




Tendo deixado o Vaticano, de automóvel, às quatro menos um quarto, ao longo do trajeto Bento XVI deteve-se por uns momentos junto da igreja da Santíssima Trindade, onde foi saudado pelos representantes da associação dos Comerciantes da zona. Já na Praça de Espanha, o Santo Padre presidiu a uma breve celebração da Palavra, com a proclamação de uma passagem do Livro do Apocalipse, que evoca Maria como um sinal grandioso aparecido no céu: uma mulher vestida de sol, com a lua sob os seus pés e, na cabeça, uma coroa de doze estrelas.
Na homilia, o Papa explicou que “esta imagem representa ao mesmo tempo Nossa Senhora e a Igreja”. Antes de mais, a “mulher” do Apocalipse é a própria Maria.
“Vestida de sol” quer dizer, vestida de Deus, toda envolvida da luz de Deus, vivendo em Deus. Ela é, de facto, a cheia de graça. A lua que tem sob os seus pés (observou ainda Bento XVI), é símbolo da morte e da mortalidade. Maria está plenamente associada à vitória de Jesus Cristo, seu Filho, sobre o pecado e sobre a morte, livre de toda e qualquer sombra de morte, totalmente cumulada de vida. Finalmente, a coroa de doze estrelas, que representam as doze tribos de Israel: significa que a Virgem Maria está no centro do Povo de Deus, de toda a comunhão dos santos.
“Para além de representar Nossa Senhora, este sinal (da mulher do Apocalipse) personifica a Igreja, a comunidade cristã de todos os tempos. Ela está grávida, no sentido de que traz no seu seio Cristo, e deve-o dar à luz para o mundo: essas as dores de parto da Igreja peregrina na terra,, devendo, no meio das consolações de Deus e das perseguições do mundo, levar Jesus aos homens”
Aludindo ainda ao outro sinal do texto do Apocalipse de São João – um “enorme dragão vermelho” que tenta, em vão, devorar “o filho, masculino, destinado a governar todas as nações”. Jesus venceu já, definitivamente os seus ataques. Só a mulher – a Igreja – continua, no deserto do mundo, a sofrer os ataques do dragão, embora sustentada sempre pela luz e pela força de Deus.
“Através de todas as provações com que se confronta no decurso dos tempos e nas diversas partes do mundo, a Igreja sofre perseguição, mas resulta vencedora. É precisamente deste modo que a Comunidade cristã é a presença, a garantia do amor de Deus contra todas as ideologias do ódio e do egoísmo.”
“A única insídia que a Igreja pode e deve recear – advertiu o Papa - é o pecado dos seus membros”. Enquanto Maria é Imaculada, livre de toda a mancha do pecado, a Igreja é santa, mas ao mesmo tempo está marcada pelos nossos pecados. Por isso é que o Povo de Deus se dirige à sua Mãe celeste , pedindo-lhe ajuda, pedindo-lhe que acompanhe o caminho da fé, para que encoraje o empenho de vida cristã, para que sustente a esperança”.
“Disso temos necessidade, sobretudo neste momento tão difícil para a Itália, para a Europa, para as várias partes do mundo. Que Maria nos ajude a ver que há uma luz para além das espessas cortinas de neblina que parecem envolver a realidade”.
Já ao meio-dia, como todos os domingos e dias santos, o Papa tinha recitado, da janela dos seus aposentos sobre a Praça de São Pedro, o Angelus, antecedido da costumada alocução, dedicada naturalmente ao mistério da conceição imaculada de Maria.
Recordando que foi Pio IX a declarar, em 1854, que por particular graça e privilégio de Deus omnipotente e em previsão dos méritos de Jesus Cristo Salvador do género humano, Maria foi imune de toda a mancha do pecado original; o Papa fez notar que esta verdade de fé está contida na saudação do arcanjo Gabriel a Maria: “Alegra-te, ó cheia de graça, o Senhor é contigo”. A expressão cheia de graça – explicou - indica a maravilhosa obra do amor de Deus, que, mediante o seu Filho incarnado, nos quis dar de novo a vida e a liberdade, perdidas com o pecado. (…) É por isso que desde o final do século II, tanto no Oriente como no Ocidente, a Igreja invoca e celebra a Virgem que, com o seu sim, aproximou o Céu da terra. Também a nós é doada a “plenitude de graça” que devemos fazer resplandecer na nossa vida, porque – como escreve São Paulo - “o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo abençoou-nos com toda a bênção espiritual e escolheu-nos antes da criação do mundo para sermos santos e imaculados predestinando-nos a sermos, para Ele, filhos adotivos”.
Esta filiação, recebemo-la nós no dia do Batismo – recordou Bento XVI, citando a propósito Hildegarda de Bingen: “A Igreja é portanto a virgem mãe de todos os cristãos. Na força secreta do Espírito Santo, concebe-os e dá-os à luz, oferecendo-os a Deus, de modo que sejamos também chamados filhos de Deus”.
Nas saudações a diversos grupos de fiéis presentes hoje na Praça de São Pedro, Bento XVI reservou uma palavra especial aos membros da Ação Católica Italiana, que neste dia da Imaculada Conceição renovam a sua adesão a esta associação. “A Ação Católica é uma escola de santidade e de evangelização: os melhores votos para o seu empenho formativo e apostólico”.