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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O verdadeiro rosto de São Pio X. Por Roberto de Mattei


 Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com – Cem anos após sua morte, a figura de São Pio X ergue-se, triste e majestosa, no firmamento da Igreja. A tristeza que vela o olhar do Papa Sarto nas suas últimas fotografias não deixa entrever apenas as catastróficas conseqüências da Primeira Guerra Mundial, iniciada três semanas antes de sua morte. O que sua alma parece pressagiar é uma tragédia, de porte ainda maior, das guerras e revoluções do século XX: a apostasia das nações e dos próprios homens da Igreja, no século que se seguiria. 

O principal inimigo que São Pio X haveria de enfrentar tinha um nome, com o qual o mesmo Pontífice o designou: modernismo. A luta implacável ao modernismo caracterizou indelevelmente o seu pontificado e constituiu um elemento de fundo da sua santidade. “A lucidez e a firmeza com que Pio X conduziu a vitoriosa luta contra os erros do modernismo – afirmou Pio XII no discurso de canonização do Papa Sarto – atestam em que heroico grau a virtude da fé ardia em seu coração de santo (…)”. 
Ao modernismo, que se propunha “uma apostasia universal da fé e da disciplina da Igreja”, São Pio X opunha uma autêntica reforma, que tinha seu ponto principal na proteção e transmissão da verdade católica. A encíclicaPascendi (1907), com a qual ele fulminou os erros do modernismo, é o documento teológico e filosófico mais importante produzido pela Igreja no século XX. Mas São Pio X não se limitou a combater o mal nas ideias, como se este fosse dissociado da História. Ele queria golpear os portadores históricos dos erros aplicando censuras eclesiásticas, exercendo vigilância sobre os seminários e as universidades pontifícias, impondo a todos os sacerdotes o juramento antimodernista. 
Esta coerência entre a doutrina e a prática pontifícia suscitou violentos ataques, provenientes dos ambientes cripto-modernistas. Quando Pio XII promoveu sua beatificação (1951) e sua canonização (1954), o Papa Sarto foi definido pelos opositores como estranho aos fermentos renovadores de seu tempo, como o culpado por ter reprimido o modernismo com métodos brutais e policialescos. Pio XII confiou a Mons. Ferdinando Antonelli, futuro cardeal, a redação de uma Disquisitio histórica dedicada a desmontar as acusações contra seu predecessor com base em testemunhos e documentos. Mas essas acusações ressurgem hoje até mesmo na “celebração” que o “Osservatore Romano” dedicou a São Pio X, em 20 de agosto, aniversário de sua morte, através da pena de Carlo Fantappié.
Em sua recensão, no jornal da Santa Sé, do livro Pio X. Alle origini del cattolicesimo contemporaneo (Pio X. Às origens do catolicismo contemporâneo – Lindau, Torino 2014), de autoria de Gianpaolo Romanato, o Prof. Fantappié, preocupado em tomar distância da “instrumentalização dos lefebvristas” – como ele escreveu, de modo infeliz, usando um termo desprovido de qualquer significado teológico –, chega a identificar-se com as posições dos historiadores modernistas. Ele atribui de fato a Pio X “um modo autocrático de conceber o governo da Igreja”, acompanhado “de uma atitude tendencialmente defensiva no confronto com o establishment e de desconfiança em relação aos próprios funcionários, de cuja lealdade e obediência não raro duvidava”. Ele “faz também compreender como foi possível que o Papa tenha se excedido em práticas dissimulatórias ou tido uma desconfiança e dureza particulares contra certos cardeais, bispos e clérigos. Valendo-se de recentes pesquisas sobre documentos do Vaticano, Romanato elimina definitivamente aquelas hipóteses apologéticas que procuravam debitar a responsabilidade pelas medidas policialescas aos estreitos colaboradores associados, em vez de diretamente ao Papa”. Trata-se das mesmíssimas críticas novamente propostas alguns anos atrás no artigo Pio X, flagelo dos modernistas, de Alberto Melloni, segundo o qual “as cartas nos permitem documentar o ano em que Pio X havia sido parte ativa e consciente da violência institucional implementada pelos antimodernistas” (“Corriere della Sera”, 23 de agosto de 2006). 
O problema básico não seria “do método com o qual o modernismo foi reprimido, mas da oportunidade e validade de sua condenação”. A visão de São Pio X estava “superada” pela História, porque ele não compreendia a evolução da teologia e da eclesiologia do século XX. Sua figura no fundo tem o papel dialético de uma antítese em relação à tese da “modernidade teológica”. Então Fantappié conclui que o papel de Pio X teria sido o de “transportar o catolicismo das estruturas e da mentalidade da Restauração para a modernidade institucional, jurídica e pastoral”. 
Para tentar sair dessa confusão, podemos recorrer a um outro livro, de Cristina Siccardi, publicado há pouco pelas edições São Paulo com o título São Pio X. Vita del Papa che ha ordinato e riformato la Chiesa (São Pio X. Vida do Papa que ordenou e reformou a Igreja) e com um precioso prefácio de Sua Eminência o Cardeal Raymond Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. 
O cardeal recorda como, no final de sua primeira encíclica E supremi apostolatus, de 4 de outubro de 1903, São Pio X anunciava o programa de seu pontificado, que se defrontava no mundo com uma situação de confusão e de erros, e na Igreja, com a perda da fé da parte de muitos. A essa apostasia ele contrapunha a palavra de São Paulo: Instaurare omnia in Christo, reconduzir a Cristo todas as coisas. “Instaurare omnia in Christo – escreve o cardeal Burke –, é verdadeiramente a divisa do pontificado de São Pio X, todo voltado a recristianizar a sociedade agredida pelo relativismo liberal, que espezinhava os direitos de Deus em nome de uma ‘ciência’ desvinculada de todo tipo de liame com o Criador” (p. 9). 
É nessa perspectiva que se situa a obra reformadora de São Pio X, a qual é, antes de tudo, uma obra catequética, porque ele compreendeu que aos erros invasivos impunha contrapor um conhecimento sempre mais profundo da fé, difundida aos mais simples, a começar pelas crianças. Por volta do fim de 1912, seu desejo se realizou com a publicação do Catecismo que dele toma o nome, destinado originalmente à Diocese de Roma, mas depois difundido em todas as dioceses da Itália e do mundo. 
A gigantesca obra reformadora e restauradora de São Pio X desenvolveu-se na incompreensão dos próprios meios eclesiásticos. “São Pio X – escreve Cristina Siccardi – não procurou o consenso da Cúria romana, dos sacerdotes, dos bispos, dos cardeais, dos fieis, e sobretudo não procurou o consenso do mundo, mas sempre e somente o consenso de Deus, ainda que em detrimento da própria imagem pública, e, assim agindo, fez sem dúvida muitos inimigos em vida e ainda mais após a morte” (p. 25). 
Hoje podemos dizer que os seus piores inimigos não são aqueles que o atacam frontalmente, mas os que procuram desvirtuar o significado de sua obra, fazendo dele um precursor das reformas conciliares e pós-conciliares. O quotidiano “La Tribuna de Treviso” informa que, por ocasião do centenário da morte de São Pio X, a diocese de Treviso “abriu as portas aos divorciados e aos casais de fato”, convidando-os, em cinco igrejas – entre elas a de Riese, cidade natal do Papa Giuseppe Sarto –, a rezar pelo bom êxito do Sínodo de outubro sobre a família, cuja linha o cardeal Kasper ditou em seu relatório ao Consistório de 20 de fevereiro. Fazer de São Pio X o precursor do cardeal Kasper é uma ofensa em relação à qual a desdenhosa definição melloniana de “flagelo dos modernistas” se torna um elogio.

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