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domingo, 25 de outubro de 2015

SÍNODO DA FAMÍLIA: A descentralização da Igreja ofende a fé e o bom senso



Roberto de Mattei 
“Il Foglio”, 20-10-2015

O Papa Francisco anunciou, em 17 de outubro de 2015, como se concluirá o Sínodo sobre a família. A poucos dias do fim dos trabalhos a assembleia dos bispos chegou a um impasse, e o caminho para sair, segundo o Papa, seria a descentralização da Igreja (http://vaticaninsider.lastampa.it/documenti/dettaglio-articolo/articolo/sinodo-famiglia-44026/).

O impasse nasce da divisão entre aqueles que na aula reivindicam com firmeza o Magistério perene sobre o matrimônio e os “inovadores”, que quereriam alterar dois mil anos de ensinamento da Igreja, mas, sobretudo, a Verdade do Evangelho. É, com efeito, Palavra de Cristo, lei divina e natural, que o matrimônio válido, rato e consumado entre batizados não pode ser dissolvido por ninguém, por nenhum motivo. 

Uma só exceção a essa lei anularia o seu valor absoluto e universal, e se essa lei caísse, desabaria com ela todo o edifício moral da Igreja. O matrimônio é ou não é indissolúvel: não se pode admitir uma dissociação entre o enunciado do princípio e a sua aplicação na prática. A Igreja exige uma coerência radical entre o pensamento e a palavra e entre a palavra e os fatos, a mesma coerência que testemunharam os Mártires no decurso da História. 

O falso princípio segundo o qual a doutrina não muda, mas sim a sua aplicação pastoral, introduz uma cunha entre duas dimensões inseparáveis do Cristianismo: Verdade e Vida. A separação entre doutrina e práxis não provém da doutrina católica, mas da filosofia hegeliana e marxista, que inverte o axioma tradicional de acordo com o qual agere sequitur esse [a natureza do ser condiciona o seu operar]. Na perspectiva dos inovadores, a ação precede o ser e o condiciona, a experiência não efetiva a verdade, mas a cria. Este é o sentido do discurso pronunciado pelo cardeal Cristoph Schönborn comemorando o 50° aniversário da instituição do Sínodo, no mesmo dia em que falou o Papa Francisco (http://vaticaninsider.lastampa.it/documenti/dettaglio-articolo/articolo/sinodo-famiglia-44028/). “A fé não pode ser representada, mas somente testemunhada”, afirmou o arcebispo de Viena, reafirmando o primado do “testemunho” sobre a doutrina. Mártir em grego significa testemunho, mas, para os mártires, testemunhar significava viver a verdade, enquanto para os inovadores significa traí-la, reiventando-a na experiência. 

O primado da práxis pastoral sobre a doutrina produz as seguintes consequências catastróficas: 

1) O Sínodo “virtual”, como já ocorreu com o Concílio Vaticano II, vai prevalecer sobre o Sínodo real. A mensagem midiática que acompanhará as conclusões dos trabalhos é mais importante que o conteúdo dos documentos. A Relatio do Circulus Anglicus C sobre a primeira parte do Instrumentum Laboris afirma com clareza a necessidade desta revolução da linguagem: “Like Vatican II, this Synod needs to be a language-event, which is more than cosmetic” [Como o Vaticano II, este Sínodo necessita ser um evento linguístico, o que é mais que perfumaria]. 

2) O post-Sínodo será mais importante do que o Sínodo, porque representa a sua auto-realização. Com efeito, o Sínodo confiará a realização de seus objetivos à práxis pastoral. Se o que deve mudar não é a doutrina, mas a pastoral, esta mudança não pode ocorrer no Sínodo, mas na vida cotidiana do povo cristão e, portanto, fora do Sínodo, depois do Sínodo, na vida das dioceses e das paróquias católicas

3) A auto-realização do Sínodo ocorrerá ao sopro da experiência das igrejas particulares, ou seja, da descentralização eclesiástica. A descentralização autoriza as igrejas locais a pôr em movimento uma pluralidade de experiências pastorais. Mas se não há uma única práxis coerente com uma única doutrina, isto quer dizer que existe uma grande variedade de práticas e todas elas merecedoras de serem experimentadas. Os protagonistas desta Revolução na práxis serão, portanto, os bispos, os párocos, as conferências episcopais, as comunidades locais, cada qual segundo a própria liberdade e criatividade. 

Delineia-se a hipótese de uma Igreja com “duas velocidades” (two-speed Church) ou, para usar a linguagem dos eurocratas de Bruxelas, “a geometria variável” (variable geometry). Em face do mesmo problema moral, cada uma o regulará de modo diverso, segundo a ética da situação. À igreja dos “católicos adultos” de língua alemã, pertencentes ao “primeiro mundo”, será permitida a “marcha veloz” do “testemunho missionário”; à igreja dos católicos “subdesenvolvidos”, africanos ou poloneses, pertencentes ao segundo ou terceiro mundo, será concedida a “marcha lenta” do apego às próprias tradições. 

Roma ficaria em segundo plano, privada de real autoridade, com a única função de dar o “impulso carismático”. A Igreja seria desvaticanizada, ou melhor,desromanizada. Quer-se substituir a Igreja romanocêntrica por uma Igreja policêntrica ou poliédrica. A imagem do poliedro tem sido usada frequentemente pelo Papa Francisco.“O poliedro – afirmou ele – é uma unidade, mas com todas as partes diversas; cada uma tem a sua peculiaridade, o seu carisma. Esta é a unidade na diversidade. É neste caminho que nós cristãos fazemos aquilo a que chamamos com o nome teológico ecumenismo: procuremos fazer com que esta diversidade seja mais harmonizada pelo Espírito Santo e se torne unidade” (Discurso à Igreja Pentecostal da Reconciliação de Caserta, 28 de julho de 2014). A transferência de poderàs conferências episcopais já estava prevista em uma passagem da Evangelii Gaudium, que a concebe como“sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal. Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária” (n° 32). O Papa Francisco enuncia agora este “princípio de sinodalidade” como resultado final da assembleia em curso. 

As antigas heresias do galicanismo e do nacionalismo eclesiástico ressurgem no horizonte. Entretanto, o primado de jurisdição do Sumo Pontífice, no qual reside a suprema autoridade da Igreja sobre todos os Pastores e todos os fiéis, independentemente de qualquer outro poder, é dogma de fé promulgado pelo Concílio Vaticano I. Esse primado constitui a garantia da unidade da Igreja: unidade de governo, unidade de fé, unidade de sacramentos. A descentralização é uma perda da unidade que conduz inevitavelmente ao cisma. Na realidade, o cisma é a ruptura que ocorre inexoravelmente quando falta um ponto central de referência, um critério unitário, seja no plano da doutrina, seja no da disciplina e da pastoral. Igrejas particulares divididas no tocante à práxis, mas também na doutrina derivada da práxisestão fatalmente destinadas a entrar em choque e a produzir fraturas, cismas, heresias

descentralização não somente provoca uma fissura no Primado romano, mas nega o princípio de não-contradição segundo o qual “algo não pode ao mesmo tempo ser e não ser”. É tão-só na base desse primeiro princípio lógico e metafísico que podemos usar a nossa razão e conhecer a realidade que nos circunda. 

O que acontecerá se o Romano Pontífice renunciar, ainda que apenas em parte, a exercer o seu poder para delegá-lo às conferências episcopais ou aos bispos? Ocorrerá evidentemente a criação de uma divergência de doutrina e de práxis entre as conferências episcopais e das dioceses entre si. Aquilo que fica proibido em uma diocese é admitido em outra, e vice-versa. O concubino more uxorio pode aproximar-se do sacramento da Eucaristia em uma diocese, e em outra não. Mas, ou o pecado existe ou não existea lei moral é igual para todos ou não é. E de duas, uma: ou o Papa tem o primado de jurisdição e o exerce, ou outro qualquer governa, de fato, no seu lugar.

O Papa admite a existência de um sensus fidei, mas é justamente esse sensus fidei dos bispos, dos sacerdotes, dos simples leigos que é hoje escandalizado pelas extravagâncias ouvidas na aula do Sínodo. Essas extravagâncias ofendem o bom senso antes mesmo que o sensus Ecclesiae dos fiéis.

O Papa Francisco tem razão quando afirma que o Espírito Santo não assiste somente o Papa e os bispos, mas todos os fiéis (cfr. sobre este ponto, Melchior Cano, De locis Theologicis (Lib. IV, cap. 3, 117I). O Espírito Santo, porém, não é espírito de novidade; Ele guia a Igreja protegendo infalivelmente a sua Tradição. Pela fidelidade da Igreja à Tradição, o Espírito Santo fala ainda aos ouvidos dos fiéis. E hoje, como nos tempos do arianismo, podemos dizer com Santo Hilário: “Sanctiores aures plebis quam corda sacerdotum” – “as orelhas do povo são mais santas do que o coração dos sacerdotes” (Contra Arianos, vel Auxentium, n°6 , in PL, 10, col. 613).

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