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quinta-feira, 9 de outubro de 2014

O Movimento dos Oblatos Beneditinos no Mundo

 

Estatuto dos Oblatos


 
 CONGREGAÇÃO BENEDITINA DO BRASIL

ESTATUTO DOS
OBLATOS BENEDITINOS SECULARES

Aprovado ad experimentum pelo Capítulo Geral
da Congregação Beneditina do Brasil em 11 de Maio de 2011
  
O  Movimento dos
Oblatos Beneditinos no Mundo

*Artigo de Dom Rembert Weakland, OSB

O Movimento dos Oblatos entre o antigo e o novo estilo

Quando considero o mundo monástico, vejo que, hoje, o Movimento dos Oblatos está em vias, como direi, de mudança. É um momento de fluidez. Passamos de um antigo sistema de organização para algo um pouco novo. É difícil prever qual será o resultado desse porvir.

Creio que será um retorno aos valores fundamentais da espiritualidade monástica, e também a um tipo de relacionamento bem mais íntimo entre o mosteiro e os Oblatos. Entretanto, a modalidade desse relacionamento ainda não está clara. Sempre tive a impressão de que, quando há uma mutação cultural total no mundo e também na Igreja, isto é, quando se está em vias de passar de um período da história para outro, os mosteiros assumem uma maior importância, porque são comunidades cristãs estáveis em um mundo que muda. Olha-se para os mosteiros como um lugar que pode integrar a melhor tradição do passado e dar a esses valores uma nova expressão no mundo do futuro.

Nesse momento histórico, o mundo monástico tem precisamente um papel importante para ajudar nossa civilização cristã com os valores permanentes de nossa Fé.

Dentre os elementos mais importantes de nossa vida monástica sobre os quais gostaria de lhes falar, encontra-se a estabilidade.

É interessante dar uma olhada nas revistas publicadas hoje em dia para os Oblatos : quantas vezes se fala nelas de estabilidade! Como é importante, hoje, para os monges, a perseverança, a estabilidade. Hoje ainda, um elemento, é um valor importante. E vejo como, para os Oblatos, o acento colocado sobre essa virtude e sobre a oração. 


Elementos da espiritualidade dos Oblatos

É interessante ver a que ponto, hoje, a oração litúrgica entra na espiritualidade dos Oblatos. Esse valor da liturgia é capital para nós, mas também para vocês. Diga-se o mesmo para o valor monástico da solidão, quero dizer, da oração verdadeiramente pessoal; importantíssima para nós atualmente, ela o é também para os Oblatos. No momento em que tudo, no mundo, caminha com a máxima rapidez, experimentamos a necessidade de um pouco de afastamento do mundo, de um certo tempo de paz e de solidão.

Eu diria que é um dever para os nossos mosteiros tornar possível aos Oblatos esses momentos de solidão.

Há também, parece-me, algo a ser dito sobre o equilíbrio entre o trabalho e oração que falta enormemente na vida de cada um.

Desse valor fala-se agora bastante nos meios monásticos. Também, nesse momento de mutação cultural, vejo a utilidade de que há, para o mosteiro, de rever e avaliar esses dois valores permanentes e ajudar os Oblatos a vive-los.


Monges e Oblatos confrontados às atuais mutações culturais

Ainda uma palavra, sobre algo muito importante. Antigamente, em história, dizia-se que os monges, nesses momentos de mutação cultural, puderam salvar a cultura greco-romana e assim criar uma nova cultura ocidental. Presentemente, nós monges somos bem mais modestos. Perante a complexidade do mundo atual, com mudanças culturais tão vastas, além do pouco de vocações que temos, devemos ser bem mais humildes. Quando os historiadores me perguntam se seria possível que nós monges pudéssemos retomar a obra dos monges dos séculos V e VI, eu respondo sempre : não. De fato, não somos mais tão numerosos como outrora, não temos as mesmas capacidades e, além do mais, as mudanças culturais são muito vastas e complexas! Devemos ser bem mais humildes. No entanto, hoje temos uma outra maneira de abordar essas mudanças, quero dizer, não somente como monges, mas como monges unidos aos Oblatos, numa espécie de mosteiro mais amplo, no sentido em que o mosteiro englobe Oblatos e Oblatas. Desse modo, o mosteiro aumenta sua extensão e pode fazer um bem muito maior.

Para ajudar nossa civilização em face de qualquer mudança, não importa qual, devemos aceitar a dimensão do mosteiro incluindo Oblatos e Oblatas. Tomemos, por exemplo, o domínio das ciências. Não se pode mais pedir aos monges que sejam especialistas em todos os setores das ciências.

Em nossos dias os monges não podem mudar uma cultura sem esse prolongamento do mosteiro que vocês constituem. É algo que atualmente me parece muito importante e pede de nossa parte mais humildade e uma colaboração mais empenhada com vocês.


O carisma monástico na Igreja, para a Igreja

Quando viajo pelas diversas partes do mundo digo aos monges que eles devem ter um senso eclesial mais acurado. Nós, monges, nos gabamos de ser independentes. Cada mosteiro é autônomo e por isso achamos que nos bastamos a nós mesmos.

Meu mosteiro tem uma mina de carvão. Temos também um dínamo para a eletricidade e proclamamos que não temos necessidade da sociedade que nos cerca porque podemos fazer tudo por nós mesmos...Uma vez chegamos até a fabricar tijolos para construção...e assim por diante. No momento presente, vemos que fazer tudo isso por conta própria sai muito mais caro. É bem mais fácil comprar eletricidade do que produzí-la. E assim vamos nós, cada vez mais nos tornando tributários da sociedade onde vivemos. É natural. Talvez os monges vendo a independência ou, sobretudo, a autonomia que tiveram, tenham se constituído um pouco como Igrejas quase independentes, em Igrejas de elite.

Em viagem, ouço com frequência a opinião de outras pessoas sobre os monges : Mas os monges, são a classe do esnobismo espiritual! Fala-se assim a nosso respeito por causa de nossa independência infelizmente orgulhosa. Quando vou a algum mosteiro, procuro dizer aos monges o que dizia São Paulo: A cada um é dada a manifestação do Espírito, em vista do bem de todos (1Cor 12,7). É preciso evitar com todo cuidado acreditar que somos independentes da Igreja. Todo carisma é para a Igreja, e os monges também são para a Igreja.


Os Oblatos necessários para os monges

Portanto, é para nós uma obrigação ter Oblatos e Oblatas. Não é algo que se faça por bondade, para difundir nossa espiritualidade. Nossa espiritualidade monástica é para a Igreja e deve verdadeiramente ajudar a comunidade eclesial. Não se trata, pois, de fazer alguma coisa por vocês, graças ao grupo de Oblatos, por bondade e dever de fazê-lo ou para aparecermos : quando se fala hoje de Oblatos, trata-se de uma necessidade vital para os mosteiros. A comunidade monástica deve de alguma maneira se dilatar. Falando certo dia a um grupo de monjas beneditinas, Paulo VI lhes disse: Quando os hóspedes vêm ao mosteiro, não é por que suas hospedarias são bastante confortáveis, pois pode-se ir para um hotel onde se encontra coisa melhor; o que motiva a vinda de alguém a um mosteiro, hoje, é o desejo de viver em um ambiente de fé, de estar em contato com uma comunidade que vive a fé. A vida monástica não tem sentido algum se nela não existe fé.

O desejo do cristão atual de estar perto de um mosteiro, é de nele encontrar um reconforto, um apoio em sua vida de fé. Igualmente nós monges temos um dever de partilhar com os outros nossa fé na Igreja; como São Paulo foi reconfortado em sua fé à vista das comunidades fiéis, do mesmo modo sejam vocês todos como São Paulo (2Ts 1,4). Quando alguém visita um mosteiro, deveria poder dizer : eu me sinto mais cristão, mais fortalecido em minha fé.


Movimento dos Oblatos : extensão do mosteiro

Gostaria de mostrar como o Movimento dos Oblatos deve se tornar uma extensão do mosteiro. É esse, pelo menos, o sentido que se dá à oblatura em nossos dias. Através dos Oblatos e Oblatas, o mosteiro com sua espiritualidade pode atingir inúmeros ambientes que, sozinho, ele não poderia de forma alguma atingir!

Digo sempre extensão. Não me agrada, e digo isso um pouco a guisa de advertência, que um grupo de Oblatos se torne um grupo de pressão sobre os mosteiros : isso pode dar ocasião a dificuldades. Oblatos e Oblatas devem caminhar com o mosteiro, não lhe opor resistência nem criar um grupo contestatório. Às vezes, vejo isso atualmente, talvez como consequência de uma falta de ligação, de uma caminhada em comum. Por conseguinte, os Oblatos não deveriam ser um grupo de vanguarda para dizer aos monges como eles deveriam viver. Isso eu digo sempre : não me sinto de modo algum à vontade quando os Oblatos me dizem como eu deveria viver minha vocação. Todos nós temos nossa vocação e é belo poder intercambiar lealmente. Eu não devo me tornar  Oblato nem viver como vocês, e reciprocamente.


Oblatura e formação

Hoje, para a espiritualidade dos Oblatos, os monges procuram evitar uma espiritualidade de clausura : é preciso, sobretudo, uma espiritualidade no mundo. Já falei sobre isso e me parece evidente.

Por conseguinte, acentua-se a oblatura como tal. Isso constrange um pouco certos Oblatos que vêem seu noviciado e sua oblação como uma imitação do noviciado e da profissão dos monges. O valor da oblação deveria ser estudado teologicamente um pouco mais a fundo.


Troca de experiências entre monges e Oblatos

Finalizando, queria dizer uma última palavra. No decurso da história, sempre concebemos a relação mosteiro-Oblatos em mão única : o mosteiro dá aos Oblatos um pouco de espiritualidade monástica. Como professores, os monges; como alunos, os Oblatos. Ao menos era a prática habitual.


Agora, começamos a praticar um intercâmbio mais largo, pois os Oblatos e as Oblatas têm uma experiência da vida que o monge não pode ter; eles têm, portanto, de um lado uma contribuição que podem dar ao monge para seu progresso e sua compreensão do mundo em que vive. É também interessante constatar em nossos dias essa colaboração entre monges e leigos para o bem da Igreja.


Fonte :
*Dom Rembert Weakland, OSB, antigo monge e Abade-Coadjutor da Arquiabadia de Saint Vincent, Pennsilvania (1963-1977), foi Abade Primaz da Confederação Beneditina (1967-1977) e posteriormente Arcebispo Metropolitano de Millwaukee, Estados Unidos (1977-2002). Hoje é Arcebispo Emérito.