Don Divo Barsotti

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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Metropolia Hilarion Alfeyev – Sobre a oração

XIX: A oração de Jesus O Apóstolo Paulo diz: Orai sem cessar (I Tessalonicenses 5:17). As pessoas perguntam com frequência: Como podemos orar sem cessar, se estamos trabalhando, lendo, falando, comendo, dormindo, etc.? Isto é, se estamos fazendo coisas que possam parecer incompatíveis com a oração? A resposta para esta questão na tradição Ortodoxa é a Oração de Jesus. O fiel que pratica a Oração de Jesus alcança a oração constante, isto é, um incessante estar diante de Deus. Como se faz isso? A Oração de Jesus é: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, um pecador.” Também há uma forma mais curta. “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim. ” Mas pode-se reduzir a oração a três palavras: “Senhor, tem piedade.” Quem pratica a Oração de Jesus não a repete somente durante os serviços divinos ou quando orando em casa, mas quando viaja, come e ao ir dormir. Ainda que esteja falando com alguém ou ouvindo alguém falar, sem perder a intensidade de sua percepção, pode-se, entretanto, continuar a repetir esta oração no fundo de seu coração. O significado da Oração de Jesus não consiste, claro, na sua repetição mecânica, mas em sentir a presença viva de Cristo sempre. Esta presença é sentida por todos nós primeiro porque, ao recitar a Oração de Jesus, nós recitamos o nome do Salvador. O nome é um símbolo de seu portador; no nome está presente, por assim dizer, a pessoa a quem ele pertence. 

Quando um jovem homem se apaixona por uma jovem mulher, ele incessantemente repete o nome dela, porque ela está, por assim dizer, presente em seu nome. E, à medida em que o amor preenche todo o seu ser, ele sente a necessidade de repetir este nome outra e outra vez. Exatamente da mesma forma, um Cristão que ama o Senhor repete o nome de Jesus Cristo, porque todo seu coração e ser são atraídos por Cristo. Quando fazemos a Oração de Jesus é muito importante tentar não imaginar Cristo, reproduzindo-O como alguém em uma situação mundana ou, por exemplo, crucificado. A Oração de Jesus não deve ser relacionada a imagens que possam formar-se em nossa imaginação, porque, assim sendo, há uma substituição da verdadeira imaginação. A Oração de Jesus deve ser acompanhada apenas por uma percepção interior da presença de Cristo e uma sensação de estar diante do Deus Vivo. Nenhuma imagem externa é apropriada aqui. 

XX: O que há de tão bom na Oração de Jesus? A Oração de Jesus tem várias propriedades. Primeiramente, a oração contém a presença do nome de Deus nela. 
 Nós frequentemente pensamos no nome de Deus como por hábito, intuitivamente. Dizemos: “Senhor, estou tão cansado” ou “Deus está com ele, deixe-o vir outra hora” – completamente sem pensarmos sobre a força que o nome de Deus possui. Entretanto, já no Antigo Testamento isso foi confirmado: Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão (Êxodo 20:7). Os antigos judeus tratavam o nome de Deus com extrema reverência. Na era seguinte à libertação do cativeiro da Babilônia era, em geral, proibido pronunciar o nome de Deus. Este direito era restrito ao sumo sacerdote, quando entrava no Santo dos Santos, o principal santuário do templo. Quando nos voltamos à Oração de Jesus, nossa pronunciação do nome de Cristo e a confissão Dele como Filho de Deus têm um sentido completamente diferente. Este nome deve ser pronunciado com a maior das reverências. 
 Outra propriedade da Oração de Jesus é sua simplicidade e acessibilidade. Para recitá-la, não é necessário nenhum livro, lugar ou momento específicos. Esta é sua grande vantagem sobre as demais orações. Por fim, há mais uma propriedade que distingue esta oração: nela confessamos nossos pecados: “Tem piedade de mim, pecador.” Este ponto é muito importante, porque muitos de nossos contemporâneos absolutamente não têm consciência de seus pecados. Até mesmo na Confissão frequentemente se ouve: “Não sei do que me arrepender: Eu vivo como os demais, não mato, nem roubo” e por aí vai. Entretanto, são nossos pecados, por regra, que são as causas de nossas grandes enfermidades e sofrimentos. Se uma pessoa não reconhece seus pecados, ela está distante de Deus, como em uma sala escura, onde não vemos poeira, nem sujeira, mas quando abrimos a janela, descobrimos que a sala estava precisando de uma limpeza há muito tempo. A alma do homem, distante de Deus, é como uma sala escura. Todavia, à medida que nos aproximamos de Deus, mais luz chega a nossas almas e com maior nitidez enxergamos nossos pecados. Isto ocorre, não porque nos comparamos aos outros, mas porque nos postamos perante Deus. Quando dizemos: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim, pecador”, nós, como se nos colocássemos diante da face de Cristo, comparamos nossas vidas à Dele. Então, nós nos sentiremos, de fato, como pecadores e poderemos, do fundo de nossos corações, ofertar arrependimento. 

XXI: A prática da Oração de Jesus 
Vamos falar sobre os aspectos práticos da Oração de Jesus. Algumas pessoas se propõe a repetir a Oração de Jesus ao longo do dia, digamos, umas cem, quinhentas ou mil vezes. Para contar quantas vezes eles disseram a Oração, eles usam um cordão de oração, que pode ter cinquenta, cem ou mais nós. Ao pronunciar mentalmente a Oração, as pessoas usam o cordão. Mas se você está começando no esforço ascético da Oração de Jesus, então você deve dar mais atenção à qualidade que à quantidade. 

Parece-me que se deve começar com uma pronúncia muito lenta e em voz alta de cada palavra da Oração de Jesus, assegurando que esse coração participe da oração. Você pronuncia: “Senhor... Jesus... Cristo...”- e seu coração responde a cada palavra. E não busque de imediato repetir a Oração de Jesus muitas vezes. Basta dizê-lo dez vezes, se seu coração responde às palavras, isso será suficiente. O homem tem dois centros espirituais: a mente e o coração. Com a mente é conectada a atividade espiritual, a imaginação, os pensamentos, com o coração são conectadas as emoções e experiências. 

Quando se diz a Oração de Jesus, o centro deve ser o coração. É por isso que, ao orar, não se deve tentar representar algo na mente – por exemplo, Jesus Cristo – mas tentar manter a atenção no coração. Os antigos escritores ascetas da Igreja desenvolveram a técnica de “guardar a mente no coração”, através da qual a Oração de Jesus está conectada com a respiração: quando você inala, diz “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus”, quando exala, “tem piedade de mim, pecador”. A atenção era, por assim dizer, transferida da mente para o coração. Eu não creio que todos devam praticar a Oração de Jesus dessa forma; é suficiente apenas dizer as palavras da oração com atenção e reverência. Comece sua manhã com a Oração de Jesus. Se durante o dia você tiver um minuto livre, recite a Oração por mais vezes; à noite, antes de dormir, repita até adormecer. Se você aprender a dormir e acordar com a Oração de Jesus, terá um grande apoio espiritual. Gradualmente, à medida que o seu coração se tornar mais correspondente às palavras da oração, você poderá chegar ao ponto em que se torna incessante – além de que o conteúdo principal da oração já não serão as palavras pronunciadas, mas o sentimento constante da presença de Deus em seu coração. E se você começar a dizer a oração em voz alta, gradualmente, chegará ao ponto que você dirá isso apenas em seu coração, sem envolvimento da língua ou dos lábios. Você verá como a oração transformará toda sua natureza humana e toda sua vida. Esse é o poder especial da Oração de Jesus. 

XXII: Livros sobre a Oração de Jesus  
“Seja o que faça, seja o que esteja fazendo em qualquer momento, dia e noite, pronuncie com a sua boca estas palavras Divinas: “Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem piedade de mim, um pecador.” Isto não é difícil: tanto enquanto em viagem, na estrada, e durante o trabalho – se estiver cortando lenha ou carregando água, cavando ou cozinhando. Afinal, em todas estas coisas, o corpo está em trabalho e a mente, ocupada – então dar a ela algo para fazer é inerente e prazeroso à sua natureza imaterial: pronunciar o nome de Deus”. Este é um trecho do livro Nas Montanhas do Cáucaso, o qual foi publicado no início do século passado e é dedicado à Oração de Jesus. Eu gostaria de enfatizar que esta oração precisa ser aprendida – além disso, de preferência com o auxílio de um diretor espiritual. Na Igreja Ortodoxa há professores de oração entre monásticos, párocos e até leigos: estas são pessoas que aprenderam sozinhas o poder da oração através da experiência. Contudo, se você não encontrar um instrutor – e muitos reclamam que atualmente é difícil encontrar um instrutor na oração – pode-se recorrer aos livros como Nas Montanhas do Cáucaso ou O Caminho de um Peregrino. O último, o qual foi publicado no século XIX e republicado várias vezes, é sobre uma pessoa que decide aprender a oração incessante. Ele era um andarilho que andava de cidade em cidade com uma sacola sob os ombros e um bastão, que aprendeu a orar. Ele repetia a Oração de Jesus alguns milhares de vezes por dia. Há também a clássica coleção de cinco volumes de trabalhos de Santos Padres do século IV ao V: A Filocalia. Este é um tesouro muito rico de experiência espiritual, contendo muitas instruções sobre a Oração de Jesus e sobriedade ou vigilância mental. Aqueles que desejam verdadeiramente aprender a como orar devem familiarizar-se com estes livros. Eu também citei uma passagem do livro Nas Montanhas do Cáucaso porque há muitos anos, quando eu era um adolescente, eu tive a oportunidade de viajar à Georgia, às montanhas do Cáucaso próxima à Sukhumi. Lá, encontrei eremitas. Eles viviam lá até nos tempos da União Soviética, longe da vaidade mundana, em cavernas, desfiladeiros e precipícios, e ninguém sabia de suas existências. Eles viviam em oração e passavam de geração para geração um tesouro de experiência orante. Estas eram pessoas que eram como de um mundo diferente, que alcançaram elevações espirituais elevadas e paz interior profunda. E isto foi tudo graça à Oração de Jesus. Que Deus permita que através de instrutores experientes e através dos livros dos Santos Padres, que nós aprendamos este tesouro: a incessante prática da Oração de Jesus!