Don Divo Barsotti

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

PAPA BENTO XVI convida a meditar todos os dias a Palavra de Deus com a prática fiel da lectio divina


FESTA DA APRESENTAÇÃO DE JESUS NO TEMPLO
XIII DIA MUNDIAL DA VIDA CONSAGRADA

HOMILIA DO PAPA BENTO XVI

Neste Ano Paulino, faço minhas as palavras do Apóstolo: "Dou graças ao meu Deus todas as vezes que me lembro de vós. Em todas as minhas orações peço sempre com alegria por todos vós, recordando-me da parte que tomastes na difusão do Evangelho, desde o primeiro dia até agora" (Fl 1, 3-5). Nesta saudação, dirigida à comunidade cristã de Filipos, Paulo manifesta a recordação afectuosa que ele conserva daqueles que vivem pessoalmente o Evangelho e se comprometem em transmiti-lo, unindo ao cuidado pela vida interior o esforço da missão apostólica.

Na tradição da Igreja, São Paulo foi sempre reconhecido pai e mestre daqueles que, chamados pelo Senhor, fizeram a escolha de uma dedicação incondicionada a Ele e ao seu Evangelho. Diversos Institutos religiosos adquirem de São Paulo o nome, e dele haurem uma inspiração carismática específica. Pode-se dizer que ele repete a todos os consagrados e consagradas um convite simples e afectuoso: "Sede meus imitadores, como eu o sou de Cristo" (1 Cor 11, 1).

Com efeito, o que é a vida consagrada, a não ser uma imitação radical de Jesus, uma "sequela" total dele (cf. Mt 19, 27-28). Pois bem, em tudo isto Paulo representa uma mediação pedagógica segura: caríssimos, imitá-lo no seguimento de Cristo constitui o caminho privilegiado para corresponder até ao fundo à vossa vocação de consagração especial na Igreja.

Aliás, da sua própria voz podemos conhecer um estilo de vida, que exprime a substância da vida consagrada inspirada nos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Na vida de pobreza, ele vê a garantia de um anúncio do Evangelho realizado em gratuidade total (cf. 1 Cor 9, 1-23) enquanto exprime, ao mesmo tempo, a solidariedade concreta para com os irmãos em necessidade. A este propósito, todos nós conhecemos a decisão de Paulo, de se manter com o trabalho das suas mãos e o seu compromisso pela colecta em benefício dos pobres de Jerusalém (cf. 1 Ts 2, 9; 2 Cor 8-9).

Paulo é também um Apóstolo que, acolhendo o chamamento de Deus à castidade, entregou o coração ao Senhor de maneira indivisa, para poder servir com liberdade e dedicação ainda maiores aos seus irmãos (cf. 1 Cor 7, 7; 2 Cor 11, 1-2); além disso, num mundo em que os valores da castidade cristã tinham escassa cidadania (cf. 1 Cor 6, 12-20), ele oferece uma segura referência de conduta.

Depois, naquilo que se refere à obediência, é suficiente observar que o cumprimento da vontade de Deus e a "obsessão de cada dia: o cuidado de todas as Igrejas" (2 Cor 11, 28) animaram, plasmaram e consumiram a sua existência, que se tornou sacrifício agradável a Deus. Tudo isto o leva a proclamar, como ele escreve aos Filipenses: "Porque para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1, 21).

Outro aspecto fundamental da vida consagrada de Paulo é a missão. Ele é inteiramente de Jesus para ser, como Jesus, de todos; aliás, a fim de ser Jesus para todos: "Fiz-me tudo para todos, para salvar alguns a todo o custo" (1Cor 9, 22). A ele, tão intimamente unido à pessoa de Cristo, reconhecemos uma profunda capacidade de unir a vida espiritual e a obra missionária; nele, estas duas dimensões evocam-se reciprocamente.

E deste modo, podemos dizer que ele pertence àquele exército de "construtores místicos", cuja existência é contemplativa e ao mesmo tempo activa, aberta a Deus e aos irmãos para desempenhar um serviço eficaz ao Evangelho. Nesta tensão místico-apostólica, apraz-me frisar a coragem do Apóstolo diante do sacrifício de enfrentar provações terríveis, até ao martírio (cf. 2 Cor 11, 16-33), a confiança inabalável alicerçada nas palavras do seu Senhor: "Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que a minha força se revela totalmente" (2 Cor 12, 9).

Assim, a sua experiência espiritual manifesta-se-nos como a tradução viva do mistério pascal, que ele investigou e anunciou intensamente como forma de vida do cristão. Paulo vive para, com e em Cristo. "Estou crucificado com Cristo! escreve ele já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim!" (Gl 2, 19-20); e ainda: "Porque para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1, 21). Isto explica por que ele não se cansa de exortar a fazer com que a palavra de Cristo habite em nós na sua riqueza (cf. Cl 3, 16).

Convite a procurar todas as manhãs o contacto vivo e constante com a Palavra que neste dia é proclamada, meditando-a e conservando-a no coração como um tesouro, fazendo dele a raiz de toda a acção e o primeiro critério de toda a opção" (n. 7). Por conseguinte, faço votos por que o Ano Paulino alimente ainda mais em vós o propósito de acolher o testemunho de São Paulo, meditando todos os dias a Palavra de Deus com a prática fiel da lectio divina, rezando "com salmos, hinos e cânticos espirituais"; cantando sob a acção da graça" (Cl 3, 16). Além disso, que ele vos ajude a realizar o vosso serviço apostólico na Igreja e com a Igreja, com um espírito de comunhão sem reservas, comunicando aos outros a dádiva dos próprios carismas (cf. 1 Cor 14, 12) e testemunhando em primeiro lugar o maior carisma, que é a caridade (cf. 1 Cor 13).

Estimados irmãos e irmãs, a liturgia hodierna exorta-nos a olhar para a Virgem Maria, a "Consagrada" por excelência. Paulo fala dela com uma fórmula concisa mas eficaz, que descreve a sua grandeza e a sua tarefa: é a "mulher" da qual, na plenitude dos tempos, nasceu o Filho de Deus (cf. Gl 4, 4). Maria é a mãe, que hoje no Templo apresenta o Filho ao Pai, dando continuidade também com este gesto ao "sim" pronunciado no momento da Anunciação. Seja ainda ela a mãe que nos acompanha e nos sustém, a nós filhos de Deus e seus filhos, no cumprimento de um serviço generoso a Deus e aos irmãos. Para tal finalidade, invoco a sua intercessão celestial, enquanto de coração concedo a Bênção Apostólica a todos vós e às vossas respectivas Famílias religiosas.