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quinta-feira, 7 de maio de 2009

Entrevista com Dra. Alice von Hildebrand sobre a Crise na Igreja


Dra. Alice von Hildebrand é esposa do falecido filósofo e teólogo católico Dietrich von Hildebrand (foto de ambos), que foi chamado por Pio XII de "doutor do século XX".

* * * *

A conversa a seguir com Dra. Alice Von Hildebrand abre nossa discussão para o foco desta edição: A Crise na Igreja – Cenários para uma Solução. Dra. Von Hildebrand, professora emérita de filosofia de Hunter College (City University of New York), acabara de completar The Soul of a Lion, uma biografia de seu marido, Dietrich.


TLM: Dra. von Hildebrand, no tempo em que o Papa João XXIII convocou o Concílio Vaticano Segundo, a senhora percebeu qualquer necessidade de reforma dentro da Igreja?

AVH:: A maior parte da intuição sobre isso vem do meu marido. Ele sempre disse que os membros da Igreja, devido aos efeitos do pecado original e do pecado atual, se encontram sempre com necessidade de reforma. O ensinamento da Igreja, porém, vem de Deus. Nenhum acento deve ser modificado ou necessita de reforma.


TLM: Em termos da crise atual, quando a senhora percebeu que algo estava terrivelmente errado?

AVH: Era fevereiro de 1965, e estava num ano sabático em Florença. Meu marido estava lendo um jornal teológico, e de repente, ouvi-o desatar em lágrimas. Corri até ele, temerosa de que seu coração houvesse lhe causado dores. Perguntei-lhe se estava bem. Ele me disse que o artigo que lia lhe fez intuir que o demônio havia penetrado na Igreja. Veja, meu marido foi o primeiro alemão proeminente a se pronunciar publicamente contra Hitler e o Nazismo. As suas intuições eram sempre prescientes.

TLM: Seu marido tinha falado sobre seu temor pela Igreja antes desse incidente?

AVH:: Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após sua conversão ao Catolicismo nos anos vinte, ele começou a ensinar na Universidade de Munique. Munique era uma cidade católica. Maioria dos Católicos da época ia às Missas, mas ele sempre disse que foi ali que ele começou a se preocupar com a perda do sentido de sobrenatural entre os Católicos. Um incidente em especial lhe ofereceu suficiente prova e isso o entristecia imensamente.

Quando passava por uma porta, meu marido sempre deixava passar primeiro seus alunos que eram sacerdotes. Um dia, um dos seus colegas (um Católico) expressou sua surpresa e desagrado: “Por que você deixa seus alunos entrar antes de você?” “Porque são sacerdotes”, respondeu meu marido. “Mas eles não possuem PhD”. Meu marido se sentiu arrasado. Valorizar PhD é uma reação natural; estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reação sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reação para o sobrenatural havia erodido. Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até Concílio, a beleza e a sacralidade da liturgia Tridentina mascarava esse fenômeno.

TLM: Seu marido achava que o declínio do sentido do sobrenatural havia comecado nessa época, e no caso afirmativo, como ele o explicava?

AVH: Não, ele acreditava que após a condenação da heresia do Modernismo pelo Papa Pio X, seus proponentes simplesmente havia se retirado para subsolo. Ele diria que então eles tomaram uma abordagem muito mais sutil e prática. Espalhavam dúvidas simplesmente levantando questões sobre as grandes intervenções sobrenaturais através da história da salvação, tais como Nascimento Virginal e virgindade perpétua de Nossa Senhora, bem como a Ressurreição e a Sagrada Eucaristia. Eles sabiam que uma vez abalada a fé – a fundação – a liturgia e os ensinamentos morais da Igreja também desmoronariam. Meu marido intitulou um dos seus livros The Devastated Vineyard (A Vinha Devastada). Após Vaticano II parece que um tornado havia atingido a Igreja.

O próprio Modernismo era fruto de calamidade do Renascimento e da Revolta Protestante, e levou um longo processo histórico para se revelar. Se fôssemos perguntar a um Católico típico da Idade Média o nome de um herói ou heroína, ele certamente citaria um santo. O Renascimento começou a mudar isso. Ao invés de um santo, as pessoas pensariam num gênio como pessoas a imitar, e com a chegada da era industrial, as pessoas citariam um grande cientista. Hoje elas responderiam com o nome de um esportista ou personagens da mídia. Em outras palavras, a perda do sentido do sobrenatural trouxe a inversão da hierarquia de valores.

Mesmo o pagão Platão estava aberto para o sentido do sobrenatural. Ele falou da fraqueza, fragilidade e covardia freqüentemente evidenciadas na natureza humana. Ele foi indagado por um crítico do porquê de tal baixa estima sobre a humanidade. Ele respondeu que não denegria o homem, apenas comparava-o a Deus.

Com a perda do sentido de sobrenatural, há uma perda do sentido da necessidade para o sacrifício, hoje. Quanto mais alguém se aproxima de Deus, maior é a sua consciência de ser pecador. Quando mais alguém se afasta de Deus, como hoje, mais escutamos a filosofia da nova era “Estou bem, Você está bem”. A perda da inclinação para o sacrifício leva ao obscurecimento da missão redentora da Igreja. Onde a Cruz é subestimada a nossa necessidade de redenção é igualmente ignorada. A aversão ao sacrifício e redenção ajudou a secularização da Igreja do seu interior. Temos ouvido durante muitos anos dos sacerdotes e bispos sobre a necessidade da Igreja se adaptar ao mundo. Grandes Papas como S. Pio X disseram exatamente o oposto: o mundo deve se adaptar à Igreja.

TLM: Da nossa conversa, devo concluir que a senhora não acredita que a perda acelerada do sentido do sobrenatural seja um acidente no percurso da história.


AVH: Não, não acredito. Houve dois livros publicados na Itália nestes anos que confirmam o que meu marido suspeitava há algum tempo: que tem havido uma infiltração sistemática da Igreja pelos inimigos diabólicos por todo este século. Meu marido foi um homem muito esperançoso e otimista por natureza. Durante os dez últimos anos de sua vida, porém, testemunhei muitos momentos de grande tristeza, e freqüentemente o ouvi repetir: “Eles dessacralizaram a Santa Esposa de Cristo”. Ele estava se referindo à “abominação da desolação” da qual fala o profeta Daniel.

TLM: Esta é uma admissão crítica, Dra. von Hildebrand. Seu marido foi chamado Doutor da Igreja do Século XX pelo Papa Pio XII. Ele não teria acesso ao Vaticano para falar dos seus temores para o Papa Paulo VI?

AVH:: Mas foi exatamente o que ele fez! Nunca esquecerei a audiência privada que tivemos com Paulo VI logo antes do fim do Vaticano II. Foi em 21 de junho de 1965. Assim que meu marido começou a apelar para que ele condenasse as heresias que estavam se espalhando, o Papa o interrompeu com as palavras, “Lo scriva, lo scriva.” (“Escreva-o.”). Momentos depois, pela segunda vez, meu marido expôs a gravidade da situação ao Papa. A mesma resposta. Sua Santidade nos recebeu em pé. Estava claro que o Papa se sentia muito inconfortável. A audiência durou apenas alguns minutos. Paulo VI deu imediatamente um sinal ao seu secretário, Pe. Capovilla, para nos trazer rosários e medalhas. Nós então retornamos à Florença onde meu marido escreveu um longo documento (não publicado até hoje) que foi entregue a Paulo VI na véspera da última sessão do Concílio. Era setembro de 1965. Após ler o documento de meu marido, ele disse ao sobrinho do meu marido, Dieter Sattler, que havia se tornado embaixador alemão da Santa Sé, que havia lido o documento cuidadosamente, mas que “era um pouco áspero”. A razão era óbvia: o meu marido havia humildemente solicitado uma clara condenação de afirmações heréticas.

TLM: A senhora percebe, certamente, Doutora, que tão logo a senhora menciona essa idéia da infiltração, haverá aqueles que levantam seus olhos em desdém e bradam, “ei, outra teoria de conspiração!?”

AVH: Eu só posso dizer o que sei. É uma questão de registro público, por exemplo, que Bella Dodd, uma ex-Comunista que se re-converteu à Igreja, falou abertamente da deliberada infiltração dos agentes do partido Comunista nos seminários. Ela contou ao meu marido e a mim que quando era membro ativo do partido, se encontrou com não menos que quatro cardeais dentro do Vaticano, “que trabalhavam para nós”.

Muitas vezes ouvi os norte-americanos dizerem que os europeus “cheiram conspiração onde quer que vão”. Mas desde o início, o Demônio tem conspirado contra a Igreja – e sempre procurou em particular destruir a Missa e destruir a fé na Real Presença de Cristo na Eucaristia. Que algumas pessoas estejam tentadas a ignorar esse fato inegável não é razão para negar sua realidade. Por outro lado, eu, nascida européia, estou tentada a afirmar que muitos americanos são ingênuos; vivendo num país que tem sido abençoado pela paz, e conhecendo pouco a história, são mais propensos que os europeus (cuja história é tumultuada) a cair vítimas de ilusões. Rousseau tem tido enorme influência nos Estados Unidos . Quando Cristo disse aos Seus apóstolos na Última Ceia que “um de vós Me trairá”, os apóstolos ficaram perplexos. Judas havia agido de tal modo que ninguém suspeitava dele, pois um conspirador astuto sabe como cobrir seus traços com uma demonstração de ortodoxia.

TLM: Os dois livros escritos pelos sacerdotes italianos que a senhora mencionou contêm evidências dessa infiltração?

AVH: Os dois livros que mencionei foram publicados em 1998 e 2000 pelo sacerdote italiano, Don Luigi Villa da diocese de Brescia, que sob a solicitação do Padre Pio dedicou muitos anos de sua vida na investigação da possível infiltração dos Franco-maçons e Comunistas na Igreja. Meu marido e eu encontramos Don Villa nos anos sessenta. Ele alega que não faz nenhuma afirmação que não possa comprovar. Quando Paulo Sesto Beato? (1998) foi publicado, o livro foi enviado a cada bispo italiano. Nenhum deles reconheceu o recebimento, nenhum deles desafiou as alegações de Don Villa.

Neste livro, ele relata algo que nenhuma autoridade eclesiástica refutou nem pediu para ser retratado – embora ele nomeie personalidades particulares acerca do incidente.. Trata de atrito entre Papa Pio XII e o então Bispo Montini (o futuro Paulo VI) que era seu Sub-secretário do Estado. Pio XII, ciente da ameaça do Comunismo, que logo após a Segunda Guerra Mundial dominava quase a metade da Europa, havia proibido os funcionários do Vaticano a manter qualquer relação com Moscou. Para sua decepção ele foi informado um dia através do Bispo de Upsala (Suécia) de que sua ordem estrita havia sido contrariada. O Papa se negou a dar crédito a esse rumor até receber evidência inegável de que Montini mantinha correspondência com várias agências Soviéticas. Durante todo esse tempo, o Papa Pio XII (assim como Pio XI) havia enviado sacerdotes clandestinamente à Rússia para consolar os Católicos que viviam atrás da Cortina de Ferro. Cada um deles havia sido sistematicamente preso, torturado e mesmo executado ou enviado ao Gulag. Finalmente um delator de Vaticano foi descoberto: Alighiero Tondi, S.J., que era um conselheiro próximo de Montini. Tondi era um agente trabalhando para Stalin cuja missão era manter Moscou informado sobre as iniciativas tais como o envio de sacerdotes para a União Soviética.

Acrescente-se a isso o tratamento do Papa Paulo ao Cardeal Mindszenty. Contra sua vontade, Mindszenty foi ordenado pelo Vaticano a deixar Budapeste. Como quase todos sabem, ele havia escapado dos Comunistas e buscou refúgio na embaixada norte-americana. O Papa havia lhe dado sua promessa solene de que ele permaneceria primado de Hungria enquanto vivesse. Quando o Cardeal (que foi torturado pelos Comunistas) chegou em Roma, Paulo VI abraçou-o calorosamente, mas depois o enviou em exílio para Viena. Logo depois, seu santo prelado foi informado que havia sido destituído e que havia sido substituído por alguém mais aceitável pelo governo Húngaro Comunista. Mais intrigante e tragicamente triste é o fato de que quando morreu Mindszenty, nenhum representante da Igreja esteve presente no seu enterro.

Outra das alusões de infiltração de Don Villa é aquela relatada pelo Cardeal Gagnon. Paulo VI havia solicitado ao Gagnon para encabeçar uma investigação acerca da infiltração da Igreja pelos inimigos poderosos. Cardeal Gagnon (na época um Arcebispo) aceitou essa tarefa desagradável e compeliu um longo dossiê, rico em fatos preocupantes. Quando o trabalho foi completado, ele solicitou uma audiência com o Papa Paulo a fim de deliberar pessoalmente o manuscrito para o Pontífice. Essa solicitação para um encontro foi negada. O papa enviou ordem para que o documento fosse colocado nos escritórios da Congregação para os Clérigos, especificamente num cofre com dupla fechadura. Isso foi feito, mas no dia seguinte a caixa foi arrombada e o manuscrito desapareceu misteriosamente. A política usual do Vaticano é se assegurar que tais incidentes nunca vejam a luz do dia. Entrementes, esse roubo foi noticiado até no L’Osservatore Romano (talvez sob pressão porque isso não foi noticiado na imprensa secular). Cardeal Gagnon, logicamente, possuíam uma cópia, e novamente solicitou ao papa uma audiência privada. Novamente sua solicitação foi negada. Ele então decidiu deixar Roma e retornar a sua terra natal, Canadá. Mais tarde, foi chamado de volta a Roma pelo Papa João Paulo II e feito cardeal.

TLM: Por que Don Villa escreveu essas obras tendo como alvo de suas críticas Paulo VI?

AVH: Don Villa se manteve relutante para publicar os livros aos quais aludi. Mas quando vários bispos começaram a se movimentar para a beatificação de Paulo VI, esse sacerdote percebeu que era um momento de chamada para publicar as informações que havia coletado através dos anos. Assim fazendo, estava seguindo as orientações de uma Congregação Romana, informando aos fiéis que era seu dever como membros da Igreja confiar à Congregação qualquer informação que possa obstruir as qualificações do candidato para a beatificação.

Considerando o pontificado tumultuoso de Paulo VI, e os sinais confusos que fornecia, por exemplo, falando da “fumaça de Satanás que penetrou na Igreja”, e, entretanto, se recusando a condenar oficialmente as heresias; a sua promulgação de Humanae Vitae (a glória do seu pontificado), porém, sua cuidadosa recusa em proclamá-la ex-cathedra; oferecendo seu Credo do Povo de Deus em Praça S. Pedro em 1968, e novamente fracassando em declará-lo como unificador de todos os Católicos; desobedecendo as ordens estritas de Pio XII em não manter contato com Moscou, e agradando o governo Comunista Húngaro ao renegar a promessa solene que havia feito ao Cardeal Mindszenty; seu tratamento com relação ao santo Cardeal Slipyj, que passou dezessete anos num Gulag, simplesmente para se tornar um prisioneiro virtual no Vaticano; e finalmente, solicitando ao Arcebispo Gagnon para investigar possível infiltração no Vaticano, apenas para recusá-lo para uma audiência quando o trabalho estava completo – tudo isso fala fortemente contra a beatificação de Paulo VI, ecoando em Roma, “Paolo Sesto, Mesto” (Paul VI, o triste).

Que o dever de publicar essa informação deprimente foi oneroso e custou grande sofrimento ao Don Vila é inegável. Qualquer Católico rejubila quando ele pode levantar os olhos e contemplar com veneração irrestrita um Papa. Mas os Católicos sabem também que embora Cristo não tenha prometido conceder líderes perfeitos, prometeu que os portões do inferno nunca prevaleceriam. Não esqueçamos que muito embora a Igreja tivesse alguns papas muito ruins, e outros, medíocres, ela tem sido abençoada com muitos grandes Papas. Oitenta deles foram canonizados e vários, beatificados. Esta é uma história de sucesso sem paralelo no mundo secular.

Somente Deus é juiz de Paulo VI. Mas não se deve negar que seu pontificado foi muito complexo e trágico. Foi sob seu pontificado que, num curso de quinze anos, mais mudanças foram introduzidas na Igreja que em todos os séculos precedentes juntos. O que é preocupante é que quando lemos o testemunho de ex-Comunistas como Bella Dodd, e estudamos documentos maçônicos (datados do século dezenove, e geralmente escritos por sacerdotes dissidentes como Paul Rocca), podemos ver que, em larga extensão, suas agendas foram realizadas: o êxodo de sacerdotes e freiras após o Vaticano II, teólogos dissidentes não censurados, o feminismo, a pressão sobre a Roma para abolir o celibato sacerdotal, imoralidade entre os clérigos, liturgias blasfemas, as mudanças radicais que foram introduzidas na sagrada liturgia (vide Milestones do Cardeal Ratzinger, pp. 126 e 148, Ignatius Press) e um ecumenismo sem rumo. Apenas um cego poderia negar que muitos dos planos do Inimigo têm sido perfeitamente realizados.

Não devemos nos esquecer que o mundo foi abalado com o que fez Hitler. Pessoas como meu marido, porém, perceberam o que estava de fato escrito em Mein Kampf. O plano estava ali. O mundo simplesmente optou por não acreditar. Porém, quão grave esteja a situação, nenhum Católico engajado deve esquecer que Cristo prometeu que Ele estará com Sua Igreja até o fim do mundo. Devemos meditar sobre a cena relatada no Evangelho quando o barco dos apóstolos foi ameaçado por uma forte tempestade. Cristo estava dormindo! Seus seguidores assustados O acordaram: Ele disse uma única palavra e, de repente, tudo se acalmou. “Ó vós, que tendes pouca fé!”

TLM: Segundo suas observações sobre ecumenismo, a senhora não concorda com a política atual de “convergência” ao invés de “conversão”?

AVH: Deixe-me relatar um incidente que causou grande pesar ao meu marido. Era 1946, logo depois da guerra. Meu marido lecionava em Fordham, e ali apareceu numa de suas aulas um estudante Judeu que havia sido um oficial da Marinha durante a guerra. Ele eventualmente contaria ao meu marido sobre um pôr-do-sol extraordinário no pacífico e como isso fê-lo se aproximar da verdade sobre Deus. Primeiro ingressou na Columbia para estudar filosofia, e ele descobriu que isso não era o que procurava. Um amigo lhe sugeriu tentar a filosofia na Fordham e mencionou o nome de Dietrich Von Hildebrand. Depois de apenas uma aula com meu marido, descobriu o que buscava. Um dia, após a aula, meu marido e seu aluno foram dar uma caminhada. Ele disse ao meu marido na ocasião que estava surpreso com o fato de que vários professores, após descobrir que ele era Judeu, asseguraram-lhe que não tentariam convertê-lo ao Catolicismo. Meu marido, estupefato, parou, voltou-se para ele e disse, “Eles disseram o quê?!” O aluno repetiu a história e meu marido lhe disse, “Iria até o fim do mundo para transformá-lo num Católico”. Para resumir a longa história, o jovem se tornou um Católico, foi ordenado sacerdote Católico e ingressou na única Casa dos Cartuchos nos Estados Unidos (em Vermont)!

TLM: A senhora passou muitos anos lecionando em Hunter College.

AVH: Sim, e vários dos meus alunos se tornaram Católicos. Oh, quantas e belas histórias de conversão poderia relatar se tivesse tempo – jovens que foram arrebatados pela verdade! Eu gostaria, entretanto, de deixar claro um ponto.. Não converti meus alunos. O máximo que podemos fazer é rezar para sermos instrumentos de Deus. Para sermos instrumentos de Deus, devemos nos esforçar para viver diariamente o Evangelho em todas as circunstâncias. Apenas a graça de Deus pode nos conceder o desejo e capacidade para tanto.

Eis um dos temores que tenho em relação aos Católicos tradicionais. Algum flerte com o fanatismo. Um fanático é aquele considera a verdade sua posse ao invés de dom de Deus. Somos servos da verdade, e é como servos que devemos procurar partilhá-la. Estou ciente de que há Católicos fanáticos que usam a Fé e a Verdade que proclamam como um instrumento intelectual. Uma autêntica apropriação da verdade sempre leva ao esforço para a santidade. A Fé, nesta crise atual, não é um jogo de xadrez intelectual. Para aqueles que não se esforçam para a santidade, a fé se reduzirá a isso. Tais pessoas fazem mais mal à Fé, particularmente se estes são defensores da Missa tradicional.

TLM: Então a senhora acha que o único cenário para uma solução da crise atual é a renovação de um esforço para a santidade?

AVH: Não devemos nos esquecer que estamos lutando não apenas contra carne e sangue, mas contra “poderes e principados”. Isso deveria nos provocar suficiente temor para esforçarmo-nos mais que nunca para a santidade, e orar fervorosamente que a Santa Esposa de Cristo, que se encontra agora no Calvário, saia dessa terrível crise mais radiante que nunca. A resposta Católica é sempre a mesma: absoluta fidelidade aos santos ensinamentos da Igreja, fidelidade à Santa Sé, freqüente recepção de sacramentos, Rosário, leitura espiritual diária, e gratidão por termos recebido a plenitude da revelação de Deus: “Gaudete, iterum dico vobis, Gaudete.”

TLM: Não posso terminar a entrevista sem fazer à senhora uma pergunta já um tanto desgastada. Há críticos da antiga Missa latina que indicam que a crise na Igreja se desenvolveu no tempo em que a Missa era oferecida no mundo inteiro. Por que deveríamos achar que o seu retorno é intrínseco para a solução da crise?

AVH: O demônio odeia a antiga Missa. Ele a odeia porque é a mais perfeita reformulação de todos os ensinamentos da Igreja. Foi meu marido que me deu essa intuição sobre a Missa. O problema que provocou o crise atual não foi a Missa Tradicional. O problema é que os sacerdotes que a ofereciam já haviam perdido o sentido do sobrenatural e transcendente. Eles se apressavam em fazer as orações, murmuravam e não as enunciavam. Eis um sinal que introduziram à Missa com o seu crescente secularismo. A antiga Missa não permitia espaço para irreverência, e é por isso que muitos sacerdotes se sentiram felizes em se desvencilhar dela.

TLM: Obrigado, Dra. Von Hildebrand por esta oportunidade de conversar com a senhora.

Fonte:O Atanasiano Ultrapapista

A preparação do Concílio Vaticano II segundo Romano Amerio na sua obra Iota Unum



CAPITULO III LA PREPARACION DEL CONCILIO
29. EL CONCILIO VATICANO II. SU PREPARACIÓN
Parece ser que Pío XI llegó a pensar en la posibilidad de retomar el Concilio Vaticano, interrumpido en 1870 por violentos acontecimientos; pero lo que es se-guro, según el testimonio del cardenal Domenico Tardini, es que Pío XII ponderó la oportunidad de tal reinicio o la de un nuevo Concilio y ordenó estudiar los pros y los contras a una comisión especial. Ésta decidió en sentido negativo.
Quizá se pensó que el acto doctrinal de la Humani generis era suficiente por sí mismo para enderezar cuanto de torcido se encontraba en la Iglesia. Quizá pare-ció que no se debía comprometer de ningún modo la naturaleza del gobierno papal, que podría quedar disminuido (o parecer que lo quedaba) por la autoridad del Con-cilio. Tal vez se presintió el aura democrática que habría investido a la asamblea y se intuyó su incompatibilidad con el principio católico.


O puede que el Papa siguiera su inclinación hacia una responsabilidad total, que exige una totalidad indivisible de poder (a causa de cuya concentración, a su muerte estaban vacantes en la Curia puestos importantísimos). No se concedía en-tonces tanto peso al beneficio que actualmente se suele reconocer en el recíproco conocimiento y comunicación entre los obispos del mundo (lo cual es un indicio de propensión democrática), pues no se creía que fuese suficiente juntar a los hombres para que se conozcan y conozcan la cosa sobre la cual deliberan. La propuesta de un Concilio fue aparcada. Existe una antigua desconfianza hacia el hecho de si-tuar frente a frente al Concilio y a la Sede de Pedro. La formuló con imaginación el card. Pallavicino, historiador del Concilio de Trento: «En el cielo místico de la Iglesia no se puede imaginar reunión más difícil de componer, ni compuesto de más peligro-sa influencia, que un Concilio general» .


El anuncio de la convocatoria de un Concilio, debido como dijo el mismo Juan XXIII a una repentina inspiración, cogió al mundo totalmente por sorpresa. Por el contrario, el Vaticano I había estado precedido desde 1864 por una encuesta entre los cardenales, quienes se habían pronunciado mayoritariamente a favor de su convocatoria. Unos pocos se opusieron a ella, bien para no poner de manifiesto las divergencias y por consiguiente acrecentarlas, bien por estar ya los errores ana-tematizados, bien por no poderse cambiar las condiciones de la Iglesia faltando el auxilio de los Estados .


No hubo respecto al Vaticano II consultas previas acerca de la necesidad u oportunidad de convocarlo, llegando la decisión de Juan XXIII por un ejercicio de carisma ordinario, o tal vez por un soplo de carisma extraordinario . Así pues, el 15 de julio de 1959 el Papa constituyó la Comisión central preparatoria, compues-ta por una amplia mayoría de cardenales y un número de patriarcas, arzobispos y obispos elegidos con un criterio indefinido, donde no quedaba claro si prevalecía la doctrina, la prudencia de gobierno o la relación de confianza con el Pontífi-ce.
Esta Comisión central difundió al episcopado de todo el orbe un cuestiona-rio acerca de los temas a tratar, lo recogió y clasificó las opiniones, instituyó a su vez comisiones menores, y elaboró los esquemas que debían ser propuestos a la asamblea ecuménica.


Las respuestas de los obispos revelan ya algunas de las tendencias que pre-valecerían en el Concilio, y con frecuencia traslucen incapacidad para estar a la altura de las circunstancias y divagan hacia materias impertinentes o fútiles. Tampoco en el Vaticano I faltaron propuestas extravagantes.
Había algunas sugerencias en favor de Rosmini o de Santo Tomás, y ahí la materia es ciertamente de gran importancia; pero junto a éstas, otras descendían al problema de las asistentas católicas en familias no católicas, de la bendición de cementerios, o de otras cuestiones de disciplina menor, sin duda no proporciona-das a la magnitud de un Concilio ecuménico.


El Vaticano II tuvo en su conjunto una preparación que suponía una general homogeneidad de inspiración, que parecía correspondiente a la intención del Pa-pa . En esta fase preparatoria la parte opositora desarrolló su actividad con menor fuerza dentro que fuera, reservándose para llevar a cabo su actuación principal en la fase plenaria de la asamblea.

30. PARADÓJICA RESOLUCIÓN DEL CONCILIO
El Vaticano II tuvo una resolución distinta de la que hacía prever el Concilio preparado; más bien, como veremos, dicha preparación se dejó de lado rápida y completamente . El Concilio nació, por así decirlo, de sí mismo, independiente de su preparación. En ciertos aspectos, con el Vaticano II habría ocurrido como con el de Trento, el cual, como dice Sarpi en el preámbulo de su Historia, «ha tenido lugar de una forma y con una conclusión totalmente contrarias a las expectativas de quien lo ha procurado y al temor de quien estudiadamente lo ha combatido»: contrario al proyecto de quien impulsaba una reforma católica que redujese el poder de la Cor-te Romana, y contrario al temor de esta Corte misma , la cual en opinión del ser-vita dificultó de todas las maneras posibles su resolución.


Y de aquí extraía Sarpi, y resulta posible extraer, una conclusión de teodi-cea y una parénesis religiosa: la resolución paradójica de la asamblea tridentina es un «claro documento para meditar los pensamientos de Dios y no fiarse de la pru-dencia humana».
Al igual que en el Tridentino (según Sarpi), en el Vaticano II los aconteci-mientos discreparon respecto a su preparación y, como se dice hoy, a sus perspec-tivas. No es que no fuesen reconocibles ya en la fase preparatoria rasgos de pen-samiento modernizante . Sin embargo no caracterizaron al conjunto de los es-quemas preliminares tan profunda y distintamente como después se reflejó en los documentos finales promulgados. Por ejemplo, la flexibilidad de la liturgia para es-tudiar su acomodación a las diversas índoles nacionales estaba propuesta en el texto correspondiente, pero restringida a territorios de misión, y no se hacía men-ción de la exigencia subjetiva de la creatividad del celebrante.


La práctica de la ab-solución comunitaria, acrecentada en detrimento de la confesión individual con intención de facilitar el cumplimiento de la moral, se proponía en el esquema de sacramentis. Incluso la ordenación sacerdotal de hombres casados (aunque no la de mujeres) encontraba lugar en el de ordine sacro. El de libertate religiosa (del card. Bea), uno de los más tormentosos y conflictivos de la asamblea ecuménica, avanzaba en sustancia la novedad finalmente adoptada, desviando del camino co-mún (o eso parece) la doctrina canonizada y perpetuamente profesada por la Iglesia Católica.


El principio de la funcionalidad propio del pragmatismo y activismo moder-nos, que reconocen el valor de la productividad de las cosas o del trabajo y desco-nocen el de las operaciones intransitivas o inmanentes de la persona rebajándolas respecto a las transitivas y eficientes ad extra, ( §§ 216-217), estaba también for-mulado expresamente en el esquema de disciplina cleri, que contemplaba la inhabi-litación o remoción de obispos y de presbíteros llegada una determinada edad.

Es conocido que el fruto maduro de esta inclinación al activismo es el Motu propio Ingravescentem aetatem, que afectó con la deminutio capitis a los cardenales octogenarios. Un votum particular acerca del hábito talar proporcionó la excusa para la costumbre de vestir al modo laico, disimulando la diferencia específica en-tre el sacerdote y el seglar y aboliendo incluso la prescripción que obligaba al uso de la sotana durante las funciones ministeriales. En los trabajos preparatorios se encuentran también opiniones particulares de determinadas escuelas teológicas en un sentido de mayor apertura.


Verbi gratia, se pretendía hacer pasar como doctrina del Concilio una posi-ción discutible sobre el limbo de los niños e incluso de los adultos. Esta materia, al ser demasiado próxima al espinoso dogma de la predestinación, que no mencionan los decretos conciliares , fue completamente omitida, pero como mostraremos más adelante el espíritu laxista y pelagiano que suponía revistió el pensamiento teológi-co postconciliar.


Con mayor intensidad se percibió en la asamblea plenaria el influjo, bien manifiesto en su preparación, de quienes querían realizar innovaciones en la edu-cación del clero (esquema de sacrorum alumnis formandis). La pedagogía secular de la Iglesia, concretada en el sistema de los seminarios, implica que los sacerdotes deben formarse según un principio peculiar correlativo a la peculiaridad ontológica y moral de su estado consagrado.

Por el contrario, en el texto se solicitaba una formación del clero asimilada lo más posible a la formación de los laicos: por tanto la ratio studiorum de los semina-rios debía tomar ejemplo de la de los Estados, y la cultura del clero omitir en gene-ral toda originalidad respecto a la de los seglares. El motivo de esta innovación re-sultó ser lo que fuera tema diversamente reiterado por el Concilio: que los hom-bres de Iglesia se conformen al mundo para ejercitar sobre el mundo su ope-ración específica de instrucción y santificación.


También en torno a la reunificación de los cristianos no católicos se hizo oír la voz de quien comparaba a los protestantes (sin sacerdocio, sin jerarquía, sin suce-sión apostólica y sin sacramentos, o casi sin ellos) con los ortodoxos, que tienen sin embargo casi todo en común con los católicos salvo las doctrinas del primado y de la infalibilidad. Pío IX había hecho una clarísima distinción: desplazó enviados apostólicos con cartas de invitación a los patriarcas orientales, quienes decla-raron en su totalidad no poderse acercar al Concilio; pero no reconoció como Iglesias a las diversas confesiones protestantes, consideradas simples asocia-ciones, y dirigió una llamada ad omnes protestantes no para que intervinie-sen en el Concilio, sino para que retornasen a la unidad de la que se habían apartado.


El comportamiento latitudinario que afloró en la preparación se apoya sobre una implícita paridad parcial entre católicos y no católicos, y aunque pareció mi-noritario en la fase preparatoria, consiguió después que fuesen invitados indistin-tamente como observadores tanto los protestantes como los ortodoxos, lo que ex-plica la influencia de aquéllos en el decreto de oecumenismo (§§ 245-247).
Una última característica asemeja la preparación del Concilio y su resulta-do: el generalizado optimismo que coloreó los diagnósticos y los pronósticos de una minoría en la Comisión central preparatoria. Que el aumento del conocimiento científico de la naturaleza (es decir, del reino de la técnica con el que se identifica la civilización moderna) de origen igualmente al reino de la dignidad y de la felici-dad humana, fue manifestado en el esquema de Ecclesia (cap. 5, de laicis) pero im-pugnado por la mayoría, que insistía sobre el carácter indiferente de los progresos técnicos: éstos extienden la posible aplicación de la moralidad, pero no
la perfec-cionan intensivamente.


Sin embargo, este tema de la dominación de la tierra por medio de la técnica resultará sacralizado (§ 218) en los documentos definitivos y revestirá todo el pensamiento teológico postconciliar. La elevación de la técnica a fuerza civi-lizadora y moralmente perfeccionadora del hombre compartía la idea del progreso del mundo y, conjuntamente, un gran soplo de optimismo.
El optimismo presidiría después toda prospectiva de la asamblea plenaria, oscureciendo la visión del estado real del catolicismo.

Es oportuno referir literalmente las críticas que un Padre de la Comisión central preparatoria oponía a la demasiada florida descripción de la situación del mundo y de la situación de la Iglesia en el mundo. «Non placet hic cum tanto laeta-mine descriptus status Ecclesiae magis in spem, meo iudicio, quam ad veritatem. Cur enim auctum religiones fervorem ais, aut respectu cuius aetatis? Nonne in oculis ha-benda est ratio statistica, quam dicunt, unde apparet cultum Dei, fidem catholicam, publicos mores apud plerosque collabescere et paene dirui? Nonne status mentium generatim alienus est a catholica religiones, discissis republica ab Ecclesia, philosophia a dogmatis fidei, investigatione mundi a reverentia Creatoris, inventione artis ab obsequio ordinis moralis? Nonne inopia operariorum in sacro ministerio labo-rat Ecclesia? Nonne multae partes Sanctae Ecclesiae vel immanissime conculcantur a Gigantibus et Minotauris, que superbiunt in mundo, vel schismate labefactatae sunt, utpote apud Chinenses? Nonne missiones nostras ad infideles, tanto zelo ac caritate plantatas ac rigatas, vastavit inimicus homo? Nonne atheismus non amplius per singulos sed per totas nationes (quod prorsus inauditum erat) celebratur et per reipublicae leges instauratur? Nonne numerus noster quotidie proportionaliter immi-nuitur, Mahumetismo ac Gentilismo immodice gliscentibus? Nos enim quinta pars sumus generis humani, que quarta fuimus paulo ante. Nonne mores nostri per divortium, per abortum, per euthanastam, per sodomiam, per Mammona gentilizant?>> .


Y concluye afirmando que este diagnóstico procede humano more y en línea de consideración histórica, sin perjuicio de lo que la Providencia de Dios sobre la Iglesia pueda operar «más allá de la medida de los juicios humanos» y fuera de la potencia ordenada.

31. MÁS SOBRE EL RESULTADO PARADÓJICO DEL CONCILIO. EL SÍNODO ROMANO
El resultado paradójico del Concilio respecto a su preparación se manifiesta en la comparación entre los documentos finales y los propedéuticos, y también en tres hechos principales: el fracaso de las previsiones hechas por el Papa y por quienes prepararon el Concilio; la inutilidad efectiva del Sínodo Romano I sugerido por Juan XXIII como anticipación del Concilio; y la anulación, casi inmediata, de la Veterum Sapientia, que prefiguraba la fisonomía cultural de la Iglesia del Concilio.
El Papa Juan, que había ideado el Concilio como un gran acto de renovación y de adecuación funcional de la Iglesia, creía también haberlo preparado como tal, y aspiraba a poderlo concluir en pocos meses : quizá como el Laterano 1 con Ca-lixto II en 1123, cuando trescientos obispos lo concluyeron en diecinueve días, o como el Laterano II con Inocencio II en 1139, con mil obispos que lo concluyeron en diecisiete días.


Sin embargo, se abrió el 11 de octubre de 1962 y se clausuró el 8 de diciem-bre de 1965, durando por tanto tres años de modo discontinuo. El fracaso de las previsiones tuvo su origen en haberse abortado el Concilio que había sido prepara-do, y en la elaboración posterior de un Concilio distinto del primero, que se generó a sí mismo (como decían los Griegos, [autogenético]).

El Sínodo Romano I fue concebido y convocado por Juan XXIII como un acto solemne previo a la gran asamblea, de la cual debía ser prefiguración y realización anticipada.

Así lo declaró textualmente el Pontífice mismo en la alocución al clero y a los fieles de Roma del 29 de junio de 1960. A todos se les revelaba su importancia, que iba por tanto más allá de la diócesis de Roma y se extendía a todo el orbe católico. Su importancia era parangonable a la que con referencia al gran encuentro triden-tino habían tenido los sínodos provinciales celebrados por San Carlos Borromeo.


Se renovaba el antiguo principio que quiere modelar todo el orbe católico sobre el patrón de la particular Iglesia romana. Que en la mente del Papa el Sínodo romano estaba destinado a tener un grandioso efecto ejemplar se desprende del hecho de que ordenase enseguida la traducción de los textos al italiano y a todas las lenguas principales. Los textos del Sínodo Romano promulgados el 25, 26 y 27 de enero de 1960 suponen un completo retorno a la esencia de la Iglesia; no a la sobrenatural (ésta no se puede perder) sino a la histórica: un repliegue, por decirlo con Maquiavelo, de las instituciones sobre sus principios.


El Sínodo proponía en todos los órdenes de la vida eclesiástica una vigorosa restauración. La disciplina del clero se establecía sobre el modelo tradicional, ma-durado en el Concilio de Trento y fundado sobre dos principios, siempre profesados y siempre practicados. El primero es el de la peculiaridad de la persona consagrada y habilitada sobrenaturalmente para ejercitar las operaciones de Cristo, y por con-siguiente separada de los laicos sin confusión alguna (sacro significa separado). El segundo principio, consecuencia del primero, es el de la educación ascética y la vida sacrificada, que caracteriza al clero como estamento (pues también en el lai-cado los individuos pueden llevar una vida ascética).


De este modo el Sínodo prescribía a los clérigos todo un estilo de conducta netamente diferenciado de las maneras seglares. Tal estilo exige el hábito eclesiás-tico, la sobriedad en los alimentos, la abstinencia de espectáculos públicos, y la huida de las cosas profanas. Se reafirmaba igualmente la originalidad de la forma-ción cultural del clero, y se diseñaba el sistema sancionado solemnemente por el Papa al año siguiente en la encíclica Veterum sapientia. El Papa ordenó también que se reeditase el Catecismo del Concilio de Trento, pero la orden no fue obedeci-da. Sólo en 1981, y por iniciativa privada, se publicó en Italia su traducción (OR, 5-6 julio 1982).


No menos significativa es la legislación litúrgica del Sínodo: se confirma so-lemnemente el uso del latín; se condena toda creatividad del celebrante, que reba-jaría el acto litúrgico, que es acto de Iglesia, a simple ejercicio de piedad privada; se urge la necesidad de bautizar a los niños quam primum; se prescribe el tabernáculo en la forma y lugar tradicionales; se ordena el canto gregoriano; se someten a la autorización del Ordinario los cantos populares de nueva invención; se aleja de las iglesias toda profanidad, prohibiendo en general que dentro del edificio sagrado tengan lugar espectáculos y conciertos, se vendan estampas e imágenes, se permi-tan las fotografías, o se enciendan promiscuamente luces (lo que deberá encargarse al sacerdote). El antiguo rigor de lo sagrado es restablecido también alrededor de los espacios sagrados, prohibiendo a las mujeres el acceso al presbiterio. Final-mente, los altares cara al pueblo se admiten sólo como una excepción cuya conce-sión compete exclusivamente al obispo diocesano.
Es imposible no ver que tan firme reintegración de la antigua disciplina de-seada por el Sínodo ha sido contradicha y desmentida por el Concilio prácticamen-te en todos sus artículos. De hecho, el Sínodo Romano, que debería haber sido pre-figuración y norma del Concilio, se precipitó en pocos años en el Erebo del olvido y es en verdad tanquam non fuerit . Para dar una idea de tal anulación, señalaré que no he podido encontrar los textos del Sínodo Romano ni en Curias ni en archi-vos diocesanos, teniendo que conseguirlos en bibliotecas públicas civiles.


32. MÁS SOBRE LA RESOLUCIÓN PARADÓJICA DEL CONCILIO. LA «VETERUM SAPIENTIA»
El uso de la lengua latina es connatural a la Iglesia católica (no metafísica-mente, sino históricamente) y está estrechamente ligado a las cosas de Iglesia in-cluso en la mentalidad popular. Constituye además un medio y un signo primor-dial de la continuidad histórica de la Iglesia. Y puesto que no hay nada interno sin lo externo, y lo interno surge, fluctúa, se eleva y se rebaja conjuntamente con lo externo, siempre ha estado persuadida la Iglesia de que la forma externa del latín debe conservarse perpetuamente para conservar las características internas de la Iglesia. Y tanto más cuanto que se trata de un fenómeno del lenguaje, en el cual la conjunción de forma y sustancia (de lo externo y lo interno) es del todo indisoluble. De hecho, la ruina de la latinidad consecuente al Vaticano II fue acompañada por muchos síntomas de la auto demolición de la Iglesia lamentada por Pablo VI.


Del valor de la latinidad hablaremos en §§ 278-279. Aquí queremos sola-mente mencionar la desviación que estamos estudiando entre la inspiración prepa-ratoria dada al Concilio y el resultado efectivo de éste.
Juan XXIII pretendía con la Veterum Sapientia operar un repliegue de la Iglesia sobre sus principios, siendo en su mente este repliegue una condición para la renovación de la Iglesia en la peculiaridad propia del presente articulus tempo-rum.
El Papa atribuyó al documento una importancia espacialísima, y las solem-nidades de que quiso revestir su promulgación (en San Pedro, en presencia del co-legio cardenalicio y de todo el clero romano) no tienen igual en la historia de este siglo. La importancia eminente de la Veterum sapientia no se ve negada por el olvi-do en que se la hizo caer inmediatamente (los valores no son tales porque sean aceptados) ni por su fracaso histórico. Su importancia deriva de su perfecta conso-nancia con la individualidad histórica de la Iglesia.


La encíclica es fundamentalmente una afirmación de continuidad Si la cul-tura de la Iglesia procede del mundo helénico y romano es sobre todo porque las letras cristianas son, desde los primeros tiempos, letras griegas y letras latinas. Los incunables de las Sagradas Escrituras son griegos, los símbolos de fe más an-tiguos son griegos y latinos, la Iglesia de Roma de la mitad del siglo III es toda ella latina, los Concilios de los primeros siglos no tienen otro idioma que el griego.
Se trata de una continuidad interna de la Iglesia en la que se concatenan todas sus épocas. Pero hay además una continuidad externa que atraviesa la ente-ra cronología de la era cristiana y recoge toda la sabiduría de los gentiles. No va-mos a hablar, naturalmente, del sanctus Sócrates a quien imprecaba Erasmo, pero no podremos preterir la doctrina (expuesta por los Padres griegos y latinos y recor-dada por el Pontífice con un texto de Tertuliano) según la cual hay una continui-dad entre el mundo de pensamiento del cual vivió la sabiduría antigua (precisa-mente veterum sapientia) y el mundo de pensamiento elaborado después de la re-velación del Verbo encarnado.


El pensamiento cristiano elaboró el contenido sobrenaturalmente revelado, pero se adhirió también al contenido revelado naturalmente mediante la luz de la racionalidad creada.
De este modo, el mundo clásico no es extraño a la religión. Ésta tiene como esencia una esfera de verdad inalcanzable mediante las luces naturales y super-puestas a ellas, pero incluye también la esfera de toda verdad humanamente al-canzable.
La cultura cristiana fue por tanto preparada y esperada obediencialmente (como decían los medievales) por la sabiduría antigua, porque ninguna verdad, nin-guna justicia, ninguna belleza le es ajena. Y por ello no es opuesta, sino compatible con la sabiduría antigua, y se ha apoyado siempre en ella: no sólo, como suele de-cirse, haciéndola esclava y utilizándola funcionalmente, sino llevando en el regazo a quien ya existía, pero que una vez santificada se hizo mayor de lo que era.
No quisiera aquí disimular que esa relación entre mundo antiguo y cristia-nismo como dos cosas compatibles entre sí oculta delicadas aporías y exige que se mantenga firme la distinción entre lo racional y lo suprarracional. No es posible defender la demasiado divulgada fórmula de Tertuliano anima naturaliter christia-na, ya que querría decir naturalmente sobrenatural.


Es necesario en esto andar con pies de plomo para que la religión cristiana, esencialmente suprahistórica y sobrenatural, no corra el peligro de caer en el his-toricismo y el naturalismo.
Pese a todo, la idea de su continuidad a través de la extensión temporal y de las vicisitudes de las culturas es un concepto católico: difícil, pero verdadero y necesario.
Aquí me bastará ponerme bajo el patrocinio de San Agustín, quien afirmó tal continuidad de modo absoluto y universal saltando por encima de siglos y de cul-tos: «Nam res ipsa, quae nunc christiana religio nuncupatur, erat apud antiquos nec defuit ab initio generis humani» (Retract., I, cap. 13) .


La parte práctica y dispositiva de la Veterum sapientia es una exacta contra-partida, por su firmeza, de la transparencia cristalina de la doctrina.
Los puntos decisivos son precisamente los que por la sucesiva desistencia papal determinaron la anulación de la encíclica. Establece que la ratio studiorum eclesiástica reconquiste su propia originalidad fundada sobre la especificidad del homo clericus; que, consiguientemente, recobre sustancia la enseñanza de las dis-ciplinas tradicionales, sobre todo el latín y el griego; que para conseguirlo se aban-donen o se recorten las disciplinas del cursus laico, las cuales a causa de una ten-dencia asimilativa se habían ido introduciendo o ampliando.
Prescribe que las ciencias fundamentales, como la dogmática y la moral, se impartan en los seminarios en latín y siguiendo manuales igualmente en latín; que los profesores que parezcan incapaces o renuentes a la latinidad sean apartados en un plazo conveniente.


Como coronación de la Constitución apostólica, destinada a procurar una reintegración general de lo latino en la Iglesia, el Pontífice decretaba la erección de un Instituto superior de latinidad, que hubiera debido formar latinistas para todo el orbe católico y confeccionar un léxico del latín moderno .
La desintegración general de la latinidad posterior al proyecto de la fase pre-paratoria, que pretendía su general reintegración, suministra un adicional sufragio a la tesis del resultado paradójico del Concilio. En la medida en que tocaba un punto históricamente esencial del catolicismo, la heterum sapientia exigía una muy dispuesta virtud de autoridad y de correspondencia armónica en todos los órganos de ejecución.


Hacía falta esa fortaleza práctica que se había ejercitado por ejemplo en la gran reforma de la escuela italiana realizada por el ministro Giovanni Gentile, y que improntó la ratio studiorum durante medio siglo.
También entonces millones de maestros, que se encontraron en una condi-ción análoga a aquélla en que la Veterum sapientia colocaba a las disciplinas divi-nas, fueron constreñidos de manera inmisericorde a conformarse o a dimitir. Sin embargo, la reforma de los estudios eclesiásticos, al ser hostigada desde muchos lados y por varios motivos (sobre todo por parte alemana, con un libro de Winninger prologado por el obispo de Estrasburgo), fue aniquilada en brevísimo tiempo.


El Papa, que primero la instaba, ordenó que no se exigiese su ejecución; aquéllos a quienes les hubiese correspondido por oficio hacerla eficaz secundaron la debilidad papal, y la Veterum sapientia, cuya oportunidad y utilidad tan alta-mente se habían exaltado, fue del todo abrogada y no es citada en ningún docu-mento conciliar.
En algunas biografías de Juan XXIII se la silencia del todo, como si no existiese ni hubiese existido, mientras los más protervos la mencionan solamen-te como un error. Y no hay en toda la historia de la Iglesia ejemplo de un documen-to tan solemnizado y tan pronto lanzado a las Gemonias.
Queda solamente el problema de si su cancelación de libro viventium haya sido consecuencia de una falta de sabiduría al promulgarla o de una falta de valor para exigir su ejecución.

Hoje no Seminário de Toledo lançamento do livro "A reforma de Bento XVI" de Mons. Bux e com prefácio do Cardeal Cañizares que a seguir publicamos






Desde a publicação deste livro até a presente edição espanhola não passaram mais que uns poucos meses. Todavia, a transcendência de certos fatos ocorridos neste lapso de tempo modificou enormemente o “clima” em torno de sua temática, especialmente pelo ambiente de controvérsia que se criou em razão do levantamento das excomunhões dos quatro bispos ordenados há vinte anos por Dom Lefebvre. Este gesto de misericórdia gratuita do Santo Padre para tornar possível a sua plena inserção eclesial, que demonstra com fatos que a Igreja não renega sua tradição, fez com que a “Missa Tradicional” acabe ligada a um problema disciplinar e, pior ainda, político.


Como consequência, existe o risco de uma desfiguração do sentido profundo do Motu Proprio de 7 de julho de 2007; um gesto de extraordinário sentido comum eclesial pelo qual se reconheceu o valor pleno de um rito que nutriu espiritualmente a Igreja Ocidental durante séculos.

Não há dúvida de que um aprofundamento e uma renovação da liturgia eram necessários. Porém, com frequência, está não foi uma realização perfeitamente alcançada. A primeira parte da constituição Sacrosanctum Concilium não entrou no coração do povo cristão. Houve uma mudança nas formas, uma reforma, não, porém uma verdadeira renovação, tal e como pediam os Padres conciliares. Às vezes, mudou-se pelo simples gosto de mudar um passado percebido como totalmente negativo e superado, concebendo a reforma como uma ruptura e não como um desenvolvimento orgânico da tradição. Isto criou reações e resistências desde o princípio, que em alguns casos se concretizaram em posições e atitudes que levaram a soluções extremas, inclusive a ações concretas que implicavam penas canônicas. É urgente, entretanto, distinguir o problema disciplinar surgido de atitudes de desobediência de um grupo, do problema doutrinal e litúrgico.


Se cremos de verdade que a Eucaristia é realmente a “fonte e o ápice da vida cristã” – como nos recorda o Concílio Vaticano II – não podemos admitir que seja celebrada de um modo indigno. Para muitos, aceitar a reforma conciliar significou celebrar uma Missa que de um modo ou de outro devia ser “dessacralizada”. Quantos sacerdotes vimos ser tratados como “retrógrados” ou “anticonciliares” pelo simples fato de celebrarem de maneira solene, piedosa ou simplesmente por obedecerem cabalmente às rubricas! É peremptório sair desta dialética.


A reforma foi aplicada e principalmente vivida como uma mudança absoluta, como se se devesse criar um abismo entre o pré e o pós Concílio, em um contexto em que o termo “pré-conciliar” era usado como um insulto. Aqui também se deu o fenômeno que o Papa observa em sua recente carta aos bispos de 10 de março de 2009: “Às vezes se tem a impressão de que nossa sociedade tenha necessidade de um grupo, ao menos, com o qual não tenha tolerância alguma, o qual se pode atacar com ódio”. Durante este ano foi o caso, em boa medida, dos sacerdotes e fiéis ligados à forma de Missa herdada através dos séculos, tratados muitas vezes como “leprosos”, como dizia de forma contundente o então cardeal Ratzinger.


Hoje em dia, graças ao Motu Proprio, esta situação está mudando notavelmente. E em grande medida está acontecendo porque a vontade do Papa não foi unicamente satisfazer aos seguidores de Dom Lefebvre, nem limitar-se a responder aos justos desejos dos fiéis que se sentem ligados, por diversos motivos, à herança litúrgica representada pelo rito romano, MAS TAMBÉM, E DE MANEIRA ESPECIAL, ABRIR A RIQUEZA LITÚRGICA DA IGREJA A TODOS OS FIÉIS, TORNANDO POSSÍVEL ASSIM A DESCOBERTA DOS TESOUROS DO PATRIMÔNIO LITÚRGICO DA IGREJA A QUEM AINDA O IGNORA. Quantas vezes a atitude dos que os menosprezam não é devida a outra coisa senão a este desconhecimento! Por isso, considerado a partir deste último aspecto, o Motu Proprio tem sentido transcendente à existência ou não de conflitos: ainda quando não houvesse nenhum “tradicionalista” a quem satisfazer, este “descobrimento” teria sido suficiente para justificar as disposições do Papa.


Foi dito também que tais prescrições seriam um “atentado” contra o Concílio, isto, porém mostra um desconhecimento do mesmo Concílio, cuja intenção de dar a todos os fiéis a ocasião de conhecer e apreciar os múltiplos tesouros da liturgia da Igreja é precisamente o que desejou ardentemente esta magna assembleia: “O Sacrossanto Concílio, apegando-se fielmente à tradição, declara que a Santa Mãe Igreja atribui igual direito e honra a todos os ritos legitimamente reconhecidos e quer que no futuro sejam conservados e fomentados por todos os meios” (SC 4).


Por outro lado, estas disposições não são uma novidade; a Igreja sempre as manteve, e quando ocasionalmente não foi assim, as consequências foram trágicas. Não apenas foram respeitados os ritos do Oriente, mas também no Ocidente dioceses como Milão, Lyon, Colônia, Braga e diversas ordens religiosas conservaram pacificamente seus diversos ritos através dos séculos. Porém, o antecedente mais claro da situação atual é, sem dúvida, a Arquidiocese de Toledo. O Cardeal Cisneros usou de todos os meios para conservar como “extraordinário” na arquidiocese o rito moçárabe que estava em vias de extinção; não somente fez imprimir o Missal e o Breviário, como criou uma capela especial na Igreja Catedral, onde se celebra ainda hoje cotidianamente neste rito.


Esta variedade ritual não significou nunca, nem pode significar, diferença doutrinal, mas pelo contrário, põe em relevo uma profunda identidade de fundo. Entre os ritos atualmente em uso é necessário que se dê também esta mesma unidade. A tarefa atual, tal e como nos indica o presente livro de don Nicola Bux, é pôr em evidência a identidade teológica entre a liturgia dos diversos ritos que foram celebrados através dos séculos e a nova liturgia fruto da reforma, ou ainda, se esta identidade se houvesse desfigurado, recuperá-la.

A Reforma de Bento XVI é, pois, um livro rico em dados, reflexões e ideias, e dentre os múltiplos assuntos nele tratados gostaria de ressaltar alguns pontos:

O primeiro é acerca do nome com o qual chamar a esta Missa. O autor propões chamá-la, ao estilo oriental, “liturgia de São Gregório Magno”. É talvez melhor que dizer simplesmente “gregoriana”, pois pode prestar-se a um duplo equívoco (que poderia em todo caso evitar-se com a denominação “dâmaso-gregoriana”). Também é mais conveniente que “Missa tradicional”, onde o adjetivo corre o perigo de contaminar-se com uma carga ou bem polêmica ou bem “folclórica”; ou que “modo extraordinário”, que é uma denominação demasiadamente extrínseca. “Usus antiquior” tem o defeito de ser uma referência meramente cronológica.


Por outro lado, “usus receptus” seria muito técnico. “Missal de São Pio V” ou “do Beato João XXIII” são termos demasiadamente limitados. O único inconveniente é que no rito bizantino já há uma liturgia de São Gregório, Papa de Roma; a dos dons pré-santificados usado na quaresma.

Em segundo lugar, o fato de que o uso seja “extraordinário” não deve significar que deva ser usado somente por sacerdotes e fiéis que se ligam ao modo extraordinário. Como propõe o padre Bux, seria muito positivo que quem celebra habitualmente no modo “ordinário”, o faça também, extraordinariamente, no “extraordinário”. Trata-se de um tesouro que é herança de todos e ao qual, de uma maneira ou de outra, todos deveriam ter acesso. Por isso, poder-se-ia propor especialmente para ocasiões em que há alguma riqueza peculiar do antigo missal que se pode aproveitar (sobretudo se no outro calendário não há nada especialmente previsto): por exemplo, para o tempo da Septuagésima, para as quatro Têmporas ou para a Vigília de Pentecostes e, talvez, até no caso de certas comunidades especiais, tanto de vida consagrada como confrarias ou irmandades. A celebração “extraordinária” também seria de grande utilidade para os ofícios da Semana Santa, ao menos em alguns deles, pois todos os ritos conservam no Tríduo Sagrado cerimônias e orações que remontam a épocas mais antigas da Igreja.


Outro ponto que é necessário destacar é a atitude de Bento XVI; não constitui tanto uma novidade nem câmbio de rumo de governo, mas sim leva à sua concretização o que já João Paulo II havia empreendido como iniciativas tais como o documento papal Quattuor abhinc annos, a consulta à comissão de Cardeais, o Motu Proprio Ecclesia Dei e a criação da Comissão de mesmo nome, ou as palavras dirigidas à Congregação do Culto Divino (2003).

Algo que se deve urgentemente ter em conta é a repercussão ecumênica destas discussões; as críticas dirigidas ao rito recebido da tradição romana alcançam também a outras tradições e sobretudo a dos irmãos ortodoxos. Quase todos os ataques dos que se opõem à reintrodução do missal antigo são precisamente ataque aos lugares que temos em comum com os orientais! Um sinal que confirma este fato são as expressões positivas do recentemente falecido Patriarca de Moscou ao publicar-se o Motu Proprio.


Não é um dos aspectos menos importantes deste livro o fato de que nos ajude a tomar consciência dos diversos aspectos da situação em que nos encontramos atualmente. Nossa geração enfrenta grandes desafios em matéria litúrgica: ajudar toda a Igreja a seguir plenamente o que indicou o Concílio Vaticano II na constituição Sacrosanctum Concilium e o que o Catecismo da Igreja Católica diz sobre a liturgia, aproveitar o que o Santo Padre – quando ainda era o cardeal Joseph Ratzinger – escreveu sobre o tema, especialmente em seu belíssimo livro Introdução ao Espírito da Liturgia, enriquecer-se com o modo com que o Santo Padre – assistido pela Oficina das celebrações litúrgicas presidida pelo Mons. Guido Marini, e da qual é consultor o autor deste livro – celebra a liturgia. Estas liturgias pontifícias são exemplares para todo o orbe católico.


Por último, acrescento que seria de grande importância que tudo isto se expusesse com profundidade nos seminários como parte integrante da formação para o sacerdócio, para proporcionar um conhecimento teórico-prático das riquezas litúrgicas, não somente do rito romano, mas também, na medida do possível, dos diversos ritos do Oriente e do Ocidente, e assim criar uma nova geração de sacerdotes livres de preconceitos dialéticos.

Oxalá este valioso livro de don Nicola Bux sirva para conhecer melhor as intenções do Santo Padre e descobrir as riquezas da herança recebida e, desse modo, para iluminar-nos em nossa ação. Para isto, peçamos ao Senhor saber interpretar, como dizia Paulo VI, os “sinais dos tempos”.

+ Antonio, cardeal Cañizares

Prefeito da Sagrada Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos

Administrador Apostólico de Toledo

8 de abril de 2009

Fonte: Subsídios Litúrgicos Summorum Pontificum

Tradução : OBLATVS

É preciso compreender que o véu jamais foi abolido da Sagrada Liturgia


Doce véu

Autor: Francisco Dockhorn

Sou suspeito para falar. Pois sendo homem, evidentemente não uso véu. Mas confesso: me causa estranheza quando vejo se referirem ao uso do véu como, essencialmente, “mortificação”, “sacrifício à ser oferecido”, etc. Pois para mim, o véu soa como algo tão bonito, tão doce, tão suave...

Em primeiro lugar, é preciso compreender que o véu jamais foi abolido da Sagrada Liturgia. Mas, havendo sido suprimida a sua obrigatoriedade canônica, acabou por cair parcialmente em desuso no ocidente.

No oriente, porém, esta tradição se mantém muito viva. E nos remete diretamente à Igreja Primitiva.

Não há dúvidas, portanto, que é um sinal tradicional da Liturgia Católica. Mesmo aqui no ocidente, embora tenha caído em parcial desuso nos últimos 40 anos, manteve-se como costume por quase 2000 anos!

Mas não basta só sabermos que é um sinal litúrgico tradicional. Embora esse seja o dado mais claro em um primeiro momento, precisamos compreender o seu significado.

É preciso ter em mente que na Sagrada Liturgia todos os sinais externos tem um significado profundo: os paramentos litúrgicos, os gestos externos, o dobrar os joelhos para a adorar ou pedir perdão, as castiçais, o incenso, o latim...com o véu, não é diferente!

Em um primeiro momento, pode parecer machismo a afirmação de São Paulo aos Coríntios, quando afirma que o véu é para mulher um sinal de sujeição (ICor 11,10). Mas se parece, só parece: ora, cabe lembrar que o mesmo São Paulo, falando aos Efésios (Ef 5,21-33) utiliza a mesma afirmação quando faz a analogia que liga o homem à Nosso Senhor (que amou e se entregou pela Igreja) e a mulher à Igreja (que é submissa à Nosso Senhor). E aqui há um rico simbolismo! Esta submissão, evidentemente, à luz da doutrina católica, de forma alguma pode significar para a mulher a sujeição à um autoritarismo machista, mas sim a seu zelo em ser mãe e esposa como a essência da sua vocação matrimonial; e se há aqui algo que Nosso Senhor espera da mulher, também há algo muito mais desafiador que Ele espera do homem: “Maridos, amai as vossas mulheres, como Cristo amou a Igreja e se entregou por ela.” (Ef 5,25) E isto por si só já descarta qualquer autoritarismo!

Longe de o véu, portanto, atentar contra a dignidade da mulher. Muito pelo contrário: a mulher é a glória do homem e a glória da criação do próprio Deus (ICor 11,7); a imagem bíblica da própria Santa Igreja, que é a noiva do Cordeiro (Ap 19,7). Que grande dignidade isso lhe confere!

O que ilumina mais a questão é quando São Paulo fala aos Coríntios (ICor 11, 4-7) de simbolismo adequado à diferença entre homem e mulher: enquanto é decoroso para o
homem participar do Rito de cabeça descoberta, é decoroso para a mulher participar do Rito e cabeça coberta.

À grosso modo, um homem tirar um chapéu ou um boné ao entrar em local sagrado em sinal de respeito (isto é, descobrir a cabeça) corresponde à uma atitude semelhante da mulher que coloca um véu quando entra no local sagrado (isto é, cobrir a cabeça, e não com uma peça qualquer, mas com uma peça digna e especialmente preparada para este fim).

Lembro das sábias palavras de São Josemaria Escrivá, recordando seus tempos de infância: "Lembro-me de como as pessoas se preparavam para comungar: havia esmero em arrumar bem a alma e o corpo. As melhores roupas, o cabelo bem penteado, o corpo fisicamente limpo, talvez até com um pouco de perfume. Eram delicadezas próprias de gente enamorada, de almas finas e retas, que sabiam pagar Amor com amor." Afirma ainda: "Quando na terra se recebem pessoas investidas em autoridade, preparam-se luzes, música e vestes de gala. Para hospedarmos Cristo na nossa alma, de que maneira não devemos preparar-nos?" ("Homilias sobre a Eucaristia", Ed. Quadrante)

Acaso o uso do véu não seria uma dessas delicadezas, próprias de mulheres apaixonadas pelo Deus-Amor Sacramentado?

Na Sagrada Liturgia, cobre-se delicadamente a dignidade dos diversos elementos litúrgicos: o véu frontal que cobre o Sacrário, o véu que cobre o cálice e o cibório, a toalha branca que cobre o altar, a casula que cobre o sacerdote que oferece o Santo Sacrifício da Missa.

Assim é o véu que cobre a mulher, chamada a ser pela Sagrada Comunhão, de forma especial, como a doce e bela Virgem Maria: Sacrário vivo do Corpo de Deus.
Fonte:salvem a liturgia

quarta-feira, 6 de maio de 2009

A ASSISTÊNCIA À MISSA FONTE DE SANTIFICAÇÃO



Pe. Reginald Garrigou-Lagrange, O. P.

A santificação de nossa alma se encontra em uma união, cada dia, mais íntima com Deus, união de fé, de confiança e de amor. Por isso um dos maiores meios de santificação é o ato mais elevado da virtude de religião e do culto cristão: a participação no sacrifício da Missa. Para toda alma interior, a Missa deve ser, cada manhã, como a fonte eminente, de onde derivam todas as graças de que temos necessidade durante o curso do dia, fonte de luz e de calor, semelhante na ordem espiritual, ao que é o nascer do sol na ordem da natureza. Depois da noite e do sono que são como uma imagem da morte, o sol reaparecendo cada manhã, dá, de alguma maneira, vida a tudo o que acorda na superfície da terra. Se conhecêssemos profundamente o preço da missa quotidiana, veríamos que ela é como um nascer do sol espiritual, para renovar, conservar e aumentar em nós a vida da graça, que é a vida eterna começada. Mas muitas vezes o habito de assistir a missa, por falta de espírito de fé, degenera em rotina e não recebemos mais então do santo sacrifício todos os frutos que deveríamos receber.


Este então deveria ser o maior ato de nossos dias e na vida de um cristão, sobretudo de um religioso, todos os outros atos quotidianos só deveriam ser o acompanhamento daquele, ou seja, todas as outras orações e pequenos sacrifícios que devemos oferecer ao Senhor durante o dia.

Lembremos aqui: 1º. o que dá valor ao sacrifício da missa, 2º qual é a relação de seus efeitos com nossas disposições interiores, 3º como devemos nos unir ao sacrifício eucarístico.

A oblação sempre viva do coração do cristo

A excelência do sacrifício da Missa vem, diz o Concilio de Trento[1], do fato de ser o mesmo sacrifício em substancia que o sacrifício da Cruz, porque é o mesmo sacerdote que continua atualmente a se oferecer por seus ministros, é a mesma vítima, realmente presente no altar, que é realmente ofertada; só difere a maneira de oferecer: enquanto há na Cruz uma imolação cruenta, na Missa há uma imolação sacramental pela separação, não física, mas sacramental do corpo e do sangue do Salvador, em virtude da dupla consagração. Assim o sangue de Jesus sem ser fisicamente derramado é sacramentalmente derramado[2].



Esta imolação sacramental é um sinal[3] da oblação interior de Jesus, à qual devemos nos unir; é também o memorial da imolação cruenta do Calvário. Apesar dela ser somente sacramental, esta imolação do Verbo de Deus feito carne, é mais expressiva do que a imolação cruenta do cordeiro pascal e de todas as vítimas do Antigo Testamento. Um sinal tira, com efeito, seu valor expressivo da grandeza da coisa significada; a bandeira que nos lembra a pátria, de tecido comum, tem maior preço a nossos olhos do que a flâmula de uma companhia ou do que a insígnia de um oficial. A imolação cruenta das vitimas do Antigo Testamento, figura longínqua do sacrifício da Cruz, exprimia somente os sentimentos interiores dos sacerdotes e dos fieis da antiga Lei; enquanto que a imolação sacramental do Salvador sobre nossos altares exprime, sobretudo, a oblação interior sempre viva do coração do “Cristo que não cessa de interceder por nós” (Hebr., VII, 25).



Ora, essa oblação que é como a alma do sacrifício da Missa, tem um valor infinito, que emana da pessoa divina do Verbo feito carne, sacerdote principal e vítima, cuja imolação continua sob uma forma sacramental.

São João Crisóstomo escreveu: Quando virem no altar o ministro sagrado elevando para o céu a santa hóstia, não creiam que este homem seja o verdadeiro padre (principal), mas, elevando o pensamento acima daquilo que atinge os sentidos, considerem a mão de Jesus Cristo invisivelmente estendida[4]”. O padre que vemos com nossos olhos de carne não pode penetrar em toda a profundeza desse misterio, mas acima dele está a inteligência e a vontade de Jesus sacerdote principal. Apesar do ministro não ser sempre o que deveria ser, o sacerdote principal é infinitamente santo; o ministro, mesmo quando é bom, pode estar ligeiramente distraído ou ocupado com as cerimônias exteriores do sacrifício, sem penetrar no sentido intimo, mas acima dele há alguém de um valor infinito, uma suplica e uma ação de graças sem limite de tamanho.



Esta oblação interior sempre viva no coração do Cristo é, por assim dizer, a alma do sacrifício da Missa. É a continuação daquela pela qual Jesus se ofereceu como vítima entrando neste mundo e em todo o curso de sua existência terrestre, sobretudo na Cruz.Quando o Salvador estava sobre a terra, essa oblação era meritória; agora continua sem essa modalidade de mérito. Continua sob a forma de adoração reparadora e de súplica, para nos aplicar os méritos passados da Cruz. Mesmo quando a última Missa acabar no fim do mundo e que não houver mais sacrifício propriamente dito, mas sua consumação, a oblação interior do Cristo para seu Pai durará, não mais sob a forma de reparação e de súplica, mas sob a forma de adoração e de ação de graças. É o que nos faz prever o Sanctus, Sanctus, Sanctus, que dá uma idéia do culto dos bem-aventurados na eternidade.




Se nos fosse dado a conhecer, imediatamente, o amor que inspira esta oblação interior, que dura sem cessar no coração do Cristo, “sempre vivo para interceder por nós”, qual não seria nossa admiração!

A Bem-aventurada Ângela de Foligno nos diz[5]: “Não tenho um vago pensamento, mas a certeza absoluta que, se uma alma visse e contemplasse algum dos esplendores íntimos do sacramento do altar, incendiaria, pois veria o amor divino. Parece-me que aqueles que oferecem o sacrifício, ou que nele tomam parte, deveriam meditar profundamente sobre a verdade profunda do mistério três vezes santo, na contemplação do qual deveríamos permanecer imóveis e absorvidos”.


*
Os efeitos do sacrifício da missa e nossas disposições interiores.

A oblação interior do Cristo Jesus, que é a Alma do sacrifício eucarístico, tem os mesmos fins e os mesmos efeitos que o sacrifício da Cruz, mas importa distinguir, entre esses efeitos, aqueles que são relativos a Deus e os que nos concernem.

Os efeitos da Missa imediatamente relativos a Deus, como a adoração reparadora e a ação de graças, se produzem sempre infalivelmente e plenamente com seu valor infinito, mesmos sem nosso concurso, mesmo que a Missa seja celebrada por um ministro indigno, desde que seja válida. De cada Missa se eleva, então, para Deus uma adoração e uma ação de graças de um valor sem limites, em razão da dignidade do Sacerdote principal que oferece e do preço da vitima ofertada. Esta oblação “agrada mais a Deus do que todos os pecados reunidos lhe desgostam”; é isso que constitui a própria essência do mistério da Redenção por modo de satisfação[6].




Quanto aos efeitos da Missa, relativos a nós, só nos são dispensados na medida de nossas disposições interiores.

É assim que a Missa, como sacrifício propiciatório, obtém, ex opere operato, para os pecadores que não resistem, a graça atual que os leva a se arrependerem e que os inspira a confessar suas faltas[7].As palavras do Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, parce nobis Domine, produzem nesses pecadores que não põem obstáculos aos sentimentos de contrição, o que o sacrifício da Cruz produziu na alma do bom ladrão. Trata-se aqui, sobretudo, dos pecadores que assistem a Missa ou daqueles por quem ela é dita.

O sacrifício da Missa, como satisfatório, apaga também, infalivelmente aos pecadores arrependidos, ao menos uma parte da pena temporal devida pelo pecado e isso em proporção às disposições mais ou menos perfeitas com as quais a assistem. É por isso que o Concílio de Trento diz que o sacrifício eucarístico pode ser oferecido também pelo sufrágio das almas do purgatório[8].



Enfim como sacrifício impetratório ou de Súplica, a Missa nos obtém ex opere operato todas as graças que temos necessidade para nos santificar. É a grande oração do Cristo sempre vivo que continua para nós, acompanhado da oração da Igreja, Esposa do Salvador. O efeito desta dupla oração é proporcionado ao nosso fervor e aquele que se uni o melhor que pode, está certo de obter para ele e para aqueles que lhes são caros, as mais abundantes graças.



Segundo Santo Tomas e muitos teólogos, esses efeitos da Missa relativos a nós são limitados apenas pela medida de nosso fervor[9]. A razão é que a influência de uma causa universal só é limitada pela capacidade dos sujeitos que a recebem. Assim o sol clareia e aquece em um só lugar tanto mil pessoas como a uma só. Ora o sacrifício da Missa, sendo substancialmente o mesmo que o da Cruz é, por modo de reparação e de oração, uma causa universal de graças, de luz, de atração e de força. Sua influência sobre nós só é, pois, limitada pelas disposições ou pelo fervor daqueles que a recebem. Assim uma única missa será tão proveitosa para um grande numero de pessoas como se fosse oferecida para uma só entre elas; assim como o sacrifício da Cruz rendeu ao bom ladrão tanto proveito quanto teria rendido se oferecido por ele só. Se o sol aquece, em um só lugar, mil pessoas como a uma, a influência desta fonte de calor espiritual que é a Missa não é menor em sua ordem. Quanto mais se assiste a Missa com fé, confiança, religião e amor, maiores serão os frutos que dela se retira.



Tudo isso nos mostra porque os santos, à luz dos dons do Espírito Santo, sempre tanto apreciaram o Sacrifício da Missa. Alguns, ainda que enfermos e doentes, queriam se arrastar até a missa, porque ela vale mais do que todos os tesouros. Santa Joana d’Arc, indo para Chinon, importunava seus companheiros de armas e obtinha deles, a força de insistência, que assistissem a missa todos os dias. Santa Germana Cousin era fortemente atraída para a Igreja quando escutava o sino anunciar o santo sacrifício, deixava suas ovelhas na guarda dos anjos e corria para assistir a missa; seu rebanho era bem guardado.


O santo Cura d’Ars falava do valor da Missa com tal convicção, que tinha obtido que todos ou quase todos os seus paroquianos a assistissem. Inúmeros outros santos derramavam lágrimas de amor ou caíam em êxtase durante o sacrifício eucarístico; alguns viram no lugar do celebrante o próprio Nosso Senhor, o Sacerdote principal. Outros, na elevação do cálice, viram o precioso sangue transbordar, escorrendo pelos braços do padre e pelo santuário e anjos virem recolhê-lo em taças de ouro como para levá-lo por toda parte onde houvesse homens para salvar. São Felipe de Néri recebeu graças desse gênero e se escondia para celebrar por causa dos arrebatamentos, que muitas vezes, era tomado no altar.


Como nos unir ao sacrifício eucarístico?

Pode-se aplicar a isso o que Santo Tomas [10] diz sobre a atenção na oração vocal: “A atenção pode estar ou bem nas palavras para bem pronunciá-las, ou no sentido das palavras, ou no fim da oração, quer dizer em Deus e naquilo pelo que se reza... Esta ultima atenção, que os mais humildes, sem cultura podem ter, é algumas vezes tão grande que é como se o espírito fosse elevado para Deus e se esquecesse de todo o resto”.




Assim também para bem assistir a missa, com fé, confiança, verdadeira piedade e amor, podemos segui-la de maneiras diferentes. Podemos estar atentos às preces litúrgicas, geralmente tão belas e tão cheias de unção, de elevação e de simplicidade. Podemos lembrar a Paixão e a Morte do Salvador, cuja missa é o memorial e se considerar como estando ao pé da Cruz com Maria, João, as santas mulheres. Podemos ainda nos aplicar a render a Deus, em união com Jesus, os quatro deveres que são os fins do Sacrifício: adoração, reparação, pedido e ação de graças[11]. Desde que se reze, mesmo recitando piedosamente seu terço, assistimos com frutos à missa. Podemos também com grande proveito, como santa Joana de Chantal e muitos santos, continuar com a sua oração, sobre tudo se somos levados a um puro e intenso amor, um pouco como são João na Ceia repousando sobre o Coração de Jesus.


Mas de qualquer maneira que se siga a Missa, é preciso insistir em em uma coisa importante. É preciso sobretudo nos unirmos profundamente à oblação do Salvador, o sacerdote principal: com ele, é preciso oferecê-lo a seu Pai, nos lembrando que esta oblação agrada mais a Deus do que todos os pecados lhe desagradam. É preciso nos oferecer, cada dia, mais profundamente, oferecer particularmente as penas e contrariedades que costumamos ter e aquelas que se apresentarão durante o dia.



É assim que no ofertório o padre diz: “In spiritu humilitatis et in animo contrito suscipiamur a te, Domine: É com espírito de humildade e coração contrito que vos pedimos, Senhor, de nos receber”.

O autor da Imitação, I. IV, cap. VIII, insiste com razão sobre este ponto: O Senhor diz: “ Como me ofereci voluntariamente a meu Pai por vossos pecados, na cruz..., assim deveis todos os dias, no sacrifício da Missa, vos oferecer a mim, como uma hóstia pura e santa, do mais profundo do vosso coração... É a vos que eu quero e não vossos dons... Se permanecerdes em vós mesmos, se não vos abandonardes sem reserva a minha vontade, vossa oblação não será completa e não estaremos unidos perfeitamente”.



No capitulo seguinte, o fiel responde: “Na simplicidade de meu coração, eu me ofereço a vós meu Deus, para vos servir para sempre... Recebei-me com a oblação santa de vosso precioso Corpo... Ofereço-vos também tudo o que há de bom em mim, por mais imperfeito que seja, para que vós a torne mais digna de vós. Ofereço-vos ainda todos os piedosos desejos das almas fieis, a oração por aqueles que me são queridos... A súplica por aqueles que me ofenderam ou entristeceram, por aqueles também que eu mesmo afligi, feri, escandalizei, sabendo ou não, afim de que nos perdoeis todas nossas ofensas mútuas... e fazei que sejamos dignos de gozar aqui na terra dos vossos dons e alcançar a vida eterna.”


A missa assim compreendida é uma fonte fecunda de santificação, de graças sempre renovadas; por ela pode-se realizar cada vez melhor para nós a oração do Salvador: Dei-lhes a luz que vós me destes, para que sejam um como nós somos um, Eu neles e vós em mim, afim de que eles sejam perfeitamente um e que o mundo saiba que vós me enviastes e que vós os amastes como vós me amais” (João, XVII, 23).



A visita ao Santíssimo Sacramento deve nos recordar a missa da manhã e devemos pensar que no Tabernáculo, se não há sacrifício propriamente dito, que cessa com a missa, no entanto Jesus realmente presente continua a adorar, orar e render graças. Deveríamos nos unir a essa oblação do Salvador a qualquer hora do dia. Como diz a oração do Coração Eucarístico: “Ele é paciente a nos esperar, apressado em nos atender; é a sede de todas as graças sempre renovadas, o refúgio da vida escondida, o mestre dos segredos da união divina”. Devemos junto ao Tabernáculo, “calar-nos para escutar, e abandonar-nos para nele nos perder[12]”.



Roma, Angélico.



(Tradução: Permanência. Originalmente publicado em “La Vie Spirituel” n º 187, 1º - 04 – 1935)



Traduzido a partir de www.salve-regina.com



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Notas:

[1] Sessão XXII,cap.I e II

[2] Do mesmo modo a humanidade do Salvador fica numericamente a mesma, mas depois de sua ressurreição ela é impassível,, enquanto que antes estava sujeita à dor e à morte.

[3] “Sacrificium externum est in genere signi, ut signum interioris sacrificii”.

[4] Homl.LX ao povo de Antioquia

[5] Livro de suas visões e instruções, cap. LXVII.

[6] Cf. S. Tomas, IIIa, q. 48, ª2: “Ille proprie satisfacit pro offensa, qui exhibet offenso id quod aeque vel magis diligit, quam oderit offensam”.

[7] Cf. Concilio de Trento, sess. XXII, c. II: “Hujus quippe oblationeplacatus Dominus, gratiam et domum paenitenciae concedens, crimina et peccat etiam ingentia dimittit”.

[8] Ibidem

[9] Cf. S. Tomas, III ª q,79, a. 5 et 7 ad 2um, onde não há outro limite indicadoa são ser aquele da medida de nossa devoção “secundum quantitatem seu modum devotionis eorum” (id est: fidelium). Cajetan, In IIIum, q. 79, a. 5. João de Santo Tomas, In IIIum, disp.32, a. 3. Gonet, Clypeus... De Eucaristia, disp. II, a. 5. no. 100. Salmanticenses, de Eucaristia, disp. XIII, dub. VI. Nós nos separamos completamente do que escreveu sobre este assunto P.dela Taille, Esquisse du mystere de la foi, Paris, 1924, p.22.

[10] IIa IIae, q. 82, a.13.

[11] A primeira parte da missa até o ofertório nos inspira sentimentos de penitencia e contrição (confiteor, Kyrie eleison), de adoração e de reconhecimento (Gloria in excelsis), de súplica (Colleta), de fé viva (Epitre, Evangile, Credo), para nos preparar para o oferecimento da santa Vitima, seguida da comunhão e da ação de graças.

[12] Recomendamos, para ler durante a visita ao Santíssimo Sacramento ou para meditar como assunto de oração, Les elevations sur laPriere au Coeur Eucharistique de Jesus, que foram publicadas pela primeira vez em 1926, Editions de laVie Spirituelle