sábado, 5 de junho de 2010

Extractos do livro “Relatos de um Peregrino Russo”: "A oração de Jesus, interior e constante, é a invocação contínua e ininterrupta do nome de Jesus com os lábios, o coração, a inteligência, no sentimento da sua presença, em todo o lugar, em todo o tempo, até durante o sono. Ela é expressa por estas palavras: 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim'". "Todo o meu desejo estava fixo numa só coisa: dizer a oração de Jesus; e, desde que me consagrei a isto, estive sempre tomado de alegria e de consolo. Era como se os meus lábios e a minha língua pronunciassem por si mesmos as palavras, sem esforço da minha parte".

Espiritualidade cristã oriental: a oração do coração - relatos de um peregrino russo



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peregrino
O livro “Relatos de um Peregrino Russo” é um clássico da espiritualidade cristã oriental. Foi escrito no século XIX, por um monge russo anónimo. O livro conta a história de um homem que queria aprender a rezar. Ele leu certa vez na Bíblia que deveríamos "orar sem cessar". Procurou então muitos mestres, mas nenhum o satisfez até que encontrou um monge que lhe ensinou a ORAÇÃO DE Jesus, a repetição do nome de Jesus... O homem então começou a repetir o nome de Jesus até que a oração tomou conta da sua mente e do seu coração.

Repetir o nome de Jesus, também chamada oração do coração, nada tem a ver com atribuições mágicas ao Santíssimo nome do Senhor, como alguns preconceituosamente pensam. Se assim fosse, a repetição de jaculatórias, como nós fazemos tão frequentemente e em tão grande número, seria também uma espécie de magia e não é.

A ORAÇÃO DE Jesus consiste em sentar-se em silêncio, aquietar a mente e dirigir a atenção ao coração, procurando trazer a respiração ali e sentindo-se o seu efeito. E, ao fazer isso, murmurar ou pensar nas palavras: "Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim”. Isto nada mais é do que uma jaculatória cristocêntrica; esta forma de fazer oração era muito praticada entre os padres do deserto, logo faz parte da Tradição que, infelizmente, se perdeu um pouco no Ocidente e está agora a ser recuperada.

Como água em pedra dura, a repetição vai amolecendo o coração do peregrino, “aprofundando-se na sua carne”. Ele repete as palavras 3 mil, 6 mil,12 mil vezes ao dia. E passa por vários estados: do desconforto e preguiça iniciais às primeiras sensações de calor no peito, à purificação vinda pelas lágrimas, até atingir a experiência do amor divino. Esse homem alcançou a oração contínua, aprendeu a "orar sem cessar". Repetia o nome de Jesus durante todo o dia e até durante o sono o nome de Jesus estava no seu coração.

Esta espectacular obra, este óptimo clássico de espiritualidade cristã oriental conta a história de como esse homem aprendeu a "orar sem cessar", por meio da ORAÇÃO DE Jesus ou do coração, que consiste na repetição do nome de Jesus.

Alguns trechos do livro “Relatos de um Peregrino Russo”:
"Por graça de Deus sou homem e sou cristão; pelas minhas acções sou um grande pecador. Os meus bens são: as costas, uma sacola com pão duro, a santa Bíblia no bolso e só... Por estado, sou peregrino da mais baixa condição, andando sempre errante de um lugar ao outro. No vigésimo quarto domingo depois de Pentecostes, fui à igreja para ali fazer as minhas orações durante a liturgia. Estava a ser lida a primeira Epístola de S. Paulo aos Tessalonicenses e, entre outras palavras, ouvi estas: 'Orai incessantemente' (1Ts 5,17). Foi esse texto, mais do que qualquer outro, que se inculcou na minha mente; comecei a pensar como seria possível rezar incessantemente, já que um homem tem de se preocupar também com outras coisas a fim de ganhar a vida".

"É preciso lembrar-se de Deus em todo o tempo, em todo o lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e agradece-Lhe, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo o movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e a tua alma estará sempre alegre".

"A oração interior incessante é um anseio contínuo do espírito humano por Deus. Para sermos bem-sucedidos nesse exercício consolador, temos de suplicar com mais frequência a Deus que nos ensine a rezar sem cessar. Rezar mais e rezar com mais fervor. É a própria oração que revela como rezá-la sem cessar; mas leva algum tempo".

"Dá graças a Deus, irmão muito amado, por ter-te Ele revelado essa invencível atracção que existe em ti até à oração interior contínua. Reconhece nisso o chamamento de Deus e tranquiliza-te ao pensar que assim foi devidamente provado o acordo da tua vontade com a palavra divina; foi-te dado compreender que não é nem a sabedoria deste mundo nem um vão desejo de conhecimento o que conduz à luz celestial - à contínua oração interior—, senão ao contrário, a pobreza de espírito e a experiência activa na simplicidade do coração".

“Permanece sentado no silêncio e na solidão, inclina a cabeça e fecha os olhos; respira suavemente, vê pela imaginação o interior do teu coração, recolhe a tua inteligência, isto é o teu pensamento, da tua cabeça ao teu coração. Diz, ao ritmo da respiração: “Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim”, em voz baixa, ou simplesmente em espírito. Esforça-te em lançar fora todos os demais pensamentos, sê paciente e repete com frequência este exercício".

"A oração de Jesus, interior e constante, é a invocação contínua e ininterrupta do nome de Jesus com os lábios, o coração, a inteligência, no sentimento da sua presença, em todo o lugar, em todo o tempo, até durante o sono. Ela é expressa por estas palavras: 'Senhor Jesus Cristo, tende piedade de mim'".

"Ao fim de certo tempo notei que a oração originava-se sozinha dentro do meu coração, ou seja que o meu coração, batendo com toda a regularidade, punha-se de certo modo a recitar as palavras santas a cada batida; por exemplo: 1-Senhor, 2-Jesus, 3-Cristo, e assim com as demais. Deixava de mover os lábios e ouvia com atenção o que dizia o meu coração, lembrando-me de quão agradável é isto”

"Todo o meu desejo estava fixo numa só coisa: dizer a oração de Jesus; e, desde que me consagrei a isto, estive sempre tomado de alegria e de consolo. Era como se os meus lábios e a minha língua pronunciassem por si mesmos as palavras, sem esforço da minha parte".

"Então senti como um rápido calor no meu coração, e tal amor por Jesus Cristo no meu pensamento, que me imaginei, a mim mesmo, ajoelhando-me aos seus pés – Ah se pudesse vê-lo! – abraçando-o, beijando com ternura os seus pés e agradecendo-lhe com lágrimas ter-me permitido, na sua graça e no seu amor, encontrar no seu nome tão grande consolo – a mim, sua criatura indigna e pecadora. Em seguida veio ao meu coração um calor agradável que se expandiu por todo o meu peito".

“Quando rezava, no fundo do meu coração, tudo o que me cercava aparecia sob um aspecto maravilhoso: árvores, ervas, pássaros, terra, água, ar... tudo parecia dizer-me que existem para o homem, que através do Amor de Deus, tudo rezava, tudo cantava a glória do Senhor. Compreendia assim aquilo que a Filocalia chama de consciência, o conhecimento da linguagem da criação, e via como é possível conversar com as criaturas de Deus”

"Algumas vezes o meu coração resplandecia de alegria, parecia leve, pleno de liberdade e de consolo. As vezes eu sentia um amor ardente por Jesus Cristo e por todas as criaturas de Deus... As vezes, invocando o nome de Jesus, estava repleto de felicidade e, depois disto, conhecia o sentido destas palavras: 'O reino de Deus está dentro de vós".
fonte:vida espiritual católica