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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Prof. de Mattei — Independentemente de uma avaliação teológica de seus documentos, o Concílio Vaticano II constituiu, a meu ver, um evento catastrófico para a Igreja.

Concílio Vaticano II — Revelações que não podem ser ignoradas
“Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos” (Mt 7, 18). Quais os “frutos” produzidos pelo Vaticano II? Qual a causa e a quem atribuir a responsabilidade pela decadência religiosa nos dias atuais?

Prof. Roberto de Mattei:

“O Concílio Vaticano II não é mais um ‘superdogma’, mas um evento histórico submetido à avaliação histórica e teológica completa”

Conhecido dos leitores de Catolicismo, o historiador e jornalista italiano Roberto de Mattei, nascido em 1948, é um dos mais destacados líderes católicos contemporâneos. É professor de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, na qual é o coordenador da Escola de Ciências Históricas. Entre 2004 e 2011 foi por duas vezes vice-presidente do principal organismo estatal italiano de apoio às ciências, o Conselho Nacional de Pesquisa. Membro do Conselho de Administração do Instituto Histórico para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana, ele colabora com o Comitê Pontifício de Ciências Históricas. Foi agraciado com a insígnia da Ordem da Santa Sé de São Gregório, o Grande, em reconhecimento pelos seus serviços prestados à Igreja.
Em 2010, Roberto de Mattei publicou o livro O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, o qual lhe valeu o mais prestigioso prêmio italiano para livros históricos: o Acqui Storia/2011. Recentemente traduzido para o português, e difundido no Brasil pela Petrus Livraria, pode ser adquirido por meio do site: http://www.livrariapetrus.com.br.
Nesta entrevista concedida a Catolicismo, o Prof. de Mattei explica que seu trabalho oferece “uma contribuição que não é a do teólogo, mas do historiador”, cuja tarefa é, com base em documentos de arquivos, diários, cartas e testemunhos daqueles que foram os protagonistas, “compreender a essência de um evento, procurando rastrear as causas e as consequências nas ideias e nas tendências profundas de uma época”. Neste caso, o período do Concílio Vaticano II.
No 50° aniversário da abertura do Concílio, o balanço é francamente negativo. Para de Mattei, a última assembleia conciliar, independente da avaliação teológica de seus documentos, constituiu um evento catastrófico para a Igreja.
* * *
Catolicismo — Muitas pessoas imaginam não existir um debate sobre o Concílio Vaticano II, que seria uma espécie de “dogma” aceito por todos. Qual é a situação em Roma? Quem o questiona e com que autoridade?

Procissão dos Padres Conciliares entrando na Basílica de São Pedro, em 1962

“No Concílio Vaticano II houve choque entre duas minorias: uma que pedia a condenação do comunismo, e outra que exigia uma atitude ‘dialogante’ e aberta ao mundo moderno”

Prof. de Mattei — Após o já famoso discurso de Bento XVI à Cúria Romana, em 22 de dezembro de 2005, iniciou-se, de modo especial na Itália, um debate animado, histórico e teológico sobre o Concílio Vaticano II. Posso confirmar isso, por exemplo, devido à notícia, já publicada em blog, de que o Cardeal Walter Brandmüller, presidente emérito do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, promoveu alguns seminários sobre o Vaticano II, realizados em Roma e no norte da Itália. Estas conversações ocorreram “a portas fechadas” entre estudiosos de diferentes tendências, e têm sido para o Vaticano uma boa oportunidade para remover o véu da “intocabilidade” que impede qualquer discussão séria e aprofundamento do tema. O Vaticano II não é mais um “superdogma”, mas um evento histórico submetido à avaliação histórica e teológica completa.
Catolicismo — Existe na História da Igreja algum outro exemplo de concílio que tenha sido apenas pastoral? Se existiu, quais foram as suas consequências?
Prof. de Mattei — Na História da Igreja foram realizados 21 concílios por ela reconhecidos como ecumênicos ou gerais. A partir do Concílio de Nicéia, cada concílio tem sido objeto de debate histórico. No entanto, ao contrário dos concílios anteriores, o Concílio Vaticano II representa um novo problema para os historiadores. Os concílios cumprem, sob a autoridade do Papa e juntamente com este, um Magistério solene em matéria de fé e moral, e se colocam como os juízes supremos e legisladores em matéria de lei e de disciplina da Igreja. O Concílio Vaticano II não aprovou leis e nem sequer deliberou de forma definitiva sobre questões de fé e moral, mas se declarou “pastoral”. Na alocução com a qual abriu o Vaticano II, em 11 de outubro de 1962, a qual é como sua “Carta Magna”, João XXIII explicou que o concílio havia sido convocado não para condenar erros ou fazer novos dogmas, mas propor, com a linguagem adaptada aos novos tempos, o ensinamento perene da Igreja.
A dimensão pastoral, em si mesma acidental e secundária em relação à doutrinária, tornou-se de fato uma prioridade, operando uma revolução no estilo, na linguagem, na mentalidade. O padre John W. O’Malley explicou bem como as profissões de fé e os cânones foram substituídos por um “gênero literário” que ele chama de “epidíctico”1 ou discursivo. Mas essa escolha de exprimir-se em termos diferentes dos do passado significa fazer uma transformação cultural mais profunda de quanto possa parecer. O estilo escolhido por alguém ao se expressar revela de fato seu modo profundo de ser e de pensar: “a boca fala da abundância o coração” (Mt 12, 34), o estilo é a expressão máxima do significado.
Catolicismo — A abstenção por parte do Vaticano II em condenar o comunismo insere-se nessa transformação da linguagem?
Prof. de Mattei — Até o Concílio Vaticano II, o ensino da Igreja Católica havia se pronunciado diversas vezes contra o comunismo com palavras claras de condenação. Por ocasião da chegada dos Padres Conciliares a Roma, antes da celebração da assembleia, o comunismo parecia ser o erro mais grave a ser condenado. No entanto, estava-se nos anos sessenta, quando um novo espírito de otimismo pairava no mundo. É neste período que se delineou um novo clima de “degelo” em relação a realidades já definidas pelo Magistério como antitéticas.
A influência da primeira encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, revelou-se determinante. Ela deu a impressão de querer eliminar a posição da Igreja em seu confronto com o comunismo, removendo, de fato, cada condenação, ainda que de modo apenas verbal. Foi durante esse período que nasceu a Ostpolitik — a política de abertura do Vaticano em relação aos países comunistas do Leste — que teve seu homem-símbolo no então Mons. Agostino Casaroli.
No concílio ocorreu um choque entre duas minorias: uma que pedia a condenação do comunismo, e outra que exigia uma atitude “dialogante” e aberta quanto ao mundo moderno, da qual o comunismo era a expressão. Uma petição de condenação do comunismo, apresentada em 9 de outubro de 1965 por 454 Padres conciliares, de 86 países, não foi sequer enviada para a comissão que estava elaborando o respectivo esquema, causando enorme escândalo.
A Constituição Gaudium et Spes, que foi o décimo sexto e último documento promulgado pelo Concílio Vaticano II, pretendia ser uma definição inteiramente nova da relação entre a Igreja e o mundo. Nela não figurava qualquer forma de condenação do comunismo. O silêncio do concílio sobre o comunismo era de fato uma omissão impressionante por parte daquela histórica assembleia. Hoje, devemos perguntar quem foram profetas: aqueles que no concílio denunciaram a brutal opressão exercida pelo comunismo, pedindo a sua solene condenação, ou aqueles que acreditavam, como os arquitetos da Ostpolitik, que em relação ao comunismo dever-se-ia obter um acordo, um compromisso, porque o comunismo interpretava a ânsia de justiça da humanidade e sobreviveria um ou dois séculos, melhorando o mundo?

Stalin, uma das facetas mais sanguinárias do comunismo

“Era o lugar por excelência para um julgamento do comunismo análogo ao de Nuremberg para o nacional-socialismo: não julgamento penal, mas moral e cultural”

A assembleia conciliar era o lugar por excelência para se iniciar um julgamento do comunismo, análogo ao que Nuremberg foi para o nacional-socialismo: não um julgamento de caráter penal, e nem de ex post vencedores contra vencidos, como ocorreu em Nuremberg, mas um julgamento moral e cultural, ex ante, das vítimas em confronto com os seus perseguidores, como haviam começado a realizar os chamados dissidentes. “Todas as vezes que se reuniu um Concílio Ecumênico — afirmou em uma aula conciliar o cardeal Antonio Bacci — ele sempre resolveu os grandes problemas que se agitavam naquele tempo e condenou os erros de então. Creio que o silêncio sobre este ponto seria uma lacuna imperdoável, até mesmo um pecado coletivo. [...] Esta é a grande heresia teórica e prática dos nossos tempos; e se o concílio não se ocupar dela, poderá parecer um concílio fracassado!”.
Catolicismo — Quais são as contribuições da historiografia contemporânea para deslindar este problema?
Prof. de Mattei — Hoje sabemos que em agosto de 1962, na cidade francesa de Metz, foi celebrado um acordo secreto entre o cardeal Tisserant, representante do Vaticano, e o novo arcebispo ortodoxo de Yaroslav, Mons. Nicodemo, o qual, como ficou documentado após a abertura dos arquivos de Moscou, era um agente da KGB. Com base nesse acordo, as autoridades eclesiásticas se comprometeram em não falar do comunismo no concílio. Esta foi a condição imposta pelo Kremlin para permitir a participação dos observadores do Patriarcado de Moscou no Concílio Vaticano II. No Arquivo Secreto do Vaticano encontrei uma nota, do punho de Paulo VI, confirmando a existência desse acordo. Outros documentos de particular interesse foram publicados por George Weigel no segundo volume, que acaba de vir a lume, de sua imponente biografia de João Paulo II. Com efeito, Weigel consultou fontes como os arquivos da KGB, do Sluzba Bezpieczenstewa (SB) polonês e da Stasi da Alemanha Oriental, as quais proporcionaram documentos que confirmam como os governos comunistas e os serviços secretos dos países orientais penetraram no Vaticano para favorecer os seus interesses e se infiltrarem nos mais altos escalões da hierarquia católica. Em Roma, nos anos do concílio e do pós-concílio, o Colégio Húngaro tornou-se uma filial dos serviços secretos de Budapeste. Segundo Weigel, entre 1965 e 1987, todos os reitores do Colégio deviam ser agentes adestrados e capazes, com competência tanto em operações de desinformação quanto na instalação de bugs. Por sua vez, o SB polonês possuía um colaborador eclesiástico bem colocado, cujo nome de código era JANKOWSKI, ou seja, Michele Czajkowski, um estudioso bíblico empenhado no diálogo entre hebreus e católicos. O SB, de acordo com Weigel, procurou até distorcer as discussões do concílio sobre pontos específicos da teologia católica, como o papel de Maria na história da salvação. O diretor de seu IV Departamento, coronel Stanislaw Morawski, trabalhou com uma dúzia de colaboradores, todos especialistas em Mariologia, a fim de preparar um lembrete para os padres conciliares, no qual se criticava o conceito “maximalista” do Cardeal Wyzynski, arcebispo de Varsóvia, e de outros altos prelados.
Catolicismo — O Sr. descreveu a existência de uma luta no concílio entre duas minorias, uma progressista e outra conservadora. Qual foi a razão da derrota dos conservadores?
Prof. de Mattei — A meu ver, a causa principal da derrota dos conservadores, e a raiz da fraqueza da Igreja contemporânea, reside na perda daquela visão teológica característica do pensamento cristão, que interpreta a História como uma luta incessante até o fim dos tempos, entre as duas cidades agostinianas: a de Deus e a de Satanás. Quando, em 12 de outubro de 1963, Mons. Franiæ, bispo croata de Spalato, propôs que no esquema De Ecclesia, ao novo título de Igreja “peregrina” fosse acrescentada a denominação tradicional de “militante”, sua proposta foi rejeitada. A imagem que a Igreja ofereceu de si ao mundo não foi a da luta, da condenação ou da controvérsia, mas do diálogo, da paz, da colaboração ecumênica e fraterna com todos os homens. A minoria progressista obteve não tanto uma mudança da doutrina da Igreja quanto uma substituição da imagem hierárquica e militante da Esposa de Cristo, através da imagem de uma assembleia democrática, dialogante e inserida na História. Na realidade, a Igreja que sofre no Purgatório e triunfa no Paraíso, aqui na Terra combate em nome de Cristo e, por isso, é chamada “militante”. A redescoberta desse espírito parece-me ser uma das urgências da Igreja em nosso tempo.
 
Catolicismo — Em que situação se encontra o debate na Itália sobre a “hermenêutica da continuidade” versus “hermenêutica da ruptura”? Quem são atualmente os maiores defensores de cada uma dessas posições?

Estantes com documentos do arquivo secreto vaticano

“No Arquivo Secreto do Vaticano encontrei uma nota, do punho de Paulo VI, confirmando a existência do acordo a fim de não se condenar o comunismo”

Prof. de Mattei — A “hermenêutica da descontinuidade” apresenta sua máxima expressão na chamada “Escola de Bolonha”, que sob a direção dos professores Giuseppe Alberigo e Alberto Melloni produziu cinco volumes da história do Concílio Vaticano II. Contra esta história tendenciosa não basta afirmar — como as autoridades eclesiásticas se têm limitado a fazer até agora — que os documentos do concílio devem ser lidos em continuidade e não em ruptura com a Tradição. Quando Paulo Sarpi escreveu em 1619 uma história heterodoxa do Concílio de Trento, as fórmulas dogmáticas de Trento não lhe foram contrapostas, mas foi-lhe oposta uma história diferente, a célebre “História do Concílio de Trento”, escrita pelo Cardeal Pietro Sforza Pallavicino (1656-1657) por ordem do Papa Inocêncio X: a história, de fato, se combate com a história, não com a teologia.
Quanto às novidades doutrinárias, alguns estudiosos expressaram críticas e dúvidas sobre o Concílio Vaticano II e seus documentos a partir de uma perspectiva conservadora. Entre essas obras, devemos lembrar Iota Unum, de Romano Amerio (Lindau, Torino 2000); os estudos teológicos de Mons. Brunero Gherardini (O Concílio Vaticano II, um discurso a ser feito, Casa Mariana, Frigento 2009; Um Concílio falho, Lindau, Torino 2011; Vaticano II, à raiz de um equívoco, Lindau, Torino, 2012); e ainda a conferência organizada em dezembro de 2010 pelos Franciscanos da Imaculada (Concílio Vaticano II. Um Concílio Pastoral. Análise histórico-filosófico-teológica) sob a responsabilidade do padre Serafino Lanzetta, autor de um novo recente volume (Iuxta modum, Ignatius Press, San 2012). Para não mencionar a “Súplica” ao Santo Padre, promovida em 2011 pelo Prof. Paulo Pasqualucci e outros estudiosos.
Catolicismo — Qual é a sua posição?
Prof. de Mattei — Associando-me a pedidos de esclarecimento desses estudiosos, ofereço de minha parte uma contribuição que não é a do teólogo, mas do historiador. Não entro, portanto, na discussão sobre a hermenêutica da continuidade/descontinuidade dos documentos. O que descrevo em meu estudo são os fatos, o que reconstruo é o contexto histórico no qual os documentos do concílio viram a luz. Para o historiador da Igreja, a dimensão histórica não pode, todavia, ser separada da teológica. Trata-se de dois planos distintos, mas conexos e interdependentes, como o são a alma e o corpo no organismo humano. E se os fatos históricos colocam problemas teológicos, o historiador não pode ignorá-los, mas deve trazê-los à luz, movido pelo amor à Igreja e não pelo desejo de denegri-la. Da mesma forma, no plano teológico, todos os batizados têm o direito de levantar questões e fazer perguntas à legítima autoridade eclesiástica, embora ninguém tenha o direito de substituir-se ao Magistério supremo da Igreja para resolver definitivamente os pontos controversos.
O problema da relação entre a crise da fé e o Concílio Vaticano II exige uma resposta não somente no plano hermenêutico, mas também, se não sobretudo, no plano histórico. Qualquer que seja o juízo sobre os documentos do concílio, o problema de fundo não é o de interpretá-lo, mas de compreender a natureza de um evento histórico que marcou o século XX e o nosso. Para desatar o nó das relações entre o Vaticano II e a crise do nosso tempo, antes de fazer o trabalho de hermenêutica dos textos, devemos fazer o trabalho de avaliação histórica dos fatos. Só depois da reconstrução histórica, não antes, é que intervém o teólogo ou o Pastor, para formular seu juízo... A missão do historiador é compreender a essência de um evento, procurando rastrear suas causas e consequências nas ideias e nas tendências profundas de uma época: neste caso, o período do Concílio Vaticano II.
Catolicismo — Muitos sustentam que a crise contemporânea da fé não reside no Concílio Vaticano II, mas numa interpretação abusiva de seus documentos...
Prof. de Mattei — Diz-se que os documentos do concílio foram mitificados e postos “fora de seu contexto”. Mas se isso aconteceu, a responsabilidade recai apenas sobre os arquitetos do mito e descontextualização, ou também sobre as autoridades que poderiam ter impedido este trabalho e não o fizeram? Por que a hermenêutica má não foi suprimida? De quais dioceses, paróquias, seminários, cátedras pontifícias, a má hermenêutica ela foi removida? Paulo VI chamou de “falsa e abusiva” uma certa interpretação do concílio, mas se alguém foi removido, discriminado, perseguido, foram os que se mantiveram fiéis à Tradição. E não refiro nem a Mons. Lefèbvre nem a Mons. Castro Mayer. Penso, por exemplo, em Mons. Antonio Piolanti, talvez o maior teólogo italiano do século XX, que foi removido de seu cargo de Reitor da Pontifícia Universidade Lateranense. A púrpura que lhe negaram foi concedida ao padre Yves Congar, OP, que atacava violentamente a eclesiologia ultramontana de Latrão.

É comum ver que o progressismo e a confusão nos meios católicos andam de mãos dadas

“De quem a responsabilidade? Apenas dos progressistas, ou também daqueles que deixaram o progressismo desenvolver-se na Igreja, sem intervir para suprimi-lo?”

O Novo Catecismo vem sendo apresentado como uma ferramenta para a correção da hermenêutica má. Mas a 20 anos de sua promulgação, a má interpretação continua a crescer sem cessar. Não se percebe que, se a preocupação é a de salvar as autoridades eclesiásticas supremas de qualquer responsabilidade quanto aos males do pós-concílio, esta abordagem do problema agrava o mal que se quer evitar. Se de fato fosse verdade que o concílio foi traído por maus intérpretes de seus documentos, como negar a responsabilidade daquelas autoridades eclesiásticas que viram explodir o mal da má hermenêutica e não o reprimiram? Se má era a hermenêutica, e ainda o é, se indevidamente se atribuíram aos documentos do concílio coisas diferentes de quanto estava nele estabelecido, de quem é a responsabilidade? É apenas dos progressistas, ou também daqueles que deixaram esse progressismo desenvolver-se na Igreja, sem intervir para condená-lo e suprimi-lo?
Se nas raízes da crise da fé não está o evento conciliar, mas apenas uma má interpretação dos seus documentos, qual é o juízo que se deverá fazer do evento, considerado no seu desenvolvimento concreto, nas ideias e na psicologia de seus protagonistas, no contexto histórico que o cercou, na mitologia desenvolvida em torno dele? O Concílio Vaticano II não foi apenas interpretado, mas vivido pela teologia progressista como uma virada na História da Igreja. Podem-se negar a existência dessa virada e as mudanças radicais ocorridas dentro da Igreja na época pós-conciliar? O fato objetivo é que, apesar de abusiva, a hermenêutica da descontinuidade prevaleceu sobre a hermenêutica da continuidade já durante o concílio, caracterizando-o na sua essência.
Catolicismo — Qual é então a justa regra hermenêutica?
Prof. de Mattei — A primeira regra hermenêutica é aquela que dá o próprio Nosso Senhor no Evangelho, quando diz que a árvore será reconhecida pelos seus frutos (Mt 7, 17-20). Hoje, os mosteiros estão abandonados, as vocações religiosas entraram em colapso, a frequência à missa e aos sacramentos despencou; bibliotecas, editoras, jornais e universidades católicas difundem erros a mancheias; o catecismo ortodoxo não é mais ensinado; párocos e até bispos se rebelam contra o Santo Padre; os fiéis católicos de todo o mundo estão mergulhados na confusão religiosa e moral e o próprio Bento XVI, durante a homilia de Pentecostes, falou da “Babel” na qual vivemos. Se tudo isto não tem sua causa em um certo “espírito do Concílio” que permeou a Igreja Católica nos últimos 50 anos, de onde vem a sua origem? E se estes são os maus frutos, não do concílio, mas de sua má interpretação, quais são os bons frutos da justa interpretação do concílio? Não quero negar a existência de muitas coisas boas na Igreja contemporânea. Estou convencido de que, com a ajuda da graça, já vemos as sementes de um renascimento. Mas é preciso demonstrar que esses bons e santos frutos têm suas raízes no espírito do concílio, e não antes na seiva da Tradição, que já existia antes do concílio e que ainda hoje continua a fluir nas fibras do Corpo Místico de Cristo, alimentando-o e santificando-o.
Catolicismo — Por fim, que apreciação se pode fazer como historiador deste concílio?
Prof. de Mattei — Independentemente de uma avaliação teológica de seus documentos, o Concílio Vaticano II constituiu, a meu ver, um evento catastrófico para a Igreja. A questão da falta de condenação do comunismo, que mencionei, é suficiente para demonstrar isso. Concordo com o julgamento feito por Plinio Corrêa de Oliveira no apêndice italiano de sua obra-prima Revolução e Contra-Revolução, denunciando “o silêncio enigmático, desconcertante e espantoso, apocalipticamente trágico, observado pelo Concílio Vaticano II a respeito do comunismo”.
Movido somente pelo amor à Igreja, e não pelo desejo de denegri-la, faço minhas as palavras do grande pensador católico brasileiro: “É penoso dizê-lo. Mas a evidência dos fatos aponta, neste sentido, o Concílio Vaticano II como uma das maiores calamidades, se não a maior, da História da Igreja. A partir dele penetrou na Igreja, em proporções impensáveis, a ‘fumaça de Satanás’, que se vai dilatando dia a dia mais, com a terrível força de expansão dos gases. Para escândalo de incontáveis almas, o Corpo Místico de Cristo entrou no sinistro processo da como que autodemolição”.2
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Notas :
1. Em literatura, diz-se de um gênero de discurso (oratória, poesia, etc.) em louvor ou em detrimento de alguém ou de alguma coisa (Dicionário da Língua Portuguesa — www.infopedia.pt
2. Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, São Paulo, Artpress, 2009, p. 135.

 
http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm?IDmat=6F57C01C-A61F-2254-AB4F5293452853CF&mes=Novembro2012&pag=1

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