grande maioria da hierarquia essas discussões são necessárias, não para a Igreja, mas para nós e para o nosso “retorno à plena comunhão” para adotar os novos caminhos. De fato, sinto que estamos enfrentando uma situação muito delicada. A realidade da crise é reconhecida, porém não os remédios. Dizemos, e isso se comprova pelos fatos, que a solução à crise é uma volta ao passado. Bento XVI disse a mesma coisa: Ele enfatiza a importância de não romper com o passado (a hermenêutica da continuidade), porém, ele mantém as improvisações do concílio como se elas não fossem uma ruptura com este passado. De acordo com ele, os únicos que estão errados e rompem com o passado são aqueles que vão além do concílio. Essa é uma questão muito sensível.

A posição do Papa sobre o ecumenismo não parece ser tão entusiástica quanto a de seu predecessor. Será que isso ocorre porque ele vê o ecumenismo como algo mais teológico em oposição ao “ut unum sint” com suas conseqüências calamitosas para a Igreja?

Não acho que o Papa veja o ecumenismo como algo ruim. Ele aprecia o fato de que a Igreja continua em sua direção e até mesmo disse que ele foi irreversível… porém, ele parece querer diferenciar entre as diversas crenças e favorece aquelas que estão mais próximas, como, por exemplo, a ortodoxa, em vez dos protestantes.

Este ano celebramos os 25 anos da presença da Sociedade [de São Pio X] na África, especificamente, o Priorado de Nossa Senhora das Dores, em Johanesburgo. Que conselho ou encorajamento o senhor pode dar aos paroquianos e a todos os fieis do distrito da África?

Obrigado, Deus por este maravilhoso aniversário. Devido ao tamanho da crise, 25 anos é uma grande conquista para a qual devemos dar graças. Isso também demonstra a grande lealdade por parte dos fiéis. Lealdade é uma glória verdadeira. Ela envolve a preservação de fé, constância e perseverança na batalha. Então, o melhor que poderia desejar-lhes – para todos nós – é que sejamos mais fiéis do que nunca.

fonte:fratres in unum