Don Divo Barsotti

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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Há 3 anos, falecia em Santos, SP, Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis. Apresentamos a última entrevista concedida por Dom Pestana ao "Fratres in Unum", pouco mais de um mês antes de sua morte.

Fratres in Unum entrevista Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás).

Excelência Reverendíssima, primeiramente, obrigado por ter atendido a nosso pedido. O senhor louvou a atitude de certos bispos em falar abertamente contra candidatos que defendem posições contrárias à Lei de Deus. Por que raríssimos membros do episcopado se pronunciaram de maneira enérgica durante as eleições?
Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás)
Dom Manoel Pestana Filho, bispo emérito de Anápolis (Goiás)
Agradeço-lhes a confiança e as orações. Entretanto devo confessar que não me sinto juiz de meus irmãos. Sei que muitos apelam, com sinceridade ou sem ela, não julgo, que a prudência deve acompanhar todos os nossos passos. Reconheço, no entanto, como dizia o Cardeal Pie, que há uma prudência que nos mata. Não ladramos, quando seria necessário, para defender o rebanho. E, hoje, muito menos, quando é hora de morder, para afastar o inimigo.
Alguns regionais da CNBB publicaram instruções aos fiéis para as eleições passadas, sem, no entanto, condenar de maneira enfática os projetos daquela que o Papa João Paulo II qualificou como “cultura de morte”. Por que tanta tibieza por parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil?
Volto a dizer que não sou juiz da consciência dos meus irmãos. Mas sou obrigado a reconhecer, com Leão XIII, que a covardia dos bons, (se é que são bons os covardes) alimenta a audácia dos maus. Não sou ninguém para condenar, pois o mesmo Dante colocou alguns, não dentro, mas às portas do inferno… E observou: não perca tempo com eles: olhe e segue adiante.

Excelência, como o senhor avalia a situação da Igreja com todas as dificuldades do pós-concílio?
Na Revista Italiana Cristianitá (nº 346 – marzo-aprile 2008 pag 3), Massimo Introvigne faz uma recensão de “Roma, due del mattino”, de Mons. Helder Câmara, citando o autor, quando diz que as imprecisões dos textos conciliares serão explicadas depois, abrindo-se assim a porta ao Concílio Vaticano III que aprovará, certamente, entre outras coisas, diz ele, os anticoncepcionais e o sacerdócio das mulheres. É apenas um exemplo para a afirmação de que uma coisa é o que se disse no Concílio e, pior, o que se disse do Concílio, e o que o Concílio disse. Infelizmente, muitos se aproveitaram do “espírito” do Concílio para espalhar o que ele não disse. Graças a Deus e à sua providência que não falha, o Santo Padre Bento XVI vem luminosamente corrigindo os desvios.

A obra de Monsenhor Brunero Gherardini — Concilio Ecumenico Vaticano II, un discorso da fare — levanta questões importantes e julga necessário um debate sobre os textos do Concílio Vaticano II. O senhor considera possível tal discussão nas circunstâncias atuais?
Certamente. E, o Santo Padre, em suas homilias e documentos, de clareza incomparável, deixa o campo aberto, apesar das ruínas lamentáveis nas áreas da Teologia e da Liturgia, a uma renovação do Espírito.
Qual a relação entre a mensagem de Fátima e o Concílio Vaticano II?
Lamentavelmente, o ambiente conturbado não permitiu, explicam, a mínima referência à Rússia e a condenação expressa do comunismo. Ora, isto era, até como condição de tempos melhores, expressamente pedido pela mensagem de Fátima.

Seria possível dizer que o Concílio Vaticano II é responsável pela crise em que vivemos hoje?
Não pelo Concílio, mas pelo que, desgraçadamente, se fez dele.
O então Cardeal Eugenio Pacelli disse, certa vez, que na mensagem de Fátima a Santíssima Virgem alertava para o perigo da mudança no culto da Igreja. A mensagem de Fátima alertava sobre a reforma litúrgica? Que avaliação fazer dela?
Não me consta nenhuma referência clara à Liturgia na mensagem de Fátima. Mas, como se sabe, de tempos imemoriais, que a liturgia expressa a fé e a revela (é só pensar no Arianismo e no abalo da fé na Eucaristia que tantos abusos litúrgicos causaram), e levando-se em conta a confissão de lamentáveis manobras de Mons. Bugnini, em acolhida a sugestões do Grão Mestre da Maçonaria Italiana, não se pode negar que a Liturgia, objeto do primeiro documento solene, foi gravemente comprometida por assessores conciliares.
A consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria já foi realizada?
É ainda assunto de muitas divergências, mas creio que o que se fez até agora não leva em conta as principais exigências do pedido de Maria. Entretanto, continuo confiando na sua promessa: “Por fim, meu Imaculado Coração triunfará”.
A próxima Campanha da Fraternidade tratará do problema do meio ambiente, relegando ao ostracismo as verdades da nossa fé católica para tratar da “mãe terra” e da ideologia ecológica hoje em voga. O que pensar sobre tais campanhas?
Penso que algumas, mais do que às necessidades inadiáveis dos nossos fiéis, curvaram-se às tendências ou até exigências dos chamados meios de comunicação. Em certos casos, é mesmo gritante o desgaste de tempo, comissões, entrevistas e recursos para temas que não trouxeram nada de relevante para a nossa vida eclesial e até cívica, deixando a autêntica evangelização e formação religiosa em quase abandono.
Por fim, Excelência, fique à vontade para dirigir a nossos leitores uma mensagem final.
Dom Manoel Pestana com o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli; a ordem foi a responsável pela publicação da obra de Mons. Brunero Gherardini.
Dom Manoel Pestana com o fundador dos Franciscanos da Imaculada, Pe. Stefano Manelli; a ordem foi a responsável pela publicação da obra de Mons. Brunero Gherardini.
Que posso dizer, uma voz quase a extinguir-se, no meio da cultura do barulho, que pouco permite o silêncio necessário para ouvir e entender? Nós, católicos, precisaríamos conhecer, de fato, cada vez mais a nossa religião, que não é apenas uma entre tantas. Jesus disse:
Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja.
“Os poderes da morte e do inferno não hão de derrubá-la.”
“Eu estarei convosco até a consumação dos séculos.”
Nossas igrejas terão sempre, enquanto permitirmos, Alguém à espera dos abalados na fé, dos que perderam a esperança e o rumo na vida, para confiar-nos, a qualquer momento, sem cansar: “Eu sou o Caminho (para os perdidos), a Verdade (para os enganados), a Vida (para os agonizantes, à falta de Amor e solidariedade).
Enquanto a luz do sacrário estiver acesa, sabemos que Alguém nos espera. Não estamos sozinhos. E podemos ajudar, com a graça do Senhor, a salvar os irmãos!