ABADIA DE FONTGOMBAULT





  

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Artigos Junho 2007



    sábado, 26 de abril de 2014

    MISSA NO SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO E ORAÇÃO DO PAPA BEATO JOÃO PAULO II DE ENTREGA, DE CONFIANÇA E DE CONSAGRAÇÃO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA EM FÁTIMA

    MISSA NO SANTUÁRIO DE NOSSA SENHORA DO ROSÁRIO
    HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
    Fátima, 13 de Maio de 1982
    1. “E a partir daquele momento, o discípulo recebeu-A em sua casa” (Io. 19, 27)
    Com estas palavras termina o Evangelho da Liturgia de hoje, aqui em Fátima. O nome do discípulo era João. Precisamente ele, João, filho de Zebedeu, apóstolo e evangelista, ouviu do alto da Cruz as palavras de Cristo: “Eis a tua Mãe”. Anteriormente, Jesus tinha dito à própria Mãe: “Senhora, eis o Teu filho”.
    Este foi um testamento maravilhoso.
    Ao deixar este mundo, Cristo deu a Sua Mãe um homem que fosse para Ela como um filho: João. A Ela o confiou. E, em consequência desta doação e deste acto de entrega, Maria tornou-se mãe de João. A Mãe de Deus tornou-se Mãe do homem.
    E, a partir daquele momento, João “recebeu-A em sua casa”. João tornou-se também amparo terreno da Mãe de seu Mestre; é direito e dever dos filhos, efectivamente, assumir o cuidado da mãe. Mas acima de tudo, João tornou-se por vontade de Cristo o filho da Mãe de Deus. E, em João, todos e cada um dos homens d’Ela se tornaram filhos.
    2. “Recebeu-A em sua casa” – esta frase significa, literalmente, na sua habitação.
    Uma manifestação particular da maternidade de Maria em relação aos homens são os lugares, em que Ela se encontra com eles; as casas onde Ela habita; casas onde se sente uma presença toda particular da Mãe.
    Estes lugares e estas casas são numerosíssimos. E são de uma grande variedade: desde os oratórios nas habitações e dos nichos ao longo das estradas, onde sobressai luminosa a imagem da Santa Mãe de Deus, até às capelas e às igrejas construídas em Sua honra. Há porém, alguns lugares, nos quais os homens sentem particularmente viva a presença da Mãe. Não raro, estes locais irradiam amplamente a sua luz e atraem a si a gente de longe. O seu círculo de irradiação pode estender-se ao âmbito de uma diocese, a uma nação inteira, por vezes a vários países e até aos diversos continentes. Estes lugares são os santuários marianos.
    Em todos estes lugares realiza-se de maneira admirável aquele testamento singular do Senhor Crucificado: aí, o homem sente-se entregue e confiado a Maria e vem para estar com Ela, como se está com a própria Mãe. Abre-Lhe o seu coração e fala-Lhe de tudo: “recebe-A em sua casa”, dentro de todos os seus problemas, por vezes difíceis. Problemas próprios e de outrem. Problemas das famílias, das sociedades, das nações, da humanidade inteira.
    3. Não sucede assim, porventura, no santuário de Lourdes na França? Não é igualmente assim, em Jasna Góra em terras polacas, no santuário do meu País, que este ano celebra o seu jubileu dos seiscentos anos?
    Parece que também lá, como em tantos outros santuários marianos espalhados pelo mundo, com uma força de autenticidade particular, ressoam estas palavras da Liturgia do dia de hoje:
    “Tu és a honra do nosso povo” (Iudit. 15,10); e também aquelas outras:
    “Perante a humilhação da nossa gente”,
    “... aliviaste o nosso abatimento, com a tua rectidão, na presença do nosso Deus”(Iudt. 13,20).
    Estas palavras ressoam aqui em Fátima quase como eco particular das experiências vividas não só pela Nação portuguesa, mas também por tantas outras nações e povos que se encontram sobre a face da terra; ou melhor, elas são o eco das experiências de toda a humanidade contemporânea, de toda a família humana.
    4. Venho hoje aqui, porque exactamente neste mesmo dia do mês, no ano passado, se dava, na Praça de São Pedro, em Roma, o atentado à vida do Papa, que misteriosamente coincidia com o aniversário da primeira aparição em Fátima, a qual se verificou a 13 de Maio de 1917.
    Estas datas encontraram-se entre si de tal maneira, que me pareceu reconhecer nisso um chamamento especial para vir aqui. E eis que hoje aqui estou. Vim para agradecer à Divina Providência, neste lugar, que a Mãe de Deus parece ter escolhido de modo tão particular.
    “Misericordiae Domini, quia non sumus consumpti” – Foi graças ao Senhor que não fomos aniquilados (Lam. 3, 22) – repito uma vez mais com o Profeta.
    Vim, efectivamente, sobretudo para aqui proclamar a glória do mesmo Deus:
    “Bendito seja o Senhor Deus, Criador do Céu e da Terra”, quero repetir com as palavras da Liturgia de hoje (Iudt. 13,18).
    E ao Criador do Céu e da Terra elevo também aquele especial hino de glória, que é Ela própria: a Mãe Imaculada do Verbo Encarnado:
    “Abençoada sejas, minha filha, pelo Deus Altíssimo / Mais do que todas as mulheres sobre a Terra... / A confiança que tiveste não será esquecida pelos homens, / E eles hão-de recordar sempre o poder de Deus. / Assim Deus te enalteça eternamente” (Ibid. 13, 18-20).
    Na base deste canto de louvor, que a Igreja entoa com alegria, aqui como em tantos lugares da terra, está a incomparável escolha de uma filha do género humano para ser Mãe de Deus.
    E por isso seja sobretudo adorado Deus: Pai, Filho, e Espírito Santo.
    Seja bendita e venerada Maria, protótipo da Igreja, enquanto “habitação da Santíssima Trindade”.
    5. A partir daquele momento em que Jesus, ao morrer na Cruz, disse a João: “Eis a tua Mãe”, e a partir do momento em que o discípulo “A recebeu em sua casa”, o mistério da maternidade espiritual de Maria teve a sua realização na história com uma amplidão sem limites. Maternidade quer dizer solicitude pela vida do filho. Ora se Maria é mãe de todos os homens, o seu desvelo pela vida do homem reveste-se de um alcance universal. A dedicação de qualquer mãe abrange o homem todo. A maternidade de Maria tem o seu início nos cuidados maternos para com Cristo.
    Em Cristo, aos pés da Cruz, Ela aceitou João e, nele, aceitou todos os homens e o homem totalmente. Maria a todos abraça, com uma solicitude particular, no Espírito Santo. É Ele, efectivamente, “Aquele que dá a vida”, como professamos no Credo. É Ele que dá a plenitude da vida, com abertura para a eternidade.
    A maternidade espiritual de Maria é, pois, participação no poder do Espírito Santo, no poder d’Aquele “que dá a vida”. E é ao mesmo tempo, o serviço humilde d’Aquela que diz de si mesma: “Eis a serva do Senhor” (Luc. 1, 38).
    À luz do mistério da maternidade espiritual de Maria, procuremos entender a extraordinária mensagem que, daqui de Fátima, começou a ressoar pelo mundo todo, desde o dia 13 de Maio de 1917, e que se prolongou durante cinco meses, até ao dia 13 de Outubro do mesmo ano.
    6. A Igreja ensinou sempre, e continua a proclamar, que a revelação de Deus foi levada à consumação em Jesus Cristo, que é a plenitude da mesma, e que “não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública, antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo” (Dei Verbum, 4). A mesma Igreja aprecia e julga as revelações privadas segundo o critério da sua conformidade com aquela única Revelação pública.
    Assim, se a Igreja aceitou a mensagem de Fátima, é sobretudo porque esta mensagem contém uma verdade e um chamamento que, no seu conteúdo fundamental, são a verdade e o chamamento do próprio Evangelho.
    “Convertei-vos (fazei penitência), e acreditai na Boa Nova (Mc. 1, 15): são estas as primeiras palavras do Messias dirigidas à humanidade. E a mensagem de Fátima, no seu núcleo fundamental, é o chamamento à conversão e à penitência, como no Evangelho. Este chamamento foi feito nos inícios do século vinte e, portanto, foi dirigido, de um modo particular a este mesmo século. A Senhora da mensagem parecia ler, com uma perspicácia especial, os “sinais dos tempos”, os sinais do nosso tempo.
    O apelo à penitência é um apelo maternal; e, ao mesmo tempo, é enérgico e feito com decisão. A caridade que “se congratula com a verdade”(1Cor 13, 6) sabe ser clara e firme. O chamamento à penitência, como sempre anda unido ao chamamento à oração. Em conformidade com a tradição de muitos séculos, a Senhora da mensagem de Fátima indica o terço – o rosário – que bem se pode definir “a oração de Maria”: a oração na qual Ela se sente particularmente unida connosco. Ela própria reza connosco. Com esta oração do terço se abrangem os problemas da Igreja, da Sé de Pedro, os problemas do mundo inteiro. Além disto, recordam-se os pecadores, para que se convertam e se salvem, e as almas do Purgatório.
    As palavras de mensagem foram dirigidas a crianças, cuja idade ia dos sete aos dez anos. As crianças, como Bernadette de Lourdes, são particularmente privilegiadas nestas aparições da Mãe de Deus. Daqui deriva o facto de também a sua linguagem ser simples, de acordo com a capacidade de compreenção infantil. As criancinhas de Fátima tornaram-se as interlocutoras da Senhora da mensagem e também as suas colaboradoras. Uma delas ainda está viva.
    7. Quando Jesus disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Seu filho” (Io. 19, 26), abriu, de maneira nova, o Coração da Sua Mãe, o coração Imaculado, e revelou-Lhe a nova dimensão do amor e o novo alcance do amor a que Ela fora chamada, no Espírito Santo, em virtude do sacrifício da Cruz.
    Nas palavras da mensagem de Fátima parece-nos encontrar precisamente esta dimensão do amor materno, o qual com a sua amplitude, abrange todos os caminhos do homem em direcção a Deus: tanto aqueles que seguem sobre a terra, como aqueles que, através do Purgatório, levam para além da terra. A solicitude da Mãe do Salvador, identifica-se com a solicitude pela obra da salvação: a obra do Seu Filho. É solicitude pela salvação, pela eterna salvação de todos os homens. Ao completarem-se sessenta e cinco anos, depois daquele dia 13 de Maio de 1917 é difícil não descobrir como este amor salvífico da Mãe abraça na sua amplitude, de um modo particular, o nosso século.
    À luz do amor materno, nós compreendemos toda a mensagem de Nossa Senhora de Fátima.
    Aquilo que se opõe mais directamente à caminhada do homem em direcção a Deus é o pecado, o perseverar no pecado, enfim, a negação de Deus. O programado cancelamento de Deus do mundo do pensamento humano. A separação d’Ele de toda a actividade terrena do homem. A rejeição de Deus por parte do homem.
    Na verdade, a salvação eterna do homem somente em Deus se encontra. A rejeição de Deus por parte do homem se se tornar definitiva, logicamente conduz à rejeição do homem por parte de Deus (Cfr. Matth. 7, 23; 10, 33), à condenação.
    Poderá a Mãe, que deseja a salvação de todos os homens, com toda a força do seu amor que alimenta no Espírito Santo, poderá Ela ficar calada acerca daquilo que mina as próprias bases desta salvação? Não, não pode!
    Por isso, a mensagem de Nossa Senhora de Fátima, tão maternal, se apresenta ao mesmo tempo tão forte e decidida. Até parece severa. É como se falasse João Baptista nas margens do rio Jordão. Exorta à penitencia. Adverte. Chama à oração. Recomenda o terço, o rosário.
    Esta mensagem é dirigida a todos os homens. O amor da Mãe do Salvador chega até onde quer que se estenda a obra da salvação. E objecto do Seu desvelo são todos os homens da nossa época e, ao mesmo tempo, as sociedades, as nações e os povos. As sociedades ameaçadas pela apostasia, ameaçadas pela degradação moral. A derrocada da moralidade traz consigo a derrocada das sociedades.
    8. Cristo disse do alto da Cruz: “Senhora, eis o Teu filho”. E, com tais palavras, abriu, de um modo novo, o Coração da Sua Mãe.
    Pouco depois, a lança do soldado romano trespassou o lado do Crucificado. Aquele coração trespassado tornou-se o sinal da redenção, realizada mediante a morte do Cordeiro de Deus.
    O Coração Imaculado de Maria aberto pelas palavras – “Senhora, eis o Teu Filho” – encontra-se espiritualmente com o Coração do Filho trespassado pela lança do soldado. O Coração de Maria foi aberto pelo mesmo amor para com o homem e para com o mundo com que Cristo amou o homem e o mundo, oferecendo-Se a Si mesmo por eles, sobre a Cruz, até àquele golpe da lança do soldado.
    Consagrar o mundo ao Coração Imaculado de Maria significa aproximar-nos, mediante a intercessão da Mãe, da própria Fonte da Vida, nascida no Gólgota. Este Manancial escorre ininterruptamente, dele brotando a redenção e a graça. Nele se realiza continuamente a reparação pelos pecados do mundo. Tal Manancial é sem cessar Fonte de vida nova e de santidade.
    Consagrar o mundo ao Imaculado Coração da Mãe significa voltar de novo junto da Cruz do Filho. Mais quer dizer, ainda: consagrar este mundo ao Coração trespassado do Salvador, reconduzindo-o à própria fonte da Redenção. A Redenção é sempre maior do que o pecado do homem e do que “o pecado do mundo”. A força da Redenção supera infinitamente toda a espécie de mal, que está no homem e no mundo.
    O Coração da Mãe está conscio disso, como nenhum outro coração em todo o cosmos, visível e invisível.
    E para isso faz a chamada.
    Chama não somente à conversão. Chama-nos a que nos deixemos auxiliar por Ela, como Mãe, para voltarmos novamente à fonte da Redenção.
    9. Consagrar-se a Maria Santíssima significa recorrer ao seu auxílio e oferecermo-nos a nós mesmos e oferecer a humanidade Àquele que é Santo, infinitamente Santo; valer-se do seu auxílio – recorrendo ao seu Coração de Mãe aberto junto da Cruz ao amor para com todos os homens e para com o mundo inteiro – para oferecer o mundo, e o homem, e a humanidade, e todas as nações Àquele que é infinitamente Santo. A santidade de Deus manifestou-se na redenção do homem, do mundo, da inteira humanidade e das nações: redenção esta que se realizou mediante o sacrifício da Cruz. “Por eles, Eu consagro-me a Mim mesmo”, tinha dito Jesus” (Io. 17, 19).
    O mundo e o homem foram consagrados com a potência da Redenção. Foram confiados Àquele que é infinitamente Santo. Foram oferecidos e entregues ao próprio Amor, ao Amor misericordioso.
    A Mãe de Cristo chama-nos e exorta-nos a unir-nos à Igreja do Deus vivo, nesta consagração do mundo, neste acto de entrega mediante o qual o mesmo mundo, a humanidade, as nações e todos e cada um dos homens são oferecidos ao Eterno Pai, envoltos com a virtude da Redenção de Cristo. São oferecidos no Coração do Redentor trespassado na Cruz.
    A Mãe do Redentor chama-nos, convida-nos e ajuda-nos para nos unirmos a esta consagração, a este acto de entrega do mundo. Então encontrar-nos-emos, de facto, o mais próximo possível do Coração de Cristo trespassado na Cruz.
    10. O conteúdo do apelo de Nossa Senhora de Fátima está tão profundamente radicado no Evangelho e em toda a Tradição, que a Igreja se sente interpelada por essa mensagem.
    Ela respondeu à interpelação mediante o Servo de Deus Pio XII (cuja ordenação episcopal se realizara precisamente a 13 de Maio de 1917), o qual quis consagrar ao Imaculado Coração de Maria o género humano e especialmente os Povos da Rússia. Com essa consagração não terá ele, porventura, correspondido à eloquência evangélica do apelo de Fátima?
    O Concílio Vaticano II, na Constituição dogmática sobre a Igreja “Lumen Gentium” e na Constituição pastoral sobre a Igreja no Mundo Contemporâneo “Gaudium et Spes” explicou amplamente as razões dos laços que unem a Igreja com o mundo de hoje. Ao mesmo tempo os seus ensinamentos sobre a presença especial de Maria no mistério de Cristo e da Igreja, maturaram no acto com que Paulo VI, ao chamar a Maria também Mãe da Igreja, indicava de maneira mais profunda o carácter da sua união com a mesma Igreja e da Sua solicitude pelo mundo, pela humanidade, por cada um dos homens e por todas as nações: a sua maternidade.
    Deste modo, foi ainda mais aprofundada a compreensão do sentido da entrega, que a Igreja é chamada a fazer, recorrendo ao auxílio do Coração da Mãe de Cristo e nossa Mãe.
    11. E como é que se apresenta hoje diante da Santa Mãe que gerou o Filho de Deus, no seu Santuário de Fátima, João Paulo II, sucessor de Pedro e continuador da obra de Pio, de João e de Paulo e particular herdeiro do Concílio Vaticano II?
    Apresenta-se com ansiedade, a fazer a releitura, daquele chamamento materno à penitência e à conversão, daquele apelo ardente do Coração de Maria, que se fez ouvir aqui em Fátima, há sessenta e cinco anos. Sim, relê-o, com o coração amargurado, porque vê quantos homens, quantas sociedades e quantos cristãos foram indo em direcção oposta àquela que foi indicada pela mensagem de Fátima. O pecado adquiriu assim um forte direito de cidadania e a negação de Deus difundiu-se nas ideologias, nas concepções e nos programas humanos!
    E precisamente por isso, o convite evangélico à penitência e à conversão, expresso com as palavras da Mãe, continua ainda actual. Mais actual mesmo do que há sessenta e cinco anos atrás. E até mais urgente. É por isso também que tal convite será o assunto do próximo Sínodo dos Bispos, no ano que vem, Sínodo para o qual já nos estamos a preparar.
    O sucessor de Pedro apresenta-se aqui também como testemunha dos imensos sofrimentos do homem, como testemunha das ameaças quase apocalípticas, que pesam sobre as nações e sobre a humanidade. E procura abraçar esses sofrimentos com o seu fraco coração humano, ao mesmo tempo que se põe bem diante do mistério do Coração: do Coração da Mãe, do Coração Imaculado de Maria.
    Em virtude desses sofrimentos, com a consciência do mal que alastra pelo mundo e ameaça o homem, as nações e a humanidade o sucessor de Pedro apresenta-se aqui com uma maior na redenção do mundo: fé naquele Amor salvífico que é sempre maior, sempre mais forte do que todos os males.
    Assim, se por um lado o coração se confrange, pelo sentido elo pecado do mundo, bem como pela série de ameaças que aumentam no mundo, por outro lado, o mesmo coração humano sente-se dilatar com a esperança, ao pôr em prática uma vez mais aquilo que os meus Predecessores já fizeram: entregar e confiar o mundo ao Coração da Mãe, confiar-Lhe especialmente aqueles povos, que, de modo particular, tenham necessidade disso. Este acto equivale a entregar e a confiar o mundo Àquele que é Santidade infinita. Esta Santidade significa redenção, significa amor mais forte do que o mal. Jamais algum “pecado do mundo” poderá superar este Amor.
    Uma vez mais. Efectivamente, o apelo de Maria não é para uma vez só. Ele continua aberto para as gerações que se renovam, para ser correspondido de acordo com os “sinais dos tempos” sempre novos. A ele se deve voltar incessantemente. Há que retomá-lo sempre de novo.
    12. Escreve o Autor do Apocalipse:
    “Vi depois a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do Céu, da presença de Deus, pronta como noiva adornada para o seu esposo. E, do trono, ouvi uma voz potente que dizia: Eis a morada de Deus entre os homens. Deus há-de morar entre eles: eles mesmos serão o Seu povo e Ele próprio – Deus-com-eles – será o Seu Deus” (Apoc. 21, 2ss).
    A Igreja vive desta fé.
    Com tal fé caminha o Povo de Deus.
    “A morada de Deus entre os homens” já está sobre a terra.
    E nela está o Coração da Esposa e da Mãe, Maria Santíssima, adornado com a gema da Imaculada Conceição: o Coração da Esposa e da Mãe, aberto junto da Cruz pela palavra do Filho, para um novo e grande amor do homem e do mundo. O Coração da Esposa e da Mãe, cônscio de todos os sofrimentos dos homens e das sociedades sobre a face da terra.
    O Povo de Deus é peregrino pelos caminhos deste mundo na direcção escatológica. Está em peregrinação para a eterna Jerusalém, para a “morada de Deus entre os homens”.
    Lá, onde Deus “há-de enxugar-lhes dos olhos todas as lágrimas; a morte deixará de existir, e não mais haverá luto, nem clamor, nem fadiga. O que havia anteriormente desapareceu” (Cfr. Apoc. 21, 4).
    Mas “o que havia anteriormente” ainda perdura. E é isso precisamente que constitui o espaço temporal da nossa peregrinação.
    Por isso, olhemos para “Aquele que está sentado no trono” que diz: “Vou renovar todas as coisas” (Cfr. Ibid. 21, 5).
    E juntamente com o Evangelista e Apóstolo procuremos ver com os olhos da fé “o novo céu e a nova terra”, porque o “primeiro céu e a primeira terra” já passaram...
    Entretanto, até agora, “o primeiro céu e a primeira terra” continuam, estando sempre à nossa volta e dentro de nós. Não podemos ignorá-lo. Isso permite-nos, no entanto reconhecer que graça imensa foi concedida ao homem quando no meio deste peregrinar, no horizonte da fé dos nossos tempos, se acendeu esse “Sinal grandioso: uma Mulher”!
    Sim, verdadeiramente podemos repetir: “Abençoada sejas, filha, pelo Deus altíssimo, mais que todas as mulheres sobre a Terra!
    ... Procedendo com rectidão, na presença do nosso Deus,
    ... Aliviaste o nosso abatimento”.
    Verdadeiramente, Bendita sois Vós!
    Sim, aqui e em toda a Igreja, no coração de cada um dos homens e no mundo inteiro: sede bendita ó Maria, nossa Mãe dulcíssima!
    © Copyright 1982 - Libreria Editrice Vaticana
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    ORAÇÃO DO PAPA JOÃO PAULO II
    DE ENTREGA, DE CONFIANÇA E DE CONSAGRAÇÃO
    AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA

    “À vossa protecção nos acolhemos, Santa Mãe de Deus”!
    Ao pronunciar estas palavras da antífona
    com que a Igreja de Cristo
    reza há séculos,
    encontro-me hoje neste lugar
    escolhido por Vós, ó Mãe,
    e por Vós especialmente amado.
    Estou aqui, unido com todos os Pastores da Igreja
    por aquele vínculo particular,
    pelo qual constituímos
    um corpo e um colégio,
    assim como Cristo quis os Apóstolos
    em unidade com Pedro.
    No vínculo desta unidade,
    pronuncio as palavras deste Acto,
    no qual desejo incluir, uma vez mais,
    as esperanças e as angústias
    da Igreja no mundo contemporâneo.
    Há quarenta anos atrás,
    e depois ainda passados dez anos,
    o Vosso servo o Papa Pio XII,
    tendo diante dos olhos
    as dolorosas experiências da família humana,
    confiou e consagrou
    ao Vosso Coração Imaculado
    todo o mundo
    e especialmente os Povos
    que eram objecto
    particular do vosso amor
    e da vossa solicitude.
    Este mundo dos homens
    e das nações
    também eu o tenho diante dos olhos, hoje,
    no momento em que desejo renovar
    a entrega e a consagração
    feita pelo meu Predecessor
    na Sé de Pedro:
    o mundo do Segundo Milénio
    que está prestes a terminar,
    o mundo contemporâneo,
    o nosso mundo de hoje!
    A Igreja,
    lembrada das palavras do Senhor:
    “Ide... e ensinai todas as nações...
    Eis que eu estou convosco todos os dias,
    até ao fim do mundo” (Mt 28, 19-20),
    no Concílio Vaticano II,
    renovou a consciência
    da sua missão neste mundo.
    Por isso, ó Mãe dos homens e dos povos,
    Vós que “conheceis todos os seus sofrimentos
    e as suas esperanças”,
    Vós que sentis maternamente todas as lutas
    entre o bem e o mal,
    entre a luz e as trevas,
    que abalam o mundo contemporâneo,
    acolhei o nosso clamor
    que movidos pelo Espírito Santo,
    elevamos directamente
    ao Vosso Coração,
    e abraçai com o amor da Mãe e da Serva
    este nosso mundo humano,
    que Vos confiamos e consagramos,
    cheios de inquietação pela sorte terrena
    e eterna dos homens e dos povos.
    De modo especial
    Vos entregamos e consagramos
    aqueles homens e aquelas nações,
    que desta entrega e desta consagração
    particularmente têm necessidade.
    “À Vossa protecção
    nos acolhemos Santa Mãe de Deus”!
    Não desprezeis as nossas súplicas,
    pois nos encontramos na provação
    !
    Não desprezeis!
    Acolhei a nossa humilde confiança
    e a nossa entrega!
    2. “Porque Deus amou de tal modo o mundo
    que lhe deu o seu Filho unigénito,
    para que todo aquele que n’Ele crer,
    não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo. 3, 16).
    Precisamente este amor
    fez com que o Filho de Deus
    se tenha consagrado a si mesmo:
    “Eu consagro-me por eles,
    para eles serem também consagrados
    na verdade” (Ibid. 17, 19).
    Em virtude desta consagração,
    os discípulos de todos os tempos
    são chamados
    a empenhar-se pela salvação do mundo,
    a ajuntar alguma coisa
    aos sofrimentos de Cristo
    em benefício do Seu Corpo,
    que é a Igreja (Cfr. 2Cor. 12, 15; Col 1, 24).
    Diante de Vós,
    Mãe de Cristo,
    diante de Vosso Coração Imaculado,
    desejo eu, hoje,
    juntamente com toda a Igreja,
    unir-me com o nosso Redentor
    nesta sua consagração pelo mundo e pelos homens,
    a qual só no seu Coração divino
    tem o poder de alcançar o perdão
    e de conseguir a reparação.
    A força desta consagraçãopermanece por todos os tempos
    e abarca todos os homens,
    os povos e as nações,
    e supera todo o mal,
    que o espírito das trevas
    é capaz de despertar
    no coração do homem e na sua história,
    e que, de facto,
    despertou nos nossos tempos.
    A esta consagração do nosso Redentor,
    mediante o serviço do sucessor de Pedro,
    une-se a Igreja, Corpo místico de Cristo.
    Oh! quão profundamente
    sentimos a necessidade de consagração,
    pela humanidade e pelo mundo:
    para nosso mundo contemporâneo,
    na unidade com o próprio Cristo!
    Na realidade, a obra redentora de Cristo
    deve ser participada pelo mundo
    pela mediação da Igreja.
    Oh! quanto nos penaliza,
    portanto,
    tudo aquilo que na Igreja
    e em cada um de nós
    se opõe à santidade e à consagração!
    Quanto nos penaliza
    que o convite à penitência,
    à conversão, à oração,
    não tenha encontrado aquele acolhimento que devia!
    Quanto nos penaliza
    que muitos participem
    tão friamente
    na obra da Redenção de Cristo
    !
    Que tão insuficientemente
    se complete na nossa carne
    “aquilo que falta aos sofrimentos de Cristo!” (Col 1, 24).
    Sejam benditas portanto,
    todas as almas
    que obedecem à chamada do Amor eterno!
    Sejam benditos aqueles que,
    dia após dia,
    com generosidade inexaurível
    acolhem o Vosso convite,
    ó Mãe, para fazer aquilo que diz o Vosso Jesus (Cfr. Io 2, 5)
    e dão à Igreja e ao mundo
    um testemunho sereno de vida inspirada no Evangelho.
    Sede bendita,
    acima de todas as criaturas,
    Vós, Serva do Senhor,
    que mais plenamente obedeceis a este Divino apelo!
    Sede louvada,
    Vós que estais inteiramente unida
    à consagração redentora do Vosso Filho!
    Mãe da Igreja!Iluminai o Povo de Deus
    nos caminhos da fé, da esperança e da caridade!
    Ajudai-nos a viver
    com toda a verdade da consagração de Cristo
    pela inteira família humana, no mundo contemporâneo.
    3. Confiando-Vos, ó Mãe,
    o mundo,
    todos os homens e todos os povos,
    nós Vos confiamos também
    a própria consagração em favor do mundo
    ,
    depositando-a no Vosso Coração materno.
    Oh, Coração Imaculado!
    Ajudai-nos a vencer a ameaça do mal
    que tão facilmente se enraíza
    nos corações dos homens de hoje e que,
    nos seus efeitos incomensuráveis,
    pesa já sobre a nossa época
    e parece fechar os caminhos do futuro!
    Da fome e da guerra, livrai-nos!
    Da guerra nuclear, de uma autodestruição incalculável e de toda espécie de guerra, livrai-nos!
    Dos pecados contra a vida do homem desde os seus primeiros instantes, livrai-nos!
    Do ódio e do aviltamento da dignidade dos filhos de Deus, livrai-nos!
    De todo o género de injustiça na vida social, nacional e internacional, livrai-nos!
    Da facilidade em calcar aos pés os mandamentos de Deus, livrai-nos!
    Dos pecados contra o Espírito Santo, livrai-nos, livrai-nos!
    Acolhei, ó Mãe de Cristo,
    este clamor carregado do sofrimentode todos os homens!
    Carregado do sofrimento de sociedades inteiras!
    Que se revele,
    uma vez mais, na história do mundo,
    a força infinita do Amor misericordioso!
    Que ele detenha o mal!
    Que ele transforme as consciências!
    Que se manifeste para todos,
    no Vosso Coração Imaculado,
    a luz da Esperança!
    Quero dirigir-vos ainda uma oração especial,
    ó Mãe que conheceis as ansiedades e as preocupações dos vossos filhos.
    Suplico-vos,
    em imploração ardente e dorida
    que interponhais a vossa intercessão pela paz no mundo,
    pela paz entre os povos que,
    em diversas partes,
    contrastes de interesses nacionais e actos de prepotência injusta
    opõem sangrentamente entre si.
    Suplico-vos, em particular, que cessem as hostilidades que dividem já, há muitos dias, dois grandes Países nas águas do Atlântico meridional,causando dolorosas perdas de vidas humanas. Fazei com que se encontre finalmente uma solução justa e honrosa entre as duas Partes, não apenas pela controvérsia que as divide e ameaça com consequências imprevisíveis, mas também, e sobretudo para o restabelecimento entre elas da mais digna e mais profunda harmonia, como convém à sua História, à sua civilização e às suas tradições cristãs.
    Que em breve a grave e preocupante controvérsia seja superada e concluída, de tal maneira que também se possa realizar felizmente a minha projectada viagem pastoral à Grã-Bretanha, para ser satisfeito não só o meu desejo pessoal, mas também o de todos aqueles que esperam ardentemente esta visita e que com tanto empenho e com todo o coração a têm vindo a preparar.
    Fátima, 13 de Maio de 1982

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