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domingo, 22 de novembro de 2020

Santo surfista: evento na praia faz memória de Guido Schäffer

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Santo surfista: evento na praia faz memória de Guido Schäffer

Surfe, adoração, missa e música para comemorar os 8 anos do Servo de Deus Guido no céu.

Guido em sua prancha: um jovem tipicamente carioca
Guido em sua prancha: um jovem tipicamente carioca (SURFFOTO)

No dia 1º de maio, vão se completar oito anos da morte do Servo de Deus Guido Schäffer. Para homenagear o também médico e surfista carioca, que está em processo de beatificação e canonização, no caminho de se tornar santo, será realizado, na data, o evento campal D.I.A. na Praia 2017, no posto 11 da Praia do Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio.

A sigla do evento, “D.I.A.”, surge da expressão em latim Duc In Altum, que significa “buscando águas profundas”. A abertura será às 8h, com bênção das pranchas pelo arcebispo do Rio, Cardeal Orani João Tempesta. Em seguida, começa a Adoração ao Santíssimo Sacramento, momento em que Guido sempre entregava as graças e pedidos a Deus. Às 10h, será realizada a Santa Missa, presidida por Dom Roberto Lopes, delegado para a Causa dos Santos no Rio de Janeiro, com a presença dos padres amigos do jovem.

No fim do evento, será formada uma roda de oração no mar e um surfe comemorativo vai lembrar as últimas ondas que Guido “dropou” antes de partir para junto de Deus.

No local, também haverá o Espaço Guido Schäffer, um lounge com a exposição sobre a vida do Servo de Deus.

O jovem tinha como virtudes a caridade e o carinho com os mais necessitados. Por isso, neste ano, será feita a arrecadação de alimentos não perecíveis para a Casa do Padre, instituição que acolhe os sacerdotes idosos da Arquidiocese do Rio.

Na data, 1º de maio, também se comemora o Dia do Trabalho. A celebração vai lembrar a dedicação de Guido às funções que desempenhou com dedicação em vida: a Medicina e a preparação para o sacerdócio. É também o primeiro dia do mês de Nossa Senhora, de quem o jovem era extremamente devoto.

Segundo a mãe de Guido, Maria Nazareth Schäffer, o evento será um momento de evangelização para quem lá estiver. “Como pede o Papa Francisco, é sair e ir ao encontro do outro, exatamente o que Guido gostava de fazer. Muitas vezes, evangelizou na praia, entre uma onda e outra. O mar era para ele um local de encontro também com Deus”, disse. 


Surfista. Médico. Amigo. Filho. Namorado. Se em Guido Schäffer se destacaram todas estas coisas, outra ainda falou mais alto: o amor a Deus. Exerceu medicina sempre ao serviço dos mais frágeis. Depois de uma visita ao Santuário de Fátima, Guido decidiu seguir o sacerdócio. Nunca deixou de anunciar a Palavra de Deus, até mesmo no mar. Hoje, as suas obras perduram muito para além da morte. flávia Barbosa Fotos: Associação Cultural Católica Guido Schäffer Surfar no mar de Deus Guido Schäffer nasceu a 22 de Maio de 1974 em Volta Redonda, Rio de Janeiro, Brasil. A sua infância foi “normal”, como a de todas as crianças, afirmam os pais. Guido era forte, saudável e muito alegre. Gostava de brincar com todas as outras crianças. Muito comunicativo, aproximava-se rapidamente das pessoas e fazia amizades facilmente. Também era traquina: gostava de atirar os brinquedos pela janela do apartamento onde morava só para vê-los cair das alturas. A família Schäffer morava em frente à praia, por isso cedo Guido se entusiasmou com a natação e o surf. O mar era uma das suas grandes paixões. Ainda menino, sonhava ser nadador- -salvador. Gostava muito de andar de bicicleta e com um grupo de amigos subiu todas as montanhas do Rio de poder de Deus. Enquanto surfava, esquecia-se de tudo, era uma terapia para ele”, explica a mãe, Nazareth. Foi, aliás, no mar, que Guido conheceu o “melhor amigo”, Eduardo Martins, que reconhece nele uma perfeita sintonia e conexão com a água, as ondas e a natureza. “Os amigos surfistas brincam e dizem que, quando íamos para a praia com ele, a melhor coisa a fazer era ficar ao seu lado, porque as melhores ondas vinham sempre na sua direcção. Por mais baixo que estivesse o mar, mesmo que estivesse quase sem ondas, a melhor do dia era sempre para ele”, conta Eduardo, entre risos. O amigo explica que este era só um dos “pequenos milagres” que envolviam Guido. Mesmo quando surfava, não deixava de falar com Deus, de Deus, Guido schäffer: o "Santo" Surfista Janeiro a pedalar. Apesar das várias actividades, Guido era muito disciplinado e nunca se esquecia dos seus afazeres na escola. Foi sempre um bom aluno, o que lhe permitiu estudar medicina. Popular, fazia sucesso entre as raparigas da sua idade, ia a festas, divertia-se. Surfista. Médico. Amigo. Filho. Namorado. Aliado a estas facetas, houve algo que sempre o acompanhou: o amor a Deus. Tanto que a certa altura se desprendeu de grande parte da sua vida e iniciou o caminho que o levaria ao sacerdócio. Nunca deixou de praticar surf e fazia do desporto um grande veículo de evangelização. “De todos os desportos que praticava, o surf era o que ele mais gostava. Guido dizia que o mar lhe fazia lembrar a grandeza, a riqueza e o o que impressionava quem com ele se relacionava. “Eu estudei Engenharia com o irmão dele e todos nós surfávamos desde garotos. Numa dessas idas à praia conheci o Guido. Chamou-me muito a atenção por ser alguém tão novo e tão conhecedor da Palavra de Deus. Falava do Senhor com tanto entusiasmo que me deixou mesmo intrigado. Ele «pescou-me», literalmente”, diz. A incredulidade sentida quando se conheceram — como podia um surfista tão jovem e popular, com namorada, falar com tamanho fervor de Deus? — depressa desapareceu. A amizade entre os dois foi crescendo e, com a entrada de Eduardo no Grupo de Oração “Fogo do Espírito Santo”, fundado por Guido, fortaleceu-se ainda mais. Guido era uma espécie de Diário do Minho QUINTA-FEIRA, 07 DE DEZEMBRO DE 2017 IGREJA VIVA REPORTAGEM 5 mentor, de tutor em matéria de fé para o amigo. “A nossa amizade era em Cristo. Como ele estava mais avançado em matéria de fé, aprendi muito com o Guido. Às vezes achava que o ritmo dele era muito forte e que não o conseguia acompanhar… Porque ele rezava o terço, confessava-se, lia a Palavra, tudo com uma frequência muito intensa! Aos poucos fui-me acostumando e fui admirando cada vez mais aquela dedicação, aquele amor dele, a Palavra de Deus. Era um amigo de fé, mas também um amigo do surf”, explica. A oração: um bálsamo todos os dias A educação católica que rodeou Guido desde sempre parece ter sido decisiva para o seu percurso. “A nossa família é católica, sempre rezámos em casa, íamos à santa missa e os nossos filhos receberam os sacramentos na idade adequada. Sempre nos acompanharam de boa vontade. Quando eles eram adolescentes decidi, em oração, fazer um Cenáculo Mariano em casa e convidar os amigos deles, para aproximá- -los também da Igreja. Os amigos de Guido foram os que melhor responderam ao chamamento. Muitos até hoje perseveram na Igreja”, revela Nazareth. Em 1998, já formado em Medicina, Guido funda o Grupo de Oração “Fogo do Espírito Santo”, na Igreja Nossa Senhora da Paz, sob a direcção do Pe. Jorge Luis da Silva, conhecido como padre “Jorjão”. Um ano depois, inicia a residência médica nas Enfermarias da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e começa o atendimento médico aos sem-abrigo com as Missionárias da Caridade. A medicina servia assim um dos seus maiores propósitos: “ajudar os que sofrem”, sublinha a mãe. Foi no ano 2000, depois de uma viagem em família, que Guido comunicou aos pais o desejo de se tornar padre. “Guido comunicou-nos, a mim e ao meu marido, a sua decisão de ser sacerdote após uma visita ao Santuário de Fátima, em Portugal. A princípio achei que ele estava fascinado com tudo o que vivenciámos nesta viagem a Roma, França e Portugal. Estivemos numa audiência com o Santo Padre João Paulo II. Visitámos vários santuários, estivemos em Lourdes por uma semana. O meu marido aceitou a decisão de imediato, eu disse-lhe para procurar D. Karl Romer quando regressasse ao Brasil, para se orientar bem. Fez o discernimento vocacional por um ano e confirmou a sua decisão do sacerdócio, o que então me deixou mais tranquila”, explica a mãe. A oração sempre foi primordial na vida de Guido. A Liturgia das Horas, o Rosário, o Ofício da Imaculada Conceição, a adoração ao Santíssimo Sacramento e a Eucaristia eram para o jovem um “bálsamo diário”. Assim como Guido sorvia desse bálsamo, tentava também que o mesmo chegasse até aos amigos, como atesta Eduardo Martins. “O Guido fazia-me sentir mais perto de Deus porque essa era a busca dele, essa era a sua maior paixão. Guido via Deus em tudo. O surf era uma oportunidade de estar em contacto com Deus através da natureza. Ele estava sempre cheio de palavras de louvor, de gratidão, de agradecimento a Deus! Não foram poucas as vezes em que viajámos durante as férias para praias no Sul do Brasil e era impressionante como ele mantinha aquela paixão! Ardendo por Deus… Em tudo aquilo que fazia, esse amor por Deus manifestava-se. Tinha sempre uma palavra pronta para consolar, para encorajar os amigos… Estar junto dele era estar próximo de Deus, independentemente da actividade: de lazer, de trabalho…”, afirma. Santo? Todos os dias Ao longo do Pontificado, o Papa Francisco tem vindo a abordar a questão da santidade com alguma frequência, insistindo que esta pode ser alcançada por qualquer cristão, não sendo exclusiva do clero. “Os ingredientes para a vida feliz chamam-se bem-aventuranças: são beatos os simples, os humildes que dão lugar a Deus, que sabem chorar pelos outros e pelos próprios erros, permanecem mansos, lutam pela justiça, são misericordiosos com todos, trabalham pela paz, não odeiam e, mesmo quando sofrem, respondem ao mal com o bem. Eis as bem-aventuranças. Não requerem gestos extraordinários, não são para super-homens, mas para quem vive as provações e as fadigas de todos os dias. Os santos são assim: respiram como todos o ar poluído que há no mundo, mas no caminho jamais perdem de vista o percurso de Jesus, indicado nas bem- -aventuranças, que são como o mapa da vida cristã.”, afirmou o Santo Padre nesta última Solenidade de Todos os Santos, durante o Ângelus rezado com os fiéis na Praça de S. Pedro. Um retrato que corresponde a Guido Schäffer, que incansavelmente tentou dissipar contendas, abraçar os mais frágeis e pobres, impedir opções por maus caminhos. “A paciência era uma marca registada do Guido. Ele marcava a sua posição sempre que pressentia alguma coisa errada, alguém que estava a enveredar por um caminho que não era o de Deus. E ele tinha firmeza para marcar essa posição, para chamar a atenção daquela pessoa, fazer uma correcção fraterna. Sempre com serenidade, mas autoridade também… Como tinha muito conhecimento da Palavra e agia sempre com base nela, as pessoas davam-lhe muito crédito. Paravam e escutavam-no, aceitavam de bom grado o conselho dele”, afirma Eduardo. A mãe, Nazareth, corrobora esta imagem e aponta a disciplina, a excelente comunicação e o desejo de ajudar os outros como os três grandes traços de personalidade do filho. A 1 de Maio de 2009, Guido morre, vítima de um acidente enquanto praticava surf. No dia seguinte é celebrada missa de corpo presente presidida pelo Arcebispo do Rio de Janeiro, concelebrada por dois bispos e PASSOS ATÉ À CANONIZAÇÃO Para ser considerado um santo perante os católicos, é preciso passar por três etapas: confirmação das “virtudes heróicas”, beatificação e canonização. As últimas duas exigem a comprovação de um milagre. 1. — Pedido de abertura do processo; — Nomeação de um postulador da causa, ou seja, de um responsável pelo processo; — Investigação da vida do candidato (provas de virtudes e fama de santidade); — Solicitação à Congregação para a Causa dos Santos (CCS) do “nada obsta” à Sé Apostólica; — A CCS concede o título de “Servo de Deus” ao candidato; — O Bispo local institui formalmente a causa da beatificação; — Instituição de um tribunal sobre a vida e virtudes do Servo de Deus, com nomeação de um juiz e delegado pelo bispo; — O tribunal oficializa as declarações das pessoas que enviaram os seus depoimentos sobre o Servo de Deus; — Encerramento do processo sobre a vida e a virtude do candidato. O Vaticano concede o título de “Venerável”. 2. — O postulador elege um provável milagre que aconteceu depois da morte do Servo de Deus; — Instituição do tribunal do milagre; — Investigação sobre o milagre atribuído ao Servo de Deus; — Envio das constatações a Roma e comprovação por conselho de especialistas; — Exumação dos restos mortais , trasladação para uma igreja que seja de fácil acesso a visitas e Beatificação. 3. — O postulador elege um provável milagre que aconteceu depois da beatificação; — Instituição do tribunal do milagre; — Investigação sobre o milagre atribuído ao Beato; — Envio das constatações a Roma e comprovação por conselho de especialistas;2 — Canonização. Fonte: Canção Nova / France Press mais de setenta sacerdotes. Mais de mil fiéis estiveram presentes na celebração: muitos deles pobres, sem-abrigo ou com grandes problemas, ajudados por Guido. No dia 1 de Janeiro de 2015 foi aberto oficialmente o seu Processo de Beatificação e Canonização. As suas boas obras não se esgotaram na morte, já que vários supostos milagres lhe têm vindo a ser atribuídos ao longo destes anos. “Pensar que o Guido poderá um dia ser proclamado santo é para nós uma grande graça e uma honra. Também é um consolo para os nossos corações saber que ele continua a ajudar tantas pessoas na caminhada para Deus”, conclui a mãe.