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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Devolvamos beleza à liturgia!


O site New Liturgical Movement traz neste domingo uma homilia extraordinária do Padre Franklyn M. McAfee sobre a beleza na liturgia, traduzo-a para os leitores de OBLATVS. Espero que agrade aos leitores como agradou-me a mim.

“A thing of beauty is a joy forever
Its loveliness increases;
It will never pass into nothingness.”
John Keats
Quando os enviados de Vladimir, Príncipe de Kiev, retornaram de uma visita a Constantinopla, onde assistiram à Divina Liturgia na Catedral de Santa Sofia no século X, eles fizeram o seguinte relatório: “Não sabíamos se estávamos no céu ou na terra, com certeza não há tal esplendor e beleza em outro lugar sobre a terra. Não somos capazes de descrevê-lo a vós; só isto sabemos, que lá Deus habita entre os homens, e que o seu culto supera o de outros lugares. Porque não podemos esquecer a beleza!”
O Presidente John Adams, numa carta a sua esposa Abigail, contou uma visita a uma “Capela Romanista”, onde diz: “A Música, que consistia em um órgão e um Coro de cantores, tomou toda a Tarde, excetuando-se o Momento do sermão, e a Assembleia cantava – na maioria do tempo suave e agradavelmente. Isto é Tudo que pude captar com um golpe de Visão, Audição e Imaginação. Todas as Coisas que podem seduzir e encantar o simples e ignorante. Eu imagino como Lutero pôde ter quebrado o encantamento.”
Santa Teresa d’Ávila declarou: “Eu sempre sou tocada pela grandeza das cerimônias da Igreja”. O amor à beleza e a expressão desse amor pela obra de arte não é beleza em si mesmo, mas sua expressão é homenagem a Deus porque, segundo São Tomás de Aquino, “beleza é um dos nomes de Deus”. Por conseguinte a Igreja, quando é convocada a celebrar os Divinos Mistérios, utiliza-se de todas as artes que despertam os sentidos porque a beleza é “id quod visum placet”, “aquilo que agrada à visão”. A sobriedade dos cantos, o esplendor dos instrumentos, a festividade dos paramentos, a pompa do incenso, as velas, os vasos, a água benta – todas estas coisas ajudam-nos em nossa adoração ao Deus Triuno que criou a beleza, sustenta a beleza, redimiu a beleza e é a própria Beleza.
A Igreja tradicionalmente revestiu o Santo Sacrifício da Missa com o mistério. Usando as coisas boas criadas, a Igreja em sua terrena transcendência conduz seus filhos a Deus e Deus, pelos mesmos meios, desce até eles. A Igreja às vezes esqueceu-se disto. O Papa Bento XVI (como Cardeal Ratzinger) lamentou: “Desde o Concílio Vaticano [Segundo] a Igreja deu as costas à beleza”. Há alguns anos atrás o Pontifício Conselho para a Cultura em Roma fazia este pedido: “devolvam a beleza aos edifícios eclesiásticos, devolvam a beleza aos objetos litúrgicos!” A Igreja não apenas deu as costas à beleza, como parece se envergonhar dela. Ele que um dia foi a promotora das artes.
Nós nos empobrecemos. Nós, para usar uma frase de Paul Claudel, “vivemos numa época de imaginação escassa”. Segundo o filósofo Plotino, “a alma precisa subir a escada do belo antes de poder encontrar a visão da Beleza Primeira”. Mas o que acontece quando se removem os degraus da escada?
Os cientistas nos dizem que o lado esquerdo do cérebro especializa-se em matemática, análise, ciência e assim por diante. E que o lado direito do cérebro é incuravelmente romântico, sua terreno é poesia, amor, arte, música. É o lado direito do cérebro que é envolvido pela mais elevada forma de Liturgia. Um autor disse certa vez: “Durante um exemplo mais des-ritualizado da Missa vernácula, o cérebro direito, miniatura de Homer ou Shakespeare que há em todos nós, é sufocado até a morte”.
H. L. Menken que escrevia para um jornal de Baltimore, e não era um amigo da religião, pegou-se admirando a Igreja Católica conforme disse em 1923: “A Igreja Latina, à qual eu me pego constantemente admirando, a despeito de suas frequentes incríveis imbecilidades, sempre teve claro diante de si o fato de que a religião não é um silogismo, mas um poema... Roma, de fato, não apenas preservou a poesia original do Cristianismo; ela fez ainda acréscimos capitais àquela poesia – por exemplo, a poesia dos Santos, de Maria, da própria liturgia”. “Uma Missa Solene”, conclui, “deve ser mil vezes mais impressionante que o mais poderoso sermão já ecoado numa nave... diante de tão envolvente beleza não é necessário cansar os fiéis com lógica; eles se convencem mais se deixados em paz.”
Ouçam os inimigos da Igreja. Eles tremem a cada balanço do turíbulo e a cada genuflexão. Em 1888 um adventista ‘do sétimo dia’ publicou um livro sobre a Prostituta da Babilônia. Quando o Juiz Clarence Thomas (católico) foi nomeado para a Suprema Corte o livro foi reimpresso. Eis o que o autor fala sobre o Culto Católico... lembrem-se de que isto foi no século XIX: “Muitos Protestantes supõem que a religião católica não é atrativa e que seu culto é uma série pálida de cerimônias sem sentido. Eis o erro. Embora o Romanismo seja baseado num engano, não é uma impostura grosseira e tosca. O serviço religioso da Igreja Romana é o cerimonial mais impressionante. Seu visual esplêndido e ritos solenes fascinam os sentidos do povo e silenciam a voz da razão e da consciência. O olhar fica encantado. Igrejas magnificentes, procissões imponentes, altares dourados, santuários preciosos, pinturas escolhidas e esculturas refinadas apelam para o amor à beleza. O ouvido também é cativado. A música é insuperável. As ricas notas de um órgão sonoro, misturado à melodia de muitas vozes que sobe pelas majestosas cúpulas e naves de suas grandes catedrais, não podem senão impressionar a mente com admiração e reverência. A pompa e cerimônia do culto católico tem o poder sedutor e encantador pelo qual muitos são enganados; e eles chegam a ver a Igreja Romana como a verdadeira porta do céu”.
Desta forma, muitos corações insensíveis à Igreja e a seus ensinamentos se enterneceram; como foi o caso dos “decadentes” – Baudelaire, Verlaine, Aubrey, Oscar Wilde e outros. “A beleza pode então ser adequadamente chamada evangélica, beleza evangélica, via pulchritudinis, pode abrir o caminho para a busca de Deus e dispor o coração e o espírito para encontrar Cristo que é a beleza da Santidade Encarnada oferecida por Deus ao homem para sua salvação”.
Segundo Santo Tomás de Aquino, para algo ser considerado belo deve ter três qualidades: integridade, harmonia e clareza ou resplendor. Quando o resplendor irrompe e os ensinamentos da Igreja se tornam manifestos, a Igreja Católica é reconhecida como o lugar onde a verdade habita e o lar da beleza. Esta era o caso dos decadentes. Hans Urs von Balthasar escreveu que quando “o bem perdeu seu poder de atração, quando as provas perderam seu caráter conclusivo; então restará a beleza para compelir”.
O Papa Bento XVI, em sua citação da visita dos delegados do Príncipe Vladimir de Kiev à Constantinopla disse que a delegação e o príncipe aceitaram a verdade do Cristianismo não pela persuasão de seus argumentos teológicos mas pela beleza do mistério de sua Liturgia.
O poeta Baudelaire escreveu: “É de imediato através da poesia e pela poesia, através e pela música, que a alma vislumbra o esplendor situado além do túmulo; e quando um poema estupendo traz lágrimas aos olhos, estas lágrimas não são prova de alegria excessiva. Elas são testemunho de uma melancolia impaciente, uma exigência dos nervos, de uma natureza exilada no imperfeito, e agora desejosa de tomar posse daquele mundo”.
Baudelaire foi influenciado significativamente em sua ideia de beleza por um escritor americano que ele muito admirava, Edgar Allan Poe. Poe dizia da beleza: “Nós ainda temos uma sede insaciável, a sede que pertence à imortalidade do homem. Ela é consequência imediata e uma indicação desta natureza perene. É o desejo da mariposa pelas estrelas. Não é mera apreciação da beleza diante de nós, mas um esforço velado para alcançar a beleza acima de nós”.
Por que então a Liturgia deve ser bela? Porque a beleza oferece um veículo para transcender nossas vidas presentes e para tocar as bordas do céu. Quando nós encontramos a beleza finita se engendra um desejo mais ardente pela beleza imortal absoluta da qual a beleza temporal do mundo é apenas uma efêmera epifania.
Na Epístola aos Hebreus, Cristo é chamado o “leiturgos”, o Liturgista que preside todos nossos rituais, Ele próprio oferece a Liturgia. Uma vez que Cristo é o “leiturgos” e Cristo é a Beleza Encarnada, toda beleza deve refleti-Lo e deve fluir d’Ele na Liturgia.
Cristo, o Verbo Feito Carne, é a maior obra-prima. Cristo é a mais perfeita sinfonia. Cristo é a pintura mais preciosa. Cristo é o ritmo cósmico no poema eterno.
São João da Cruz dizia: “Deus passa pelos matagais do mundo e onde Seu olhar recai, ele conduz todas as coisas à beleza”.
São Paulo escreveu a Timóteo: “Ele é o Rei dos Reis e Senhor dos Senhores. Ele possui a imortalidade e habita em luz inacessível”. Já na Divina Liturgia da Missa nós nos encorajamos a nos aproximarmos d’Ele que vive em luz inacessível.
Como posso descrever a Liturgia? Posso descrever a Liturgia com uma palavra. Nas cortes celestes, entre os coros dos anjos, somente uma palavra é falada, uma palavra solitária que os querubins e os serafins pronunciam diante da majestade da liturgia cósmica do Cordeiro glorificado, outrora morto mas agora ressuscitado, e a palavra é...
Aquela simples palavra...
Aquela gloriosa, triunfante palavra é...
AHHH!
Tradução: OBLATVS