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terça-feira, 15 de março de 2016

Padre Mauro Gagliardi –Eu sou convicto que os blogues são muito seguidos também entre os sacerdotes e bispos e não somente entre os fiéis leigos.


Don Mauro Gagliardi, professor do Ateneo Pontificio Regina Apostolorum e consultor da Sagrada Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos e ainda do Ofício de Celebrações litúrgicas do Sumo Pontífice concedeu-nos uma entrevista exclusiva. Don Mauro foi meu [ de Wendell Mendonça] professor de Introdução à Teologia e de Cristologia e Soteriologia.
 
No dia de ontem, Don Mauro lançou a nova edição revista e ampliado do seu livro “Introduzione al Mistero Eucaristico, Dottrina, Liturgia, Devozione” pela Editora Lindau.
Obrigado, Pe. Gagliardi pela gentileza de conceder uma entrevista para o nosso blog “Salvem a Liturgia”.
O senhor já o conhecia? Que pensa ser o mais importante num trabalho como o nosso de resgatar os valores litúrgicos?
Eu não conhecia anteriormente o vosso blog, mas penso que os blogues possuem um indubitável valor no contexto atual. É necessário, como em todos os outros meios de comunicação social, utilizá-lo com responsabilidade. Se usado deste modo pode dar frutos abundantes para a Igreja. No caso específico de um blog sobre liturgia posso dizer que o que mais importa neste momento é informar os leitores com precisão. A informação hoje é abundante, mas geralmente imprecisa e em certos casos refletem a influência de varias ideologias. Um blog sobre liturgia deveria hoje informar os leitores de modo sintético, mas também criterioso sobre os conteúdos gerais da ciência litúrgica, e em particular o movimento que vive atualmente a Igreja,  o ponto vital do Culto Divino.
O senhor acredita que este tipo de apostolado virtual em defesa da liturgia repercute realmenteentre os fiéis? E entre os Sacerdotes e Bispos?
Eu sou convicto que os blogues são muito seguidos também entre os sacerdotes e bispos e não somente entre os fiéis leigos. Sem dúvida podem haver repercussões reais. Por isto é importante que sejam geridos com responsabilidade, para que informem e não deformem, e sobretudo que tenham um grande amor à Igreja! Não se trata de prevalecer uma certa visão, mas de sustentar o caminho da Igreja, naquilo que compete a nós;
Como alcançar mais pessoas? Despertando-os para um maior amor à liturgia bem celebrada em conformidade com as rubricas, respeitando a tradição do rito romano?
Sou do parecer que não devemos nos preocupar de alcançar mais pessoas e que o celebrar de modo correto não é em vista disto, de um maior “sucesso”. É necessário celebrar segundo o rito previsto pela Igreja porque isto é justo em si, porque este é o modo no qual a Mãe Igreja nos ensina a dar culto a Deus. Penso que depois o Senhor poderá premiar esta fidelidade despertando nos fiéis um maior amor à liturgia. Nós devemos procurar antes de tudo o Reino de Deus e a sua justiça e o restante nos será dado em acréscimo. Celebramos bem porque Deus o  merece, porque a Igreja nos manda, porque é justo fazer assim e é errado fazer diversamente, não porque nós esperamos uma contrapartida. Mas penso que, se somos fiéis, essa virá igualmente.
O memorável Papa, Beato João Paulo II na sua Encíclica Ecclesia de Eucharistia falou de sombras no modo em qual se celebra a Missa. Como interpretar esta frase?
João Paulo II falou sobre este assunto também em outros textos. No que se refere as “sombras” o significado é evidente: os abusos litúrgicos.
Como se portar diante de bispos, sacerdotes e leigos que mesmo depois do Summorum Pontificum  insistem em não consentir que grupos que grupos que desejam  tenham acesso à liturgia segundo os livros de 1962?
Nao vejo como os leigos poderiam impedir a celebração segundo o Missal de 1962. No que resguarda as ministris ordenados: se for sacerdotes se recorra ao Ordinário Diocesano. Nos casos nos quais pelo contrário é este último que impõe obstáculos seja o Motu Proprio “Summorum Pontificum” ou  Instrução “Universiae Ecclesiae” estabeleceram que se pode recorrer à Pontifícia Comissão Ecclesia Dei quando não se é possível resolver as contraversias, de modo amigável e ao mesmo tempo justo, em nível local.
O senhor tem escutado que a distância estética, teológica e espiritual entra a forma ordinária e a extraordinária do Rito Romano é inferior à forma ordinária bem celebrada (segundo as rubricas) e à mal celebrada (com a manipulação e os abusos que cometem). Isto é verdade?
Este é um argumente sobre o qual é difícil pronunciar-se de modo adequado em uma simples entrevista, porque corre-se o risco de imprecisões e de juízos sintéticos. Deste modo, limito-me a recordar que o Santo Padre deseja uma recíproca influência entra as duas formas do Rito Romano. Isto parece sugerir que há qualquer coisas entra ambos que podem ser perfeccionados e o desejo é realmente este.
Para combater os abusos que alguns fazem na Missa somente a promoção do rito tradicional é suficiente? Em outras palavras a causa do problema é o “novo rito” em si?
Não se pode dizer com uma sentença lapidar que o novo Missal é a causa do fenômeno dos abusos litúrgicos. Este fenômeno depende de diversos fatores entre os quais está a crise de autoridade e de obediência verificada na sociedade a partir dos anos cinqüenta do século passado radicalizada na segunda metade dos anos sessenta e que certamente se investiu também na Igreja, se bem que em medida menor que na sociedade.
É verdade, porém, que o novo Missal, de qualquer modo, deixou abertas as portas para uma certa criatividade como disse o então Cardeal Ratzinger em uma conferência há alguns anos.
O Missal mais antigo de fato, prescreve exatamente aquilo que o celebrante deve fazer em cada momento da celebração. Isto existe também no novo Missal, porém usa geralmente uma formula do tipo: “o sacerdote com estas palavras ou outras similares…” ou ainda: “o sacerdote diz: ou: … ou: …”. Depois as Conferências Episcopais acrescentaram nas tradições em línguas nacionais outros elementos variáveis. Tudo isto, em certo modo, faz emergir a idéia que se pode dizer isso ou aquilo, que se pode fazer assim ou de outro modo. E das formas previstas muito facilmente se passa a outras, inventadas pelo próprio celebrante ou por qualquer outro grupo litúrgico. Talvez, para contrastar com o fenômeno dos abusos litúrgicos não seja suficiente somente restituir em uso mais amplo o Missal antigo, mas de certo modo é uma grande contribuição. Celebrando com este Missal o sacerdote aprende de novo que o rito não está à sua disposição, que ele o recebe da Igreja. O sacerdote redescobre o seu papel de ministro, isto é de servo e não de gestor do Culto Divino.
Como responder  àqueles que querem promover a Missa Antiga, mas que fazem em base a um ódio à Missa nova?
A resposta se encontra seja no Motu Proprio “Summorum Pontificum” quer na Instrução “Universiae Ecclesiae”. Não se trata de criar contraposições, mas de favorecer a reconciliação na Igreja. Bento XVI escreveu que não se pode seguir princípios contrários à celebração com o novo Missal. É por demais absurdo falar de ódio pela nova forma de celebração da Missa: como pode odiar a Missa? Significaria de qualquer modo odiar o sacrifício de Cristo renovado sobre o Altar! Compreendo que se podo preferir uma à outra forma, mas o Católico não pode odiar à Missa, quando esta é verdadeiramente Missa. A forma de Celebração aprovada por Paulo VI é certamente válida, então não católico pode odiá-la.
No Brasil é muito comum o uso pelos fiéis dos “folhetos” com o próprio o ordinário  em vez do Missal dos fiéis, estes folhetos são repletos de comentários não apropriados e algumas vezes inadequados. Como o senhor vê isso? O que seria melhor para incentivar a publicação e o uso do Missal dos fiéis para um contato maior com a liturgia também em casa?
Também na Itália o uso dos Missais dos fiéis é quase inexistente, pelo menos no formato de livro – e são muito freqüentes os folhetos da Missa. Também na Itália geralmente os textos são acompanhados por comentários discutíveis. Escutei várias vezes comentários negativos da parte dos fiéis a esse respeito. Algumas vezes também as orações dos fiéis são compostas de posicionamentos bem individuais e em certos casos se referem a acontecimentos políticos da atualidade, o que escandaliza alguns, porque se utilizam da oração como meio para convencer os fiéis à certas idéias. Ultimamente tenho percebido que diversas editoras dos folhetos começaram a não imprimir mais o Credo Niceno-Constantinopolitano e sim o Credo conhecido como “dos Apostólos”, não somente na Quaresma, mas sempre. Talvez fazem assim para uma maior brevidade, mas bastarua pregar dois minutos menos, ou melhor dar um aviso a menos, para ter todo o tempo necessário para se rezar o Credo mais longo, mais completo do ponto de vista doutrinal. Finalmente, seria belo se incentivar os fiéis a adquirir o missal, possivelmente bilíngüe (latim e língua nacional).
Também no caso do Brasil, como o senhor percebe as intervenções do povo durante a Oração Eucarística? Não existem absolutamente precedências na tradição romana e ainda mais não existem em nenhum outro país?
Não estudei bem o caso do Brasil e, portanto não posso me pronunciar com precisão. Porém, é verdade que a um primeiro olhar parece algo de singular, sobre isto seria melhor voltar a fazer uma reflexão, a começar pela Conferência Episcopal Brasileira.
No Brasil ainda não foi terminada a tradução da Terça Edição Típica do Missal Romano. O senhor acredita que Roma pedirá que esta tradução seja mais fiel ao Latim? Expressões como “Ele está no meio de nós”, como resposta ao “O Senhor esteja convosco” poderá ser susbtituída por “E com o teu espírito”?  Como também o “sacrifício meu e vosso” no Orate Fratres, que no Brasil se tornou “o nosso Sacrfício” reduzindo a diferença essencial entre o sacerdócio hierárquico e o sacerdócio dos fiéis?
Eu não me sinto capaz de responder a estas questões em detalhe. A única coisa que possodizer agora é que, graças à Instrução  “Liturgiam authenticam” de 2001, que tem o desejo de que as traduções em línguas nacionais sejam mais fiéis ao texto latino da”editio typica”. O novo missal em Inglês é de fato melhor do que o anterior quanto à tradução, assim, conseqüentemente, o norte-americano. Eu poderia dar outros exemplos. Portanto, em geral, a tendência é exigir mais do que nunca no que diz respeito as traduções.
No passado, os tradutores que trabalharam para preparar os missais em língua nacional, muitas vezes se basearam no princípio de que, ao invés de traduzir os textos, era necessário interpretá-los. A interpretação foi feita, como é óbvio, a partir de um ângulo particular, muitas vezes correspondendo a uma teologia caracterizada por opções precisas. Isso não deve acontecer de novo hoje: é preciso traduzir e não trair os textos .Esta é precisamente a arte do bom tradutor. Devemos permitir que o texto expresse o que elas significam, e não acrescentar neles o nosso pensamento.
Sobre a comunhão de joelhos e diretamente na boca, o que o senhor pode dizer? Algumas pessoas começam a render-se conta que esta é a posição mais sagrada e mais tradicional e que devia ser restaurada. O que o senhor pensa sobre esta recuperação na forma de receber a sagrada comunhão conceder uma maior sacralidade à Celebração da Santa Missa?
Tenho repetidamente expressoado em diversos escritos a minha crença que a melhor maneira de distribuir e receber a Sagrada Comunhão é aquela em que o sacerdote coloca a hóstia diretamente na boca dos fiéis, que estão de joelhos. Por outro lado,  além dos muitos argumentos que podem ser invocados,e dos textos que se podem ser citados basta-nos recordar o exemplo que dá-nos o Santo Padre Bento XVI, que, a partir do “CorpusDomini” de 2008, distribui a Comunhão somente desta maneira. Ele explicou, no livro entrevista “Luz do Mundo”  que com esta escolha  ele queria colocar um ponto de exclamação sobre a presença real de Cristo na hóstia consagrada. E de fato é urgente hoje bater mais sobre este importantíssimo ponto da nossa fé. A recepção da Comunhão na boca enquanto está ajoelhado não é a única coisa a fazer, isso é claro. Mas eu estou convencido que ajuda muitíssimo. Não é preciso dizer tantas palavras, os fiéis que são ensinados que só assim se pode comungar, será levado a entender que o que ele recebe não é qualquer um alimento. Um alimento qualquer se come sentado ou em pé, mas a Eucaristia não, porque devemos adorá-la antes de comê-la, como São Paulo e Santo Agostinho ensinou, assim como muitos outros santos Padres e Doutores. Um alimento qualquer eu mesmo o porto a minha boca, mas este, pelo contrário, eu o recebo diretamente da Igreja… Mas é claro que para fazer isso teria que ser revisto o atual regime de indulto quase geral que permite de receber a Comunhão também na mão.
E quando un sacerdote o un ministro nega dare la comunione ai fedeli in bocca e in ginocchio? Che possiamo fare? (mais…)