Don Divo Barsotti

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

PROGRESSISMO DO CARDEAL SIRI (IV PARTE)



Progressismo - Cardeal Siri - Parte IV

6. Tanto quanto possível acolher todas as várias filosofias e familiarizar-se com elas.

Outro apanágio que assegura a tão desejada classificação de “progressista”. Um princípio decantado de todos os modos pelo progressismo é o de acolher todo o pensamento como sendo fluente, procurar adequar a ele a mensagem cristã e, se necessário, fazer segundo ele, como que, uma reinterpretação da revelação divina.

Quem não consente com este ponto de vista é um conservador inveterado, um velho rude inútil, em quem nenhuma pessoa culta acreditará mais.

Apresentamos o fato de forma absolutamente crua; muitos, que gostam de ser progressistas, do ponto de vista do gênero, gostam de apresentá-lo em doses variáveis, até mesmo homeopáticas, o que lhes permite sempre uma tempestiva retirada estratégica.

Tenhamos bem em mente este modo de agir.

- O pensamento humano muda, diz-se. Melhor: muda o pensamento acadêmico segundo os ídolos do momento. Fora da profissão filosófica e intelectual etiquetada, continua a viver bem ou mal o bom senso. É verdadeiro, porém, que os instrumentos da cultura se orientam segundo os ditames da moda e assim influenciam muitos espíritos e muitos acontecimentos, como acontece no nosso tempo com os métodos hegeliano e freudiano, ainda que os seus autores sejam desconhecidos para muitos e sejam, ademais, mortos.

- Aceitar qualquer pensamento humano, frequentemente contraditório, significa algo mais que mudar a cabeça, mas, sobretudo significa não acreditar na existência da verdade. Se esta hoje é branca, amanhã é negra, quer dizer que não existe. A consequência lógica é patente: se se deve ajustar sempre a Palavra de Deus a este cenário cambiante, se aceita que não existe a verdade, a Revelação, Deus. A consequência é tremenda, mas não lhe escapa. O mesmo vale para a reinterpretação do dogma.

O progressismo que aceita o relativismo. Que coisa pode mais defender na fé? Tudo é destruído. Não heresia, mas já apostasia!

Com tudo isso não se exclui, de fato, que as diversas e contraditórias manifestações do pensamento possam ter qualquer parte ou aspecto imune à sua lógica interna destrutiva e, portanto, aceitável; que tais aspectos cheguem a ser iluminados, que tais estímulos sejam aferentes. Tanto menos se exclui que a mensagem evangélica seja apresentada de modo compreensível aos homens do próprio tempo, usando com a devida cautela a sua linguagem e os seus meios expressivos.

O parentesco entre o progressismo e o relativismo, ou seja, o modernismo condenado, é um parentesco por demais vergonhoso para se gloriar.

7. A recusa da apologética.

Estamos sempre na bagagem que autoriza a ser progressista.

As premissas da Fé (apologética) não se demonstram mais. A razão? Já foi dita e deriva logicamente de suas premissas: vimos que o progressismo aceita o relativismo (mesmo quando o desmente, nos seus cultores mais pávidos e menos explícitos). Vimos que para este não existe verdade objectiva. Devemos deduzir que a questão da Fé é uma mera questão de fé devocional, insuflada pelo sentimento (modernismo); o que há, pois, para se demonstrar? Nada.

De fato, no campo bíblico se põe em dúvida ou o texto ou o significado que a Igreja (Magistério) sempre lhe atribuiu, se põe em dúvida a historicidade dos Evangelhos, da Ressurreição de Cristo... Não é preciso demonstrar estas coisas. A Fé vai bem e é professada; é inútil buscar os elementos de prova.



Não vale que nenhum livro histórico da antiguidade tenha demonstrações de crítica externa e interna, as têm os livros da Bíblia. Estas coisas não servem mais.

Vimos e veremos a toda hora tantas pessoas voltarem-se para Deus, somente porque é possível dar uma demonstração científica, por exemplo, do evangelho de Mateus. Mas é preciso renegar também esta honesta capacidade que o Evangelho de Mateus – como os outros – tem de se fazer preceder pela mais rigorosa documentação da sua autenticidade. Isto é o progressismo.

Muitos anos atrás não conseguíamos entender porque um escritor de não muito peso não queria ouvir falar de “apologética”; agora entendemos. Mas não que ele o soubesse, não era capaz de tanto; era manobrado por quem, em silêncio, o sabia.

Muitos, que na mais perfeita boa fé, deram uma certa ordenação nova às matérias teológicas a serem estudadas, ordenação com a qual jamais consentimos, não sabiam que cumpriam um comando do modernismo latente sob as cinzas.



O silêncio, de fato, sobre a apologética, que se percebe em toda parte, o estupor sincero da parte de quem sempre considera necessária a apologética, o ato de fingir ignorar o seguimento lógico dos “porquês” da mente dos homens, indica até que ponto entrou o modernismo também em homens rectos e honestos.

Observando-se bem e, sobretudo, deixando de lado a erudição inútil, usando a própria mente, e se verá que todo o progressismo está eivado de modernismo. Talvez a recusa da apologética seja a manifestação mais reveladora. Citar, sim; raciocinar, não! Porque a razão e o seu valor não pode ser acolhida pelo modernista. É necessário algo mais para compreendê-lo?

8. A reabilitação dos heréticos.

Aqui está a largueza de coração do progressismo.

Já recordamos no n. 3 a ideia brilhante de quem propôs a canonização de Lutero. Mas há outro: os atingidos pelos anátemas do passado granjearam uma notável simpatia e têm muitos advogados de defesa, ou pelo menos em busca de atenuantes. Giordano Bruno, por exemplo, em certas revistas, ressurge das cinzas com fôlego para dizer “me fizestes esperar quatro séculos, mas consegui”. Os escritos dos autores protestantes, de deveriam estar no Index, em força do cânon 1399 (CIC 1917), são citados habitualmente no lugar de Santo Agostinho e de Santo Tomás. A euforia mais entusiasta acolhe todos aqueles que foram atingidos por censuras canônicas, antes como hoje, merecidas.

Mas tudo isto é normal?

Os filhos que elogiam em casa aqueles que causaram a ruína dos pais, que estão alinhados com os perseguidores dos próprios pais, se chamam “degenerados”.

Evidentemente a capacidade lógica para distinguir entre a instituição divina da Igreja e os homens que a conduzem fazem toda a falta.



Mas o entendimento subjacente não é mais tão invisível. São exaltadas as pretensas vítimas do magistério eclesiástico, para atingir o magistério eclesiástico; são engrandecidos os destruidores da disciplina eclesiástica para humilhar a Hierarquia, que tutela a própria disciplina. Aos heréticos e aos rebeldes aconselharemos a não confiarem muito em tais tortos amigos.

Muitos erros são afirmados, defendidos, divulgados, não tanto por si mesmos, mas somente para desprezar alguém. Eles são simplesmente a desculpa para as mais infantis paixões humanas.

Tudo dá caldo e, elogiando um pouco os rebeldes, apoiando um pouco os desgarrados, remexendo as coisas de modo próprio, se consumam as vinganças, se manifestam as invejas, se tornam conhecidos os desapontamentos daqueles que creem não ter podido “chegar”;sobretudo, na grande feira, fazem como lhes agrada. Os piores!

Ainda há condenações, certamente, mas existem, em via histórica, para aqueles que no passado trabalharam duro e fizeram o seu dever e para aqueles que hoje, dando-se conta da confusão e do regresso espiritual, desejariam deter suas causas.

Dir-se-ia que os Santos pertencem ao passado e os heréticos ao futuro: é um perigoso paradoxo.

Continua...

O progressismo - do Cardeal Giuseppe Siri [in «Rivista Diocesana Genovese», janeiro de 1975, pp. 22-36]

Fonte: Pontifex
Tradução: OBLATVS