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sábado, 5 de julho de 2014

Joseph Ratzinger - Bento XVI: Introdução ao Espírito da Liturgia

Introdução ao Espírito da Liturgia

Joseph Ratzinger - Bento XVI



Diz: " Se este livro puder servir de estímulo para algo como um " movimento litúrgico", um movimento para a liturgia e sua correta celebração, exterior e interior, o intuito que me impeliu a este trabalho estará plenamente realizado" -

Peçamos a Deus que isto aconteça, para a Glória de Seu Nome e para o nosso bem.

Sobre a Essência da Liturgia:

O que entende por Liturgia?

Neste primeiro capítulo, Bento XVI cita a ideia surgida na década de 1920, sobre a Liturgia ser comparada a um jogo,e que como todo jogo, possui regras próprias. Ele é dotado de sentido, "mas ao mesmo tempo livre, e exatamente por isso, possui em si algo de terapêutico, aliás, de liberatório, a partir do momento que nos faz sair do cotidiano e dos fins que o caracterizam, libertando-nos durante um certo período de tempo, de tudo aquilo que oprime nossa vida de trabalho. O jogo seria, por assim dizer, um outro mundo, um oásis de liberdade onde podemos, por um momento, deixar fluir livremente a existência, para neste momento de evasão do domínio do cotidiano, suportar seu jugo"

Mas tudo isso poderia ser usado em qualquer tipo de jogo e é por isso que devemos mencionar um outro aspecto nesta teoria do jogo que o fará se aproximar da essência da Liturgia: "Assim como toda brincadeira de criança parece, em inúmeros aspectos, uma espécie de antecipação da vida, um treinamento para aquilo que será a sua vida, sem, todavia, incluir todo seu peso e a sua seriedade. Do mesmo modo, a Liturgia lembra que todos nós, diante da verdadeira vida, que desejamos alcançar, somos no fundo como crianças, ou que deveríamos se-lo; a liturgia, então, seria uma forma completamente diferente de antecipação, de exercício preliminar: prelúdio da vida futura, da vida eterna, da qual Agostinho afirma que, ao contrário da vida presente, aquela não será feita de necessidades e obrigatoriedades, mas inteiramente da liberdade de oferecer e dar".

"A Liturgia seria, então, a redescoberta do nosso autentico ser criança dentro de nós, ela seria uma forma definida da esperança, que antecipa a verdadeira vida, que nos introduz na vida autêntica - a da liberdade, da proximidade com Deus e da total abertura recíproca. Assim, ela exprime também na vida real cotidiana os sinais precursores da liberdade, que derrubam barreiras e deixam transparecer o céu na terra. Semelhante aplicação da teoria do jogo, eleva a liturgia bem acima da brincadeira em geral"

Nova abordagem a partir dos textos bíblicos:

Na narração dos fatos que antecederam a saída do povo de Israel do Egito, bem como na dos vários episódios do Êxodo, duas diferentes finalidades emergem para esse evento extraordinário:

1 - Uma é a chegada à Terra prometida, onde Israel finalmente irá viver livre e independente na terra que é sua. Ao lado desta, surge uma outra finalidade: a ordem original que Deus dá ao faraó: " Deixa partir meu povo, para que me sirva no deserto!" (Ex 7,16) Esta expressão Deixa partir meu povo, para que me sirva" - se repete quatro vezes, ou seja, em todos os encontros do faraó com Moisés e Araão.

Depois de várias negociações a finalidade vai sendo, então, concretizada. O faraó aceita o compromisso, já que para ele a questão é a liberdade de culto - " Ide, oferecei sacrifícios ao vosso Deus, mas dentro do país" (Ex 8,21). Moisés fiel a ordem recebida, insiste em afirmar que para o culto é necessário o êxodo, já que o lugar estipulado é o deserto - "Havemos de ir ao deserto, a três dias de caminho, e ofereceremos (lá) sacrifícios ao Senhor, nosso Deus, conforme ele nos ordenou.”(Ex 8,27)
Depois das pragas faraó se mostra mais acessível, permite, então, que o culto se realize segundo a vontade da divindade, mas impo~em que só os homens saiam, e que todos os demais: mulheres, criança e animais fiquem no Egito. Desse modo, nos diz bento XVI: " pressupõe uma praxis cultual então usual, segundo a qual apenas os homens eram protagonistas ativos no culto"
Moisés não pode negociar a modalidade do culto com o faraó, nem pode subordinar o culto a compromissos políticos: " a forma do culto não é questão de concessão política; o culto possui a sua própria medida, e só pode ser regulado pela medida da revelação de Deus"
Por esta razão, também é recusada a terceira proposta de compromisso do faraó, o qual dessa vez, manifesta permissão para que mulheres e crianças também possam partir e Moisés responde que precisa levar consigo também os animais, porque, " enquanto não chegarmos até o lugar marcado, não sabemos com que haveremos de servir a Javé" (Ex 10, 26)
Em todas as negociações não se fala em Terra prometida: o único objetivo do Êxodo parece ser a adoração, que só pode acontecer segundo a medida de Deus, e que, por essa razão, foge das regras do jogo do compromisso político.
Depois continuamos.
Deus seja Louvado!
 
Parte II

A Partida de Israel:

Israel não parte para ser um povo como todos os outros povos; mas para servir a Deus.

A meta do Êxodo é a montanha de Deus, ainda desconhecida e a finalidade: prestar serviço a Deus. Alguns poderiam pensar que o acento posto no culto ao longo das negociações com o faraó foi de natureza tática.O verdadeiro e único objetivo do êxodo não seria o culto, e sim a terra, que aliás, constitui o real objeto da promessa feita a Abraão. Não creio, diz Bento XVI -; ' que com isso se possa justificar a gravidade que se percebe nos textos.

No fundo, diz ele, a contraposição de terra e culto não tem sentido: " a terra é ofertada para ser um lugar de veneração do Deus verdadeiro. A mera posse da terra , a mera autonomia nacional fariam Israel descer ao nível dos outros povos. Essa finalidade levaria a ignorar a especificidade da eleição: A história inteira dos juízes e dos Reis, mostra justamente que a terra como tal, vista em si mesma, permanece como um bem indeterminado, que se torna bem autêntico,verdadeiro dom da promessa cumprida só se aí reinar Deus, e se a terra não existir como uma espécie de estado independente, mas se for o espaço da obediência, onde se cumpre a vontade de Deus e, assim, se realiza a maneira correta da existência humana"

Vejamos a análise do texto bíblico:


Nela vemos a relação entre as duas finalidades do Êxodo. Após três dias, o Israel peregrino ainda não compreendeu que tipo de sacrifício Deus espera dele. Três meses depois, porém, " da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, naquele dia chegaram ao deserto do Sinai" (Ex 19,1). No terceiro dia, Deus desce no cume da montanha (19,16.20). Deus fala ao povo, manifesta a sua vontade nas dez santas palavras (20,1-17), e sela com Moisés a aliança (Ex 24), que se concretiza 'numa forma de culto minuciosamente regulamentado'.


Israel aprende então, a adorar a Deus do modo desejado por Ele. E dessa adoração faz parte o culto, a liturgia em sentido restrito, mas exige viver segundo a vontade de Deus, que é uma parte imprescindível na verdadeira adoração. E o culto serve, portanto, para oferecer o olhar à Deus e assim dar a vida, que se torna glória para Deus.

***


Depois retornamos para ver como Israel se constitui verdadeiro povo de Deus e como a Liturgia, o culto são peças chaves na história deste povo.


 
Parte III







O Sinai, Deus e Israel:

" No Sinai o povo não recebe somente as prescrições cultuais, mas uma organização jurídica e uma regra de vida completas. Somente deste modo ele se constitui como povo. Sem uma organização jurídica comunitária, um povo não subsiste. Cai na anarquia, paródia da liberdade, a anulação do arbítrio de cada um, que é a sua total ausência da liberdade. Na organização da aliança, estão envolvidos, além do culto, direito e vida que se entrelaçam. Na idade moderna, vimos que houve um desmembramento que acabou por conduzir á total secularização do direito e excluiu totalmente toda referência a Deus na elaboração desse direito e " Um direito que não se baseia na moral se torna injustiça; uma moral e um direito que não tem sua origem na referência a Deus degradam o ser humano, porque o privam de sua medida mais elevada e de sua possibilidade mais alta, visto que lhe negam a visão do infinito e do eterno; com essa aparente libertação ele é submetido à ditadura da maioria dominante, a critérios humanos limitados que terminam por submete-lo á violência"

Essência do Culto e da Liturgia

" Uma organização das coisas humanas que desconhece a Deus diminui o ser humano. Por isso culto e direito não podem ficar completamente separados entre si: Deus tem direito à resposta do ser humano, tem direito ao próprio homem, e onde esse direito de Deus desaparece por completo também se dissolve a organização jurídica humana, porque lhe falta a pedra angular que mantém o conjunto unido"

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